longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Amor de vampiro

Novamente trago aqui meu apreço pelos vampiros que abordam questões existenciais, em vez do vampiro besta, aventuroso predador. “Only lovers left alive” é um filme de vampiros do qual não adianta se esperar que o concreto lhe surpreenda, é um filme de mensagens, que transborda referências culturais, sutis brincadeiras com a eternidade dos personagens e, deixando abertura para reflexões sobre nossas relações amorosas, é uma ferramenta para cogitar como os amantes serão poupados do desgaste.


Only-Lovers-Left-Alive.jpg

O contemplativo romance de vampiros de Jim Jarmusch, “Only lovers left alive” (2013), em versão brasileira “Amantes eternos” (que talvez fosse muito melhor se deixado a uma tradução literal “Só os amantes serão poupados” ou “Apenas os amantes sobrevivem” - mas não vamos nos estender questionando as jogadas de marketing de nossos estúdios), faz refletir que há mais tipos de vampiros no mundo do que pensa nossa vã filosofia.

Este artigo é uma breve leitura do filme, por isso não poupa descrição de trechos que podem revelar o desfecho, não é recomendável para aqueles que não o assistiram.

Nem Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) estão dispostos a sair pra caçar, nem muitas pessoas estão mais afim de ver isso. Quando penso em vampiros penso na verdade o que de original se pode fazer com esta criatura hoje. O que me respondeu esta inquietação foi a interessante idéia de Guillermo Del Toro em parceria com Chuck Hogan, “Noturno” (The Strain), que trata os vampiros como uma praga virológica e traz uma descrição completa de seu esquema parasitário, que inclui habitar a garganta de um hospedeiro. E tudo começa com um avião cheio de corpos infectados e um caixão cheio de terra. Coisa que ninguém se lembra desde o Drácula original: não bastava dormir em caixão, o conde precisava de um lugar com terra do solo de sua origem.

O que é imutável e inevitável em vampiros é que eles bebem sangue, mas nem todos precisam correr por aí atrás de qualquer um como um cachorro. Várias obras se situam cada vez mais na nossa realidade, “Only lover left alive” nem sequer cita a palavra vampiro, somos impelidos a fazer a constatação porque são serem imortais que se alimentam de sangue. Porém pessoas doentes, moribundas, drogadas não são bom alimento para nossos protagonistas, assim como nós não gostamos de comida estragada.

Para Adam e Eve este sangue adulterado, com drogas e a própria alimentação moderna, que tem aditivos, agrotóxicos e química sintética de todo tipo, das pessoas que perambulam por aí não interessa. Eles gostam de uma boa colheita, sangue puro. Eve tem seu fornecedor, na verdade ela trata o personagem do excelente John Hurt, o poeta Christopher Marlowe, como mestre.

Nem sequer Ramona Royale (Angela Basset), em American Horror Story “Hotel”, temporada atual, acha que um viciado em heroína lhe seja útil.

Note-se que nesta última temporada Lady Gaga, que interpreta a personagem chave, Condessa, não usa a palavra vampiro, define sua situação como um paradoxo biológico, é tanto uma doença quanto uma cura; eles chama "o vírus". Não tem também usado presas, como Catherine Deneuve e David Bowie em “Fome de Viver” (1983), que usavam ankhs afiados, a famosa cruz egípcia que era enterrada com o faraó para assegurar-lhe passe livre entre a vida e a eternidade, para cortar suas vítimas. Gaga vem ostentando uma requintada luva com garras. E também um brinco com a cruz egípcia.

O filme de 2013 de Jarmusch tem sido muito comparado ao clássico de 1983 pela elegância do figurino, vampiros perfeitamente camuflados por estarem alinhados com a moda atual, roupas de couro e óculos escuros. Mas por que para Adam e Eve as luvas são mais que um acessório, são obrigatórios? Esse é o bom mistério insondável desses vampiros de Jim, mas percebe-se ao longo do filme, quando Eve começa a arrumar as malas para ir para Detroit, e o que ela se preocupa realmente é em lotá-las de livros, que possivelmente as mãos deles são dotadas de alguma sensibilidade extra, pois a personagem alisa cada parágrafo de um dos livros linha por linha e é como se estivesse absorvendo alguma coisa dali.

Não por acaso os dois vampiros do filme se chamam Adão e Eva, o filme está cheio deste humor sutil sobre seres que vivem para sempre, se você é um mínimo esperto, tem um certo nível cultural, achará que é basicamente um filme de humor. A cena mais perceptível sobre esta ironia no filme é quando Adam desdenha de Shakespeare como se desdenha de alguém que teve o desgosto de conhecer pessoalmente. Na verdade o filme corrobora com a conspiração de que Marlowe, nascido em 1564, foi quem escreveu todas as peças de Shakespeare. Agora este mora na mesma cidade que Eve (Tanger, em Marrocos), e é sua opção derradeira de conseguir “coisa da boa” (good stuff) para beber.

Se a preocupação de Eve ao final então, quando ambos estão morrendo de sede, aparentemente em um beco sem saída, de juntar todos os últimos recursos financeiros do casal parece estranha e descabida, num todo, este filme que é elegia à cultura, e tem pinceladas de humor sutis, faz bastante sentindo, visando as ambições de cada um, que Eve queira, perto do fim, presentear Adam com um raro alaúde.

