Eliza Doré

Uma jornalista tentando levar as coisas menos a sério, ok?

Refugiados: a fotografia de um alerta

Não é novidade que o ser humano procura por imagens chocantes e que essas circulam todos os dias nos meios de comunicação. Mas o que há de errado com a fotografia do menino sírio que despertou o mundo para a crise migratória?


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Num sábado de Agosto, a Hungria anunciou ter finalizado uma barreira feita com arames farpados para impedir a entrada de migrantes em seu território. O comunicado ainda ressaltava a rapidez com que foi realizada a operação. O bloqueio é constituído por três rolos de arame farpado ao longo de 175 km da fronteira com a Sérvia. A medida não impede totalmente a entrada de migrantes, por isso um muro com quatro metros de altura também estava sendo construído pelo exército húngaro. O projeto foi aprovado por ampla maioria no Parlamento húngaro, em junho, numa iniciativa do primeiro-ministro Viktor Orban.

Quatro dias depois o mundo é despertado com uma fotografia que serviria de alerta para a situação crítica da migração. Um menino sírio de apenas três anos de idade é encontrado morto em uma praia da Turquia. A fotógrafa Nilüfer Demir, da agência de notícias Dogan, registrou o momento em que um policial paramilitar recolhe o pequeno corpo do chão.

Para o mundo político e social, a imagem serviu como um alerta sobre as inúmeras mortes que ocorrem no desespero da fuga. Para o mundo da fotografia, questões éticas estão sendo discutidas em torno da sua veiculação.

A imagem foi apontada como sensacionalista e agressiva. Entrou para a lista dos assuntos mais comentados nas redes sociais, com a hashtag #KiyiyaVuranInsanlik, algo como “Humanidade levada pelas ondas”, em turco. Alguns dizem que a atenção para o caso migratório poderia ter sido atraída de outra forma, mas será mesmo? A crise migratória não foi algo que começou após o surgimento da imagem do menino sírio. Mas a atenção necessária sim. Então qual seria o problema?

Não é novidade que o ser humano procura por imagens chocantes e que essas circulam todos os dias nas capas de jornais, em matérias na televisão ou ilustrando reportagens. Quando a imagem de um bandido morto aparece estampando a capa de um jornal bairrista e sensacionalista, há quem diga que está certo. As fotos de um acidente de trânsito que deixou vítimas são veiculadas nas redes sociais e, muitas vezes, vídeos com detalhes mórbidos acompanham as publicações. A tragédia é o que chama a atenção.

Mas a fotografia do menino sírio gerou uma comoção maior. A União Européia apresentou um plano para a crise migratória que procura receber 160 mil refugiados. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que o seu governo iniciasse os preparativos para poder receber pelo menos 10 mil refugiados sírios. A infelicidade é que muitas decisões governamentais foram tomadas após inúmeras tragédias e mortes.

Dentro de alguns anos, essas imagens servirão de lembretes sobre os momentos ruins que o mundo passou. Por mais que causem certo repúdio não deixam de ser extremamente necessárias para a construção da história, e principalmente para levantar questões sociais que necessitam de respostas imediatas.


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