livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Descomplicar o complexo

O sexo na sua essência, tem liberdade, prazer e uma pureza extrema. Paradoxalmente, o sexo é ainda hoje em dia a força mais antagónica do expoente máximo da sociedade cristã, a família. No entanto, o puro sentir dum desejo sexual não tem mentira, pelo que, em nada deveria ser condenável. O que fazer com o desejo sexual então?


O esquema de acasalamento até hoje em vigor, segundo Eros, é numa primeira instância direcionado para a reprodução, e continua a manter acesa a ideia de que o amor entre o homem e a mulher, nada mais é do que o desejo carnal que se consuma através do acto sexual. Findo o desejo sexual, o amor termina. É redutora esta abordagem, no entanto, é bom assinalar o tema com um alerta, até porque esta visão não é totalmente irrealista, antes pelo contrário. O crescimento do império cristão na sociedade civil, enraizou na sociedade um desejo profundo de dar uma forma mais estruturada aos outrora convencionados clãs, designando por Família, o novo ideal de grupo nuclear. A visão cristã resolve dois problemas de uma cajadada só, sendo fundamentalistas na sua essência, deixam implícito a ideia de que o sexo aleatório não beneficia em nada o grande rebanho, não se pretendem mentes liberais, mas antes aprisionadas e dependentes dum pináculo existencial. Este conceito exclui assim, qualquer tipo de sexo por prazer e condena fatidicamente um instinto básico no Homem a uma esquizofrenia colectiva assente em fortes valores morais.

É recomendável estruturar este tema, pois é complexo, reflecte um espectro temporal vasto e necessita imperiosamente de um olhar mais profundo e analítico. Analisando o tema mais friamente, podemos observar claramente que o desejo sexual não é amor, tal como representa Eros, mas antes um dos mais fortes impulsos vitais nos seres vivos. No ser humano em específico, a líbido (sempre) incentivada pelo campo mental, transmite-se ao sistema nervoso autónomo, potenciando elevadas descargas químicas de neurotransmissores, que culminam num sem número de endorfinas estimulantes de prazer. Não é amor, é sexo, e consegue proporcionar elevações extremas de prazer e relaxamento a toda a dimensão mental e física do ser humano. É psicológico e emocional, tem beleza própria, intensifica a supremacia dos nossos sentidos físicos sobre o nosso intelecto. O desejo sexual é puro e verdadeiro em si só, não passa pela peneira teatral, o corpo sente, manifesta-se e a história acaba aqui. Não existe conceito racional à volta do desejo sexual. Não tem passado, não tem futuro, só tem presente e ansiedade corporal. O que porventura será o relacionamento entre um homem e uma mulher sem amor à sua sexualidade?

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O sexo na sua essência, tem liberdade, prazer e uma pureza extrema. Paradoxalmente, o sexo é ainda hoje em dia a força mais antagónica do expoente máximo da sociedade cristã, a família. No entanto, o puro sentir dum desejo sexual não tem mentira, pelo que, em nada deveria ser condenável. O que fazer com o desejo sexual então? Sexo. Com quem? A confluência no desejo carnal, permite a consumação do acto por ambas as partes. Não existe qualquer dificuldade em entendermos isto. Os conflitos nascem quando entra o batalhão cristão no tema, responsável pelos padrões pesadíssimos de comportamento moral envoltos no tema. Fomos treinados para uma convenção cristã, teremos adultos mentalmente mais preparados, se criados num ambiente familiar estável e equilibrado, faz sentido procriar em união, por forma a dotar os futuros adultos de diversas ferramentas racionais e emocionais, esta é a grande função da família na sociedade que estruturámos. Definitivamente somos seres racionais e emocionais, e conseguimos construir laços de afecto de maior solidez e riqueza, se baseados num ambiente familiar equilibrado.

Nesta abordagem grosseira ao tema, conclui-se que desde a prosa mais remota de Eros, o desejo sexual, até à prosa cristã mais contemporânea, a família, o objectivo que permanece subjacente em toda a linha de evolução é sempre o mesmo: assegurar a continuidade da espécie, tudo o resto é confusão mental. Partindo deste pressuposto, conseguimos facilmente perceber que podemos fazer sexo, com ou sem amor, formar famílias com ou sem amor, orquestrar vidas sexualmente responsáveis ou irresponsáveis, com ou sem amor, fabricar relacionamentos, com ou sem amor. Não há relação directa entre amor e sexo, são interdependentes, e o que deveria ser moralmente correcto aqui não ocupa lugar.

Estando o sexo identificado e balizado, o que se pode dizer sobre o amor. Já temos ferramentas racionais para entender um princípio básico: não existem vários amores, convém desenganar a mente influenciada, falamos sempre do mesmo amor. O amor não escolhe medida, não é um objectivo de vida, não escolhe alvos, não se procura, não se encontra, o amor por princípio, é categoricamente uma forma de estar na vida. É precisamente neste princípio que o paradoxo tem de mudar. O amor não se esgota, alimenta-se de si mesmo, é um estado de espírito de elevação que nos devolve harmonia e equilíbrio. O amor é um conjunto de capacidades intrínsecas ao individuo, é universal e espelha-se no próximo, irradia e não passa despercebido a ninguém. Concretiza-se de formas diferentes precisamente porque somos seres de afectos e sentidos, precisamos do afecto próximo, interessado ou desinteressado, o desejo por sexo permanecerá activo. Naturalmente a pulsão sexual, o carinho, o entendimento e o afecto são ajustados à medida do sujeito e nascem de factores tão aleatórios e diversos que seria impossível balizar tamanha imensidão. Esta elevação soberba das nossas capacidades racionais e emocionais, merece um longo tempo de reflexão.

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Não vê beleza quem não a tem para oferecer, não encontra amor quem não o tem para dar. Ninguém nasce com estas capacidades desenvolvidas, e igualmente ninguém nasce com a capacidade de se doar infinitamente, seria esgotante entregarmo-nos ao mundo em tamanha dimensão. Acresce ainda gerir, todas as contingências associadas ao preço desta forma de estar na vida, os problemas existem, facto. No entanto, uma vez atingido este patamar de elevação na vida, não há caminho de retorno, quem aprendeu a amar, não o deixará de fazer porque tal seria uma reversão e retiraria bem-estar interior.

Não é efectivamente um tema ligeiro, não é definitivamente uma viagem fácil na vida de um ser humano. A descoberta do amor como forma de estar na vida, acarreta um preço elevado na sociedade moderna, porém é o melhor preço que podemos pagar na vida, trás liberdade, gratificação, bem-estar, universalidade, realização, equilíbrio e beleza. Quem sabe amar, não ama selectivamente, ama porque sabe amar, ama porque se consegue projectar em dimensões que potenciam as suas melhores capacidades individuais, ama por fim porque não consegue deixar de o fazer. É assim fácil concluir que a escolha do estado civil de cada individuo não é uma consequência directa da sua capacidade de amar. Existem inúmeros celibatários com uma imensa capacidade de amar, existem relacionamentos com e sem amor a fluir, existe uma infinidade de formas de estar na vida com amor, e todas elas são válidas, porque só o estado de amor confere liberdade plena individual.

Como lidar então com sexo, amor e família? Não há receita, não há dicas nem conselhos, somos totalmente livres para decidir, só poderemos contar com as capacidades individuais que cada um escolheu desenvolver.


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