livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

A arte e os sentidos

É neste esvaziar de mente, é neste espaço limpo e puro de consciência emocional, que atingimos o patamar da neutralidade padronizada, e tudo o que daqui pode advir é extremamente enriquecedor. É sempre arrebatadora a forma como nos deixamos desvirgindar pela arte, silencia a nossa mente consumida pela maturação racional de padrões sociais institucionalizados.


O exercício intelectual multi-dimensional é sem sombra de dúvida, o maior grau de sofisticação na existência de um ser racional. A liberdade intelectual permite-nos alcançar uma linha de pensamento individidualizada e confere-nos a capacidade de ser indivíduos únicos em plenitude. A arte é um excelente motor de arranque para o exercício intelectual, na medida que propicia uma aproximação muito pura ao nosso ser em estado bruto. Ser inteligente não mais é, do que, ter a habilidade para desenvolver um pensamento individual, saber posicionar factos, pessoas, situações e garantir a experiência ajustada que permita o bom senso necessário para lidar com diferentes experiências. Ao longo da vida cruzamo-nos com uma diversidade imensa de padrões, sendo verdade, que todos eles reflectem realidades diferenciadas culturais e sócio-económicos. É precisamente devido a esta disparidade, que se torna necessário encontrar uma fonte virgem e isenta do carimbo sócio-cultural. A arte, a natureza, entre outras fontes ainda não desvirtuadas, permite alcançar um estágio intelectual eternamente virgem não refém das cadeias intricadas dos padrões instituídos. Quando cultivamos qualquer arte, antes de mais, permitimo-nos a estabelecer uma conexão à nossa individualidade, sem qualquer interferência do juízo alheio uma vez que abre directamente o canal das emoções, e da melhor forma possível, com beleza. É neste esvaziar de mente, é neste espaço limpo e puro de consciência emocional, que atingimos o patamar da neutralidade padronizada, e tudo o que daqui pode advir é extremamente enriquecedor. É sempre arrebatadora a forma como nos deixamos desvirgindar pela arte, silencia a nossa mente consumida pela maturação racional de padrões sociais institucionalizados. É um dos poucos redutos que resta ao ser humano de estabelecer um abrigo dentro dele próprio. O maior abrigo, o interior, o nosso, tudo o resto serão paragens de caminho onde poderemos repousar. A arte não deve ser padronizada, muito menos intelectualizada, deverá antes ser esvaziada de padrões, para que seja exponenciado o motor de abertura da nossa individualidade. Em essência, somos seres livres e individuais, todavia, pornograficamente inflamados por informação não filtrada e sem tempo para regressar à nossa individualidade.

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Quem desde cedo tem na arte o exercício da transcendência mental e física, consegue perceber exactamente do que se trata, para os que não têm este despertar contínuo de regresso à individualidade, será difícil compreender quão elevado é o patamar de dependência em que se encontram. Não existe liberdade sem individualidade, não existe bem-estar sem independência, não existe expansão intelectual sem ligação directa à consciência. A consciência assume um papel importante, neste amadurecimento neurológico, e nada mais é, do que um assumir pleno do nosso posicionamento face ao mundo. A espada que corta ao meio consciências morais, é definitivamente irrelevante, trata-se apenas de mais um punho a dilacerar golpes entre os milhares de juízos de que somos alvo diariamente. Não se conhecem pessoas pela palavra, não se conhecem pessoas pela comunicação, as competências tangíveis de conhecimento são na totalidade passíveis de manipulação, logo sujeitas à falta de autenticidade. Conhecem-se indivíduos pelos gestos não sujeitos a manipulação, pelo seu crescimento intelectual, pela sua diversidade multi-dimensional, pela sua partilha, pela observação registada da autenticidade a que se permitem sentir e reflectir. Um indivíduo que fomenta a inércia intelectual, é antes de tudo, um ser que abdicou da sua liberdade, em prol duma prisão ao qual obedece cegamente. Um individuo que usa como ponta de lança o exercício da palavra para consubstanciar a sua intelectualidade, abdicou definitivamente da sua individualidade. O exercício intelectual necessita de silêncio, não se projecta, impossível transferir uma teia complexa de reflexões e viagens neurológicas, impossível reflectir individualidade num discurso preparado e filtrado, a individualidade necessita imperativamente de silêncio e profundidade, é pura, complexa e não se transmite como aprendizado, apenas se partilha em espaços confinados. Entre outros, a arte...é um dos canais de acesso directo à nossa individualidade, onde moram as partilhas vividas sem discursos pautados.

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A densidade intelectual de um individuo cruza em liberdade inúmeras dimensões, desde o mais profundo sentir da sua essência até ao cume das montanhas mais altas da auto-reflexão. Não existe grande divergência no nosso ser entre matrizes emocionais ou racionais, esta matriz apenas importa ao juízo de avaliação alheio, para o nosso eu, e quando expandidas em liberdade, são as nossas melhores ferramentas de posicionamento face ao mundo. A complementaridade da sensibilidade sobre a razão, é fundamental para expandir a nossa criatividade e não cair na monotonia de uma equação, a sensibilidade quando travada pela racionalidade, permite a coabitação com a nossa realidade, aquela que nunca abandonamos e que deve ser encarada diariamente. São ferramentas de competência complementares, e não díspares, só a consciência individual dos nossos poderes factuais, permitirá uma actuação ajustada às circunstâncias.

É este o motivo pelo qual comunidades intelectualmente mais elevadas não abdicam da arte, é por este motivo que nómadas de elevado esvaziamento social se ligam à natureza, é por este motivo que os celibatários brilhantes não procuram o exibicionismo intelectual, não os preenche. A inteligência cheia procura a fonte, a inteligência vazia consome-se em si própria, a cheia, nunca se esgota.


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