livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

A vida apenas acontece...

A vida apanhar-nos-á sempre desprevenidos numa terça-feira de manhã, não temos como prever ou controlar o imprevisto e um dia ele chegará. Até que esse momento entre em definitivo, podemos transformar o difícil em fácil, o impossível em possível, esquecer os modelos de vida inventados para dar lugar à nossa verdade, chamar a nós o que realmente nos realiza e nos dá paz


Não somos donos de nada na nossa vida, apenas e somente somos responsáveis pelas nossas escolhas diárias, que são diversas e variadas consoante os nossos acasos de vida. Não existem vidas estáveis, a qualquer momento perdemos o emprego, a relação que tínhamos termina no meio de algum acaso, alguém que nós é querido morre, outro alguém desaparece do mapa, uma doença aparece. Não temos qualquer controle sobre estas situações, e estamos cansados de saber que elas acontecem perto de nós, e um dia até a nós próprios. Como nos preparamos para as perdas? Enfiamos a cabeça na areia até passar a dor? Enfrentamos a dor de frente? Não é simples lidar com situações inesperadas que desenham por nós o caminho que não queríamos trilhar. De repente vemo-nos dentro de uma espiral sem fim que nos consome e adia. Quantas e quantas vezes enfiámos a cabeça na almofada e achámos que éramos as criaturas mais infelizes ao cimo da terra? Quantas e quantas vezes a cabeça não pára de nos gritar, e damos connosco a forjar situações de fuga apenas para poder dar descanso ao corpo que fraqueja? Mata-nos sempre um pouco este sentimento de falência técnica perante a vida.

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É neste momento que podemos por a inteligência ao nosso serviço. É quando a maré nos quer levar, quando a mágoa já não dói na pele, é precisamente nesse momento em que percebemos que já não temos nada a perder que temos a capacidade de intervir positivamente e realizar transformações profundas dentro de nós. Exige muita força de vontade, a força interior dos que nunca desistem, a certeza de que nos bastamos para atingirmos um bem estar que nos permita viver em harmonia! O que será afinal necessário para estarmos bem? Pouco…Muito pouco! Deitar a cabeça aconchegada nalgum lado e sentir a leveza do mundo no corpo. Dormir em paz conosco próprios, a felicidade que vem de dentro para fora e nunca de fora para dentro. Ser feliz passa muito mais pelo nosso esforço do que pelo esforço de terceiros.

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É a luta interior que nos consome, é esse enorme deserto e vazio de Ego que nos retira as forças motrizes da existência. Ninguém poderá fazer o caminho pelo nosso pé, são os nossos velhos padrões que temos de questionar ou abandonar se assim for preciso, porque valemos a pena, porque a vida é uma bênção, porque não necessitamos da validação ou caridade alheia sobre o nosso sofrimento. Só desta forma poderá existir uma transformação duradoura que não carece de selo alheio, só desta forma largaremos as muletas que nos impedem de ir mais longe, só desta forma nos posicionaremos de peito aberto para o mundo e para a vida. E quem está de frente, enfrenta, não foge. A vida em si só não tem consciência moral, está em constante desequilíbrio, não se equilibra de acordo com os valores do bem e mal, a vida pode realmente ser injusta, apenas acontece a todo o momento e não temos como controlar o curso de um rio que corre sem a nossa mão. O sofrimento apenas advém de desejos não realizados, de projecções que antecipámos não realizadas. Arquitecturas do Ego não identificadas, e sobre as quais é necessário um revirar de de paradigma para atingir uma consciência pura e verdadeira, livre de ego e autêntica perante a nossa existência.

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Somos seres humanos, maior parte das vezes tudo o que precisamos é do abraço sentido da compreensão humana. O eterno amor que nunca se esgota, vem de dentro para fora e permite-nos atingir os patamares da felicidade genuína. Tem de existir a coragem de pedir o braço, de sermos apenas essência sem máscara forçada, de mostrarmos a alma em estado puro. Será mais fácil flagelar-nos debaixo de um ego forjado que nos permite viver em jaula e em defesa permanente, mas e no fim do dia, não somos felizes na mesma. Vale a pena o risco de lutar por nós, vale a pena tornar a nossa vida num caminho verdadeiro e digno, vale a pena chamar a nós a responsabilidade sobre o nosso bem estar. A vida apanhar-nos-á sempre desprevenidos numa terça-feira de manhã, não temos como prever ou controlar o imprevisto e um dia ele chega... Até que esse momento entre em definitivo, podemos transformar o difícil em fácil, o impossível em possível, esquecer os formatos de vida produzidos para dar lugar à nossa verdade, chamar a nós o que realmente nos realiza e nos dá paz. Só a isto devemos fidelidade, tudo o resto não passará duma tentativa vã de reconhecimento alheio.


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