longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

A plasticidade de Adriana Calcanhotto

Há artistas que por serem assíduos em trilhas de novelas acabam restringidos no imaginário popular como compositores de baladas, músicas românticas e nostálgicas. Ainda que a poesia iluminada desta letrista excepcional já tenha lhe feito sonhar de olhos abertos com o amor, Adriana Calcanhotto, há tempos se sabe, não é somente a certa medida para os sonoplastas do PROJAC, Adriana também é Partimpim, também é da densa poesia, da crônica do dia-a-dia, e principalmente, como Carmem Miranda, é do samba e do camarão ensopadinho com chuchu.


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“A vida não é filme você não entendeu” como diz o intertexto com a música dos Paralamas, “Graffitis-Ska”; nem novela. Alguns artistas muitas vezes ficam marcados por baladas para novelas, mas a vida não são apenas esses quadros apaixonados e nostálgicos, e por certo a carreira de Adriana Calcanhotto é repleta de olhar atento às realidades sociais, ao cotiadiano, “sotaques, antenas, antenas, Antunes, Stones (...) passos ligeiros, graffitis, mal cheiros”, “amor pelas misérias”, amor pela poesia, amor pela brasilidade, irreverência, profundidade, às vezes abstração e certamente uma erudição na medida certa. Sem nem tocar no quesito técnica, pois Adriana é filha de um músico de Jazz e aprendeu a tocar violão ainda criança.

Antes de tudo, falando em infância, Adriana possui um alterego, Partimpim é um nome que a acompanha desde criança, que foi criado para contornar o que há de único em sua personalidade, o que não é família Calcanhotto. Partimpim sobreviveu em paralelo com Calcanhotto, que é a apreciadora dos temas existenciais, dos sofrimentos e alegrias, da beleza do mar e dos cariocas, do gostar dos “que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”. Essa outra parte, contemplativa, curiosa, criança, pode dar origem a um projeto com músicas infantis. O álbum de 2004, que leva nome do alterego, ganhou o Grammy de melhor música latina para crianças. Mas, bem sabemos, arte é arte, e não deveríamos nos furtar de ouvir um disco com músicas infantis, para crianças, não para infantilizar crianças, pois quem disse que todas as idades não podem refletir, em “Saiba” que “todo mundo foi neném, Einstein, Freud e Platão também”, pobres, ricos, ditadores, reis, presidentes, profetas, pensadores, ladrões, todos tiveram pais, todos tiveram medo, todos vão morrer, “Nietzsche e Simone de Beauvoir, Fernandinho Beira-mar”. Existem mais dois álbuns de Adriana Partimpim, e por sinal o “Tlês” é composto por versões de Chico Buarque, Gonzaguinha, Gilberto Gil, entre outros.

A cantora inicia a carreira em noventa, mais como uma artista de palco, performática, faz introduções emblemáticas às músicas, como em “Caminhoneiro”, versão de Erasmo e Roberto Carlos, onde conta sua apresentação em uma casa de shows muito fina em Porto Alegre, “o lugar é chique de verdade”, com uma “farta e espessa e vermelha cortina de veludo”, onde ela podia observar a platéia, mas não era necessário, pois bastava inspirar por trás da cortina para sentir a essência dos perfumes caros brigando entre si, e descobrir que a platéia era um mar de capivaras. Capivara é um termo que a cantora usa para definir mulheres que são confundidas com peruas, que em diferencial ser bem nascida. Ambas andam cheias de peles e pedrarias, mas a capivara é bem nascida, é letrada, entende de vinhos, se não nasceu não é, não deu. Tem por característica principal olhar por cima do ombro para a colega do lado e julgar que esta sim, é uma capivara. E todas olhavam umas para as outras por cima do ombro... E foi assim que Adriana resolveu que deveria se divertir um mínimo e entrou "batendo esporas" e cantando caminhoneiro em um ritmo frenético.

Àquela época Adriana usava roupas chamativas, blazers com cores berrantes, calças que pareciam números acima se apertavam no peito e se alargavam nos quadris, tudo muito anguloso, lembrando o estilo zoot suit. E outro momento engraçado do disco, ou das apresentações, é “Injuriado”, onde a cantora vai tomando fôlego para acelerar a letra e mudando o jeito de falar ou a entonanação, apelando para um sotaque carioca da gema, malandro, com “vontade de volta lá pra Copa”.