Eve é uma bibliofila, e Adam, apesar de também voraz leitor, fora mais ligado à música, coleciona instrumentos raros. Esta é a primeira mensagem do filme, no final só sobrará a cultura. Fora tudo isso, o bom figurino (cujos elogios vão para Bina Daigeler), e toda a boa estética do filme, a maravilhosa fotografia que valoriza parca luz, muito negro contrastando com pálidos tons de azul e amarelo nas cenas em Detroit, porém amarelo e ocre causando sensação desconfortável nas cenas em Marrocos, para que fiquemos prontos a sentir o que os personagens estão sentindo devido à sede. Este noir corroborado pelo rock como trilha sonora lembra uma HQ de Neil Gaiman.

As cenas na casa de Adam podem ser consideradas elegias ao Caravagistti. Este estilo de baixa luz utilizado por expoentes de pintura após Caravaggio, no século XVII, estilo que encontramos nesta época em Rembrandt, Velazquez, Rubens e mais tardiamente em Delacroix.

Fora a presença impecável de Tilda Swinton, a atriz esguia, de traços finos e rosto andrógino, de pele alva, uma vampira perfeita, com pouca melanina até o último fio de cabelo, colocada em belos trajes marroquinos por Daileger, que lhe dão um ar ainda mais misteriosamente encantador, há muito que aprender sobre o amor com o filme.

only-lovers-left-alive02.jpgFora das roupas ocidentais costumeiras, dentro de um figurino ornamentado e imersa em livros, a personagem de Tilda Swinton é ainda mais inebriante.

O amor permeia a essência do filme, o nome é uma coroação impecável, já que se trata do romance do primeiro homem e da primeira mulher. Mas para quem não compreendeu a picardia do diretor, e não entende por que o casal vive não só separado, mas extremamente distante, basta agora refletir “e se eu tivesse a eternidade?”. Quando refletimos vagamente a imortalidade dos vampiros pensamos em ser super homens que poderão facilmente acumular riquezas e de despreocupar do mundo afora. Ninguém pensa em como doerá se adaptar a cada nova era; o que acontece em nossa frente todo dia, as gerações que precisam de um manual para mexer no celular, se encontrando com a que liga e o aprende de pronto. Imagine ver tudo o que você gosta se acabando, coisas, valores, pessoas.

Ava, a irmã de Eve, é esta contraparte. É a cara da juventude, se porta de forma inconsequente, é intranquila, inocente e “glutona”. Se alimenta a moda antiga, sem a mesma preocupação que o casal. É irritante para Adam; chegando a abrir sem autorização uma garrafa de seu estoque pessoal ela descobre a diferença entre o sangue consumido por eles.

Imagine então o que é o amor para essas criaturas. O que significa acordar junto todos os dias quando se tem a eternidade? O que é o tédio diante do amor? É quase o anti-amor.

O personagem de Tom é a parte irrecuperavelmente entediada, deprimida. Lânguido, de tez pálida imersa em cabelo escuros, de ar soturno este lembra perfeitamente lembra um Sandman de Neil Gaiman.

Percebe-se que apesar de seu amor pelos instrumentos ele não tem mais apreço pela música. Ele não tem mais apreço por nada. O primeiro homem somos nós, amargurados por um mundo disforme. Certamente, em outras eras, o mundo fora mais concreto, mais formal e objetivo, portanto mais simples. Imagine migrar para um mundo subjetivo como é o nosso, truncado de novidades e informação que se recobrem a todo momento, momentos que mal vivemos plenamente. Nosso mundo não tem forma, não tem solidez, é difícil manter algo que nele não se desmanche.

Então, em menor escala, um relacionamento que perdura décadas, não séculos ou milênios, não precisa se afirmar a todo momento. Mas precisa se reciclar, pois o amor não emana de uma fonte eterna e misteriosa oculta em uma parte de nós. Isso é o fervor do início, o calor da paixão, do desejo. O amor é vivo, pulsa como sangue, e como sangue para vampiros não é confortável de conseguir. Tudo que trabalha produz entropia, desgaste. Como evitar a entropia do amor em nossas veias? Como evitar esse “espalhamento” dos sentimentos em meio nosso modo de vida líquido?

Quanto mais dura um relacionamento mais somos acometidos pela ambivalência, ou seja, precisar do outro, mas precisar do nosso espaço, é o que fica claro no filme. Um tempo para si é também um tempo para lembrar como é boa a companhia e vice-versa, um tempo com os outros nos faz sentir saudade de si consigo mesmo apenas, já constatou Epiteto (filósofo que fora escravo em Roma e nunca teve como registrar seus pensamentos escritos, mas sempre estava a disseminar sobre suas elocubrações de como levar uma vida plena e feliz, tendo seus discursos registrados pelos seus discípulos).

Estar sozinho; ir para outros lugares com outras pessoas; libertar-se da constante vigilância sobre o parceiro, ou do incomodo que a permissividade excessiva pode causar, pois algumas pessoas confundem liberdade com falta de atenção e acabam se frustrando, é quando aquele grande ciúme, aquela possessividade, que parece tão bonita para contar aos outros, pode não passar de uma ilusão em vez uma prova de amor, e em algum momento causará cismas.

Permitir-se sentir a falta dele, e permitir que um pedido para adentrar seu espaço seja visto como algo comum, pois seu parceiro não é uma extensão de você. Pensar na imensidão da vida diante de um momento ruim, do que foi e do que ainda há de surgir.

Estes são apenas alguns ingredientes que podemos levantar, e não apenas estes, pois não há manuais prontos para o amor, mas há de se inventar formas inéditas de se amar (como nos diz o Kid Abelha), para que os amantes sejam poupados.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Gustave Caligari