Eliza Doré

Uma jornalista tentando levar as coisas menos a sério, ok?

Relato de uma crise aos vinte e três

A verdade é que eu não me entendia, e o meu profissionalismo em drama me fazia entender que vida e carreira não foram feitos para mim. Eu dizia: manda o buraco negro que eu quero pular.


“Pode ser que um dia a tristeza tome conta de todo o meu corpo até fazer meu sangue borbulhar e liberar qualquer sentimento preso, aqueles que nunca identifiquei mas sei ao certo como são”

Defini assim toda a nostalgia e preguiça que senti durante aqueles 54 dias em que não sai de casa. Dias que se arrastaram como a minha vontade de viver. Motivo? Inventei uma certa crise antes dos 25. Bobeira, alguns diziam, logo isso passa. Claro que passa, vou ser obrigada a fazer algo útil em pouquíssimo tempo, dizia eu revirando os olhos em 360°.

A verdade é que com 23 anos de idade eu não me entendia. Tinha ambições, metas de carreira, uma vida pessoal planejada (casa, chá, cachorros e gatos), mas a vontade de sair e enfrentar o mundo nem sequer cabia em alguma conta matemática. O que eu iria fazer? O que eu queria afinal? Quem merda sou eu? Manda um buraco negro ai que eu quero pular.

Em um momento de profunda frustração analisei cada pessoa ao meu redor. Roubei a força que nem mesmo eles sabiam possuir, com itens na lista de prós e contras, e uma ajuda da minha mente incansável, moldei meu futuro eu. Comecei riscando todas as opções que só de bater o olho me deixavam desesperada. Friamente desenvolvi um sistema sobre a minha capacidade de realizar certos projetos, eu não poderia enfrentar qualquer coisa que fosse (logo de cara) dar errado, não havia emocional que superasse mais uma gota daquela ânsia.

Certo dia meu desespero tornou-se maior do que qualquer crise inventada, eu estava em um auto-esmagamento, uma situação inexistente e criada com toda a glória do meu profissionalismo em drama. E num ato involuntário e bem sucedido minha cama deixou de possuir os braços que antes me vitimavam. As manhãs eram coloridas por vontade própria e quanto mais eu me movimentava o mundo parecia colaborar, era uma troca, como todas as coisas na vida. Eu não havia descoberto meu caminho, mas entendia que paciência fazia parte do processo e o universo só iria conspirar a favor se eu ajudasse. A verdade é que eu estava amadurecendo e deixando de lado dores e amores que não seguiriam rumo ao meu novo eu, aquele jovem embrião.

@copylab.jpg Imagem: @copylab para a marca Farm


Eliza Doré

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