No segundo disco, “Senhas”, a artista mostra sua veia de observadora do cotidiano, a música título diz “eu não gosto de bom gosto, eu não gosto de bom senso”, e assim além de contemplar a cidade e o amor pelas misérias em Grafittis-Ska, a cantora diz que gosta “dos que tem fome, dos que morrem de vontade (...)” como citei anteriormente. “Negros - Aquarela do Brasil”, uma música que frisa a belíssima miscigenação étnica e cultural que o preconceito não nos deixa perceber “a música dos brancos é negra”, “os brancos são só brancos, e os negros são retintos”, critica um papel que ainda ecoa num subconsciente social de enquadramento de cada um, é um paralelo com o hoje e os tempos da senzala, “negros na cozinha, brancos na sala”. Mas “os brancos têm culpa e castigo. E os negros têm os santos.” A famosa “Esquadros” diz “eu ando pelo mundo pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome, corres de Almodóvar, cores de Frida Kahlo. Passeio pelo escuro, eu presto muita atenção ao que o meu irmão ouve (...), divertindo gente, chorando ao telefone e vendo doer a fome nos meninos que tem fome”.

A primeira música trilha de novela foi “Naquela estação”, em “Rainha da sucata”. A mais famosa talvez seja “Devolva-me”, de “Laços de Família”. Também “Vambora”, “Mais Feliz”, “Inverno” e muitas outras.

Inverno tem algo de muito particular em relação a este blog que, não por acaso, possui este nome devido a uma estrofe dessa composição: “No dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar, até sumir, de lá pra cá não sei, caminho ao longo do canal, faço longas cartas pra ninguém e o inverno no Leblon é quase glacial”. Acho este álbum bastante denso, e esta canção, principalmente, muito intimista, esta palavra que está tão em voga. Intimista porque se pergunta onde está a força que o eu lírico possuía, “há algo que jamais se esclareceu, onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei”, e eis que se lembra que a solidão é assim tal uma sina para si, “lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só (...) sem amarras, barco embriagado ao mar”. A carreira da artista é predominante em letras concretas, simplistas, como “fura um dedo faz um pacto comigo” de “Mais feliz", “um dia desses eu me caso com você, você vai ver ai, ai, você vai ver. Um dia desses de manhã com padre e pompa, você vai ver eu me caso com você” de “Um dia desses” , “luva e mão, mão e luva, vamos passear de guarda chuva; mão e luva, luva e mão, o nosso encontro parecia perfeição”, mas “Fábrica do poema”, de 1994, tende a abstracionismo.

A faixa título de "Fábrica do poema" é a narração onírica do processo de criação da poesia, ela tem um fundo psicanalítico, é de um brilhantismo estonteante, pois, em resumo, para se fazer poesia, Adriana parece confirmar, de um modo que contém um diferencial, a necessidade dos conhecidos 1% de inspiração e 99% de transpiração, além de “extrair faísca das britas e leite das pedras” é preciso se guardar em tocar o inconsciente com a ponta dos pés, nunca mergulhar , “nem a simulação de se afundar no sono, nem dormir deveras”, e eis que a artista usa um conceito freudiano “pois a questão chave é: sob que máscara retornará o recalcado?”. Sob que forma vai submergir do meu inconsciente o que outrora fora recoberto pelo meu sistema psíquico para a minha segurança? Sob que forma virão os temores, as decepções, os prazeres perigosos? A fábrica do poema tem uma torre fantasma de vigília para permanecer a espreita quando estas substâncias etéreas passarem, mais difíceis de caçar que borboletas, e por vezes tão fáceis de moldar, por sua leveza são facilmente escapáveis, o poema às vezes “se esfarrapa, fiapo por fiapo”, e constrói a si mesmo, por isso me sinto usado aqui pelas palavras, e às vezes elas estão no papel, depositadas, mas seu sentido, sua liga, sua beleza está longe de estar ali como estava em minha cabeça. Bendito “poema miragem, se desfaz desconstruído, como se nunca houvera sido”. Mas vão-se os anéis [“de fumo de ópio”] e ficam os dedos [“estarrecidos”], não é mesmo? Além de ordenar palavras em “metonímias, aliterações, metáfora, oximoros” e outras figuras de linguagem para dar uma estética bela ao poema, é preciso cuidar para que elas não evolem-se em “cinza, de um corpo distraído de qualquer sentido”. Foi-se o parnasianismo, poesia meramente pela forma. Graças ao modernismo perdemos os técnicos e ganhamos pessoas com sentimentos mais reais e mais próximos de nós que uma métrica perfeita. Uma música que demonstra o processo das Letras em união com a Psicologia, tão inerentes à criação literária.

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Outra música intimista do disco é “Estrelas”, parece ir na contramão de uma pessoa apaixonada, que a exemplo de Yellow, dos britânicos Coldplay, dedicam sempre as estrelas para a pessoa amada “look at the star, look how they shine for you”. Essas estrelas brilham “só para mim. Estrelas são para mim. Para quê? Para quem? Para mim.” E se há um escuro na solidão, se há a sina de perdido no deserto ou barco solto no mar de “Inverno”, essa “escuridão” é também só minha, “e a treva entre as estrelas só para mim”.

Dentre outras surpresas do disco encontramos a sonoridade experimental (“Estrelas”, por exemplo, contém uma cítara); poemas de Augusto de Campos, Gertrude Stein e a resposta musicada do cineasta Joaquim Pedro de Andrade à pergunta “Por que você faz cinema?”.

Adriana Calcanhotto é brasileiríssima, amante do modernismo, demonstra em “Marítimo”, 1998, o apreço pela antropofagia com “Vamos comer Caetano”; uma homenagem à arte de Hélio Oiticica em “Parangolé Pamplona”; um flerte com o eletro e o candomblé ao mesmo tempo em “Pista de Dança”; um flerte com o maracatu em “Dançando”; e a canção título marca um grande amor, o mar.

Além da belíssima canção "Maresia", que acabou sendo trilha sonora de “Desejos de mulher” em 2002, e “Quem vem pra beira do mar” de Caimmy, há o disco “Maré” em 2008, e a atual turnê chamada “Olhos de onda”, onde a cantora resolve voltar a essência “banquinho e violão”, a convite da sala onde pela primeira vez tocou em Lisboa, pois o espaço completava 20 anos e convidava alguns artistas que passaram por lá para comemorar.

Com anos sem um show solo, e ainda superada uma recente lesão em sua mão, Adriana resolve inventar, diz que foi preciso reaprender seu próprio repertório para o violão. Na turnê a cantora interpreta principalmente músicas do último disco “Micróbio do samba”, este que demonstra seu outro grande amor, o samba. Porém o show ganha CD e DVD, e a música título tem participação de Arnaldo Antunes.

As histórias engraçadas que introduzem as músicas continuam aparecendo, em uma apresentação de “Vai saber” ficamos sabendo que a canção fora feita para Mart'nália, pois devido o pedido da cantora de uma música para Adriana esta imaginou que deveria ser um samba, tempo depois descobriu que não era o que aquela queria. Aconteceu de Adriana mostrar a música para Marisa Monte que acabou pedindo-a e em resposta recebeu “não, pegue, eu faço outra coisa qualquer pra Mart'nália”. E fica então a dica, se um compositor quer que um interprete fique interessado em sua música basta dizer que compôs para outro. A parte mais engraçada é que Marisa Monte, ao ter uma apresentação marcada em Porto Alegre, cidade natal de Adriana, errou toda a letra por estar nervosa pensando em cada membro da família de Adriana que poderia estar na platéia, dizendo que ela errou a letra. “Depois eu soube que ela errou a letra em lugares onde a minha família não poderia estar, mas isso é outra história”. A resposta de Adriana foi “Marisa, você gravou o samba, não sabe a letra. Eu fiz o samba e também não sei, você não ta achando que a minha família é quem sabe”.

“Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio” como diz o poema de Mario de Sá Carneiro, poeta português que Adriana foi convidada a musicar. A compositora romântica, a carismática artista de palco, a minimalista que vai se expandindo com Partimpim, aprendendo algo desta para Calcanhotto, é este tipo de artista multifacetado do qual o Brasil está transbordando e nós conhecemos apenas uma pequena porcentagem, principalmente esta parcela tão pequena que dá certo na indústria fonográfica. É este tipo de artista versátil que bem encrementa a MPB que é Adriana Calcanhotto, que como já cantou, em “Disseram que eu voltei americanizada” interpretada por Carmem Miranda, diz “mesmo eu te amo e nunca I love you, enquanto houver Brasil, na horas comidas, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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