livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

A ciência sem ciência

Que nunca seja abandonado pela humanidade este mistério, que nunca se desista do amor só porque sim. Tudo se torna suportável quando nos partilhamos, quando não receamos dar o nosso olhar ao desconhecido. Que perdure pela eternidade a vontade de contar as estrelas, a vontade de dançar ao luar numa estrada qualquer, que continuem a ser feitas as loucuras que não podem ser expressas em palavras, que no final de contas continuemos a esboçar com leveza um sorriso só por termos quem temos ao nosso lado.


Muitos são os ditos e provérbios, e na hora da verdade, dos conceitos e preconceitos, sobra apenas o nosso sentir. Não se desenham moldes perfeitos para amarmos, não se amam modelos de comportamento, não existe forma de amar em linha recta. Ama-se porque se ama, assim mesmo, sem qualquer explicação. Desvendar o mais grandioso dos mistérios seria esvaziar-nos da beleza mais pura que existe dentro de nós.

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Infelizmente, nem sempre a vida nos presenteia com cerejas ou estrelas, o fardo é muitas vezes pesado, rebenta com qualquer psicologia barata ou cara. Estamos cá a sobreviver, cada um com a sua cruz, os problemas existem, é facto. Com o passar dos anos, acumulamos experiência de vida, e quando se espera que sejamos mais maduros nas atitudes, percebemos que carregamos fardos acumulados tão pesados, que nem vemos os punhais cravados na nossa alma que não deixa de sangrar. Feridas delicadas abertas ao longo dos anos, que só nós próprios poderemos tratar com delicadeza e amor próprio. Ansiamos por vidas perfeitas vistas nalgum filme, e temos alguma dificuldade em aceitar que os problemas continuarão a existir. É mais feliz quem aceita que os problemas existem na vida real, e escolhe conscientemente contorná-los ao invés de ser engolido na sua teia derrotista. Não exige muita reflexão, é uma linha simples de pensamento, todos procuramos o mesmo afinal: Bem-estar! Sentir esta paz de espírito, adormecer na consciência que demos o nosso melhor no fim do dia, trata-se apenas e somente disto, isto basta para fazer uma vida feliz.

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Ainda que o nosso melhor não seja o bastante para resolver todos os problemas, é suficiente para dormirmos em paz. É abismal a quantidade de pessoas perdidas na vida sem qualquer direcção, sem saber que passos dar, enclausuradas nas curvas do medo da existência. Como seria bom poder dizer a estas pessoas, que tudo o que precisam é caminhar no sentido do bem-estar próprio, nada mais é importante. Esta é a força maior que deveria comandar as nossas vidas, identificar o que nos devolve o bem estar e lutar por isso como se não houvesse amanhã, 24 horas por dia, sem nunca deixar de acreditar, sem nunca questionar, na certeza de que o dia virá, tarde ou cedo virá, porque nada nesta vida é definitivo.

O amor tem aqui o seu papel de relevo, este mistério da humanidade tem a capacidade inata de nos fortalecer quando estamos em frente ao abismo. Necessitamos deste alívio de carga nas nossas vidas, precisamos de sorrir com quem nos faz sorrir, voltar a rir como as crianças que nunca deixámos de ser, deixar os olhares fazerem o trabalho que as palavras não conseguem fazer, e deixar a delicadeza entrar pelos gestos expressos num sentir puro. É tão bom amar pessoas cheias de defeitos e virtudes, seres realmente humanos, capazes de nos fazer sorrir e fazer chorar. É uma imensidão de sentires que nunca iremos, nem queremos, entender, um lugar que apesar de todos os espinhos, nos trás de volta à nossa essência. É este acreditar que faz mover a humanidade, é este acreditar que nos aproxima uns dos outros, é este acreditar que nos dá leveza de espírito. É no abraço real ou imaginário que encontramos forças, é nas lágrimas e nos sorrisos partilhados que nos sentimos alguém que importa, é nas saudades sentidas que encontramos a nossa essência pura nunca desvirtuada.

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Que nunca seja abandonado pela humanidade este mistério, que nunca se desista do amor só porque sim. Tudo se torna suportável quando nos partilhamos, quando não receamos dar o nosso olhar ao desconhecido. Que perdure pela eternidade a vontade de contar as estrelas, a vontade de dançar ao luar numa estrada qualquer, que continuem a ser feitas as loucuras que não podem ser expressas em palavras, que no final de contas continuemos a esboçar com leveza um sorriso só por termos quem temos ao nosso lado.


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