longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

A erotização do nazismo no cinema

"A queda", "Operação Valquíria", "A lista de Schindler", "Hitler: A Ascensão do Mal", a inúmera gama de filmes sobre nazismo encorporam à figura do nazista uma maldade perfeita, um sistema bem acabado, que mesmo com o bom intento de produzir irreversível repúdio ao atentado contra a vida, ao holocausto, a esta mancha na história da humanidade, acarreta em um efeito despercebido, a fetichização do poder, o erotismo de pessoas tão pobres de espírito que não encantariam, no bom ou no mau sentido, a ninguém. A banalidade do mal, essa face tão mais preocupante, pouco aparece nos filmes quando o assunto é nazismo.


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Em 1961 Hannah Arendt cobre o último julgamento de um nazista em Jerusalém para o jornal The New Yorker. Um ano depois ela escreve seu livro¹ refletindo o ocorrido sob uma expressão que se tornou famosa e criticada: a banalidade do mal. A cena do filme de Margarethe Von Trotta é uma captação extremamente perspicaz: o réu é Otto Adolf Eichmann, um sexagenário resfriado, um burocrata, uma pessoa mais que comum, uma figura patética depositada ali em uma caixa de vidro. Sua função era logística, um expert na área, foi responsável pelo transporte de inúmeros judeus até os campos de concentração. Sem saber dos planos finais para a carga Eichmann foi um exímio burocrata, um funcionário obediente, e eis aí que se deposita a força da expressão, “a banalidade do mal” não quer desacreditar quão fatal é um crime contra a vida, e pior, contra toda uma raça, mas quão ordinárias são as pessoas e os fatores que os estruturam. O último condenado nazista, em resumo, não era um monstro sanguinário, naquele momento apenas carregava a aura de todo um regime, um bode expiatório que iria ali purgar de uma vez por todas a desgraça de uma raça. O último nazista não era um arauto de poder, era um alemão obediente, cegamente obediente, um cidadão cumpridor de deveres.

As reflexões sobre este assunto provêm, porém, de dois textos de Michel Foucault, duas entrevistas publicadas na versão nacional de "Ditos e escritos III"², um volume sobre as reflexões estéticas do autor. Os textos são entrevistas intituladas "Anti-retro" e "Sade: Sargento do sexo", respectivamente de 1974 e 75. Nestas o autor disserta, dentre outras ideias, sobre a fetichização do nazismo no cinema e televisão.

Foucault dedica grande parte da década de 70 aos estudos do poder, nesta esteira podemos refletir junto ao autor sobre a representação que a literatura e a produção áudio-visual sobre nazismo tem desenvolvido predominantemente até nossos dias. A forma como a história nos é apresentada na escola só permite uma reapropriação (negativa) de fatos, cria vilões e heróis, muitas vezes omitindo que heróis também executaram assassinatos de diversas qualidades; outras vezes fazendo crer que matar é mais que necessário, é honrado; que heróis são figuras solitárias, de uma bravura sobre-humana que encabeça uma massa; a história denigre o esforço de uma população, trazendo-a para girar em torno de uma só cabeça; e o pior dos deslizes, engrandece a figura do vilão de tal forma não a redimir suas atrocidades, mas de fazer-lhe parecer impecável, astuto, infalível até o momento de sua derrota definitiva, logo, empoderado. Vestido deste manto de poder o nazista das telas é erotizado, como coloca Foucault. O nazismo se torna detentor do poder, o poder é belo, é atraente, é erótico. As obras da atualidade não cessaram de produzir reapropriações da imagem do poder. Esta falácia de uma posse se esvai se observarmos, como fez Foucault, que o poder não pode ser arrematado, tão pouco centralizado. Ele é exercido em níveis diferentes. Hitler não deu nada ao povo alemão a não ser poder disseminado, poder de matar seu vizinho. Anteriormente a leitura das entrevistas do filósofo li recentemente "Guerra e nazismo" de Richard Bessel, cuja grande parte do objetivo é mostrar que Hitler, ainda que em primeira via tenha aumentado a economia do país, era um dependente bélico, que converteu todo recurso da nação em condições para guerra, e não só no estopim da 2º guerra, mas desde o germe do partido nazista isto já estava na mente do ditador. Cito outro autor para não se acusar ao primeiro de possível manipulação factual para fins próprios. Bessel confirma os abusos cometidos pela população perto do alcance de Hitler ainda à chancelaria. Não havia caso de incentivar abertamente, mas de omitir-se. A Alemanha estava em estado de omissão quanto a brigas de rua que envolvessem [e principalmente] comunistas, por exemplo.

Além da distribuição de poder, Foucault faz uma imagem totalmente iconoclasta do status quo nazista em "Sade, Sargento do sexo". Diz o autor que o nazismo não foi inventado por estas figuras imponentes e eróticas das telas da nossa atualidade, mas por pequenos burgueses, caipiras conservadores, personalidades tediosas, como Himmler, pequeno agrônomo, casado com uma enfermeira. “Hospital mais galinheiro, eis o fantasma que havia por trás dos campos de concentração” (p. 369). Foucault chama os nazistas “faxineiras no mal sentido do termo”, querendo limpar a terra pelo extermínio de uma praga.

Estas imagens são imagens de banalização, são imagens que não trarão paixão pelo poder de forma alguma, mas ao invés disso o que fascina a atualidade, o que nos traz a sétima arte, são coturnos lustrosos, quepes com águias brilhantes, uniformes ricamente construídos. Estamos inseridos em um momento disciplinar, “sadismo meticuloso” (por esta expressão a segunda entrevista recebeu seu nome), ordenação anatômica de nossa composição como indivíduo. Nossa imagética é pobre. É preciso lembrar destas premissas: ditaduras fascistas incrustaram profundamente às massas uma parcela de poder, “não ter liberdade não quer dizer não ter poder” diz Foucault em "Anti-retro" (p.341); o engendramento do mal vem dos recônditos mais ordinários, via de regra vem de uma obediência cega, o clamor a uma causa, a falta de questionamento, a falta de observação ampla dos termos envolvidos. Nazistas podem ser apenas sexagenários resfriados ou criadores de galinha. Bons funcionários que nunca viram o fim da linha dos trens. Eichmann nunca pisou em um campo de concentração para tripudiar da escoria ali concentrada. Diz-se que Hitler também não, preferia ficar longe da imundice.

A chama nazista é o ressentimento, Hitler é um soldado de classe baixa, em verdade um mensageiro, derrotado, ressentido, impotente, ferido no campo de batalha; a Alemanha é um país destruído pela 1º guerra, que perdeu territórios, que teve a fúria contra o Tratado de Versalhes usada para acender o fogo da população para a revanche tanto ou mais que o antissemitismo, este já não é um sentimento nazista, é bastante anterior. É preciso lembrar-se destas figuras, destes fatos. É preciso reapropriarmo-nos da história de formas disruptivas.

1. ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um estudo sobre a banalidade do mal, 1963.

2. FOULCALT, Michel. Ditos e escritos vol. III Estética: Literatura e pintura, Música e cinemas. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. Entrevistas: Anti-retro, p. 330 – 345; Sade, Sargento do Sexo, p. 366 a 370.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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