longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Anne Rice, a dama do terror moderno

Apreciada por amantes de terror em geral, membros da subcultura gótica principalmente, Anne Rice atualizou a prosa gótica com primazia, estabelecendo o vampiro romântico, mixando o sobrenatural com o cientifico, fermentando suas obras com vasta pesquisa histórica, intertextualidade e rico detalhamento descritivo, numa narração tão refinada que o horror nos pega mais que despreparados. A autora do clássico “Entrevista com o vampiro” certamente se tornou um marco para a literatura americana através do terror, tanto quanto um Stephen King, e hoje é um ícone da ficção em geral.


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Em “Goth Chic”, um compêndio de obras da vasta cultura gótica, escrito pelo jornalista britânico Gavin Baddeley, único de seu gênero traduzido para o português¹, surge na sessão sobre literatura a dúvida que não quer calar: qual a diferença entre horror e terror? Rapidamente, para este autor o horror é um braço, e um braço bastante violento, do terror. Acontece que até a cientificidade, que assola a humanidade a partir do século XVIII, as obras de terror eram predominantemente compostas de perigos espreitando no exterior, na figura dos monstros, que se tornaram clássicos. Após o enraizamento do pensamento positivista, e principalmente das ciências psi no século XIX, o terror não precisa mais de monstros horripilantes e do sobrenatural num todo; a psicose, a demência, o monstro interior, o terror psicológico passa a reinar quase soberano. Com isto também é possível o aparecimento do gênero suspense, onde não necessariamente há uma ameaça real, mas sua mera especulação pode dar linha a uma trama completa. No horror, pelo contrário, o terror precisa se consolidar de forma visceral, catártica, nauseante; violações, assassinatos cruéis, torturas repugnantes, decepamento, condições sub-humanas de tratamento, este é o horror. Alguns dirão que sua característica principal é não possuir monstros. Mas quem há de negar que Clive Barker não é horror com seus cenobitas? Alguns querem encerrar a discussão erradicando o título como gênero. Contendas à parte, na década de 70 surge uma personalidade americana que pode ser considerada um marco para a corrente de terror do país e do mundo tanto quanto seu conterrâneo e contemporâneo, o queridinho Stephen King.

É fácil se esquecer que se está lendo um conto de terror, pois Anne Rice é elegante por demais. Um certo Sr. John Walton, escritor da Gothic Society, aparentemente um clube britânico de adoradores da subcultura, narra Baddeley, a chamou pseudo-intelectual. Walton diz que a autora faz referências grandiosas demais dentro da literatura e filosofia, como Shakeapeare e Sartre, sem conseguir mantê-las. Algo que aprendi é que não se deve dar ouvidos a este tipo de queixas, pois autores sempre irão responder que, ou as referências aconteceram por acaso, ou sequer eram sua intenção. Se perguntássemos a nossa grande Clarisse Lispector sobre referências a Sartre certamente ela diria que não há. Clarice, que disse nunca ter entendido bem “O ovo e a galinha” (espécie de conto/crônica de sua autoria). É bastante errôneo sustentar que um autor literário queira alçar grandes feitos acadêmicos, é uma reclamação acadêmica aliás, ou, esta sim, pseudo intelectual. O fator acadêmico é algo que aborrece a literatura como entretenimento, correntes mais radicais querem até mesmo retirar-lhe dessa qualidade. Sempre se querendo mostrar que o autor quis dizer outra coisa através das mais fantásticas metáforas, assim é o estudo das letras. Quando penso nisso agora não deixo de ter em mente Clarice respondendo vaga e monossilabicamente sobre suas obras. E por outro lado caem páginas do academicismo crônico que parecem compreender perfeitamente “O ovo e a galinha”.

Uma elegância inglesa, que dá a impressão de uma Agatha Christie, pela forma como emaranha a trama e ao final não deixa um fio sem desenrolar; um conhecido caráter tolkieano, Rice é tão descritiva quanto o monstro da literatura fantástica. Nas cenas de sexo, porém é tão pouco extrovertida quanto um outro americano, Sidney Sheldon. A elegância é um mero comentário, Anne Rice não é uma pseudo-intelectual, pelo contrário, é uma das mentes mais astutas da literatura moderna, é possível pontuar vários itens que a honram, dada a predominância masculina de autores no ramo, uma dama do terror.

Se foi preciso Stephen King na América do Norte para que o terror passasse ao cruzamento perfeito entre acontecimento real e devaneio psicótico, o avivamento de lugares e memórias que fazem o horror tomar forma através das coisas mais banais, em cidades ainda mais banais, com Anne Rice houve o sobrenatural se tornando banal, explicado por si mesmo, sentado à mesa com bons modos, narrando com naturalidade as mais terríveis iniquidades. Com Rice ocorre a retomada do desconhecido vampiro original, trazendo a veia filosófica para a existência do mal.

Conde Ruthven é um vampiro que antecede o conde de Bram Stoker. Numa história que parte do vampiro, ao invés de girar da narração em torno deste, “The Vampyre” foi escrito em 1819 por John Polidori. O personagem principal carrega o signo byroniano, um romântico inveterado, como todos os vampiros de Anne Rice serão, infalivelmente. Seus vampiros são existencialistas sim. Humanos, demasiado humanos. Não são bestas vorazes e irracionais como os vampiros de filmes como “Blade” e “Anjos das Noite”. Refletem sobre sua existência, se condenando, como Louis, ou se aceitam em sua sina de predador, como Lestat. Mas não existe um momento em que não lamentem essa existência, até mesmo ao próprio Deus. De convencional resta a eles o medo do sol, a única forma de matá-los naturalmente, ou decapitando-os e ateando fogo. Não precisam ser convidados para entrar em locais públicos; não temem símbolos religiosos, muito pelo contrário; alho e estacas não precisam nem ser citados. Mas certamente eles sabem tão pouco sobre si quanto nós, estão todos perdidos, sem saber se são criaturas das trevas, ou haverá salvação, haverá um deus. E esta confusão é bastante explorada na história do vampiro Armand, e no encontro de Lestat com o demônio, “Memnoch”. Há momentos freneticamente religiosos após o quinto volume das crônicas vampirescas. Outra característica incomum, os vampiros nascem de novo após transformados, são personalidades novas e estranhas, por exemplo Gabrielle, a mãe de Lestat, familiarmente é como um animal é para outro, independente, que não se liga à presença do mesmo, que pode conceber com ele momentos de libidinosidade sem o estigma do Édipo. Mas existe uma conexão entre o criador e a criatura, sempre. Lestat está ligado a Magnus, Louis está ligado a Lestat e Claúdia está ligada a Louis a ponto de arquitetar a morte de Lestat. Há sempre uma confusão de bom e mau, de amor e ódio, sentimentos que são nada mais do que o que guardamos, mas não podemos concretizar.

“Entrevista com o vampiro”, de 1976, é o primeiro livro da série, com adaptação cuidadosa para o cinema. Roteiro adaptado pela própria autora, com a resistência desta para os papéis principais para Brad Pitty e Tom Cruise até que as gravações começassem. Esta já não é uma característica de “A rainha dos condenados”, um filme que não condiz com a autora do livro, ele é apressado. Anne Rice jamais se apressa. Este filme mixou [muito mal, diga-se de passagem] a segunda e a terceira crônica vampiresca. Este filme julgou que a história de “O vampiro Lestat” poderia ser decepada sem nenhum embaraço e imediatamente unida com seu encontro com a Mãe e o Pai de todos os vampiros, formando um filme de ação ao gosto do grande público. O roteiro não foi escrito pela autora por que a Warner se negou a pagar o exigido, que segundo o site “Adoro Cinema” era o mínimo que exige o sindicato dos roteiristas.

Ler Anne Rice demanda a mesma energia que ler Tolkien, a autora não se adapta à modernidade quando o quesito é rapidez. Imbrica, como o autor das aventuras da Terra Média, muita descrição, rico detalhamento de cenários, com uma vantagem em relação a este: o mergulho na psique dos personagens. O mergulho na essência das personagens pode passar despercebido por alguns, e ser necessária para outros, para este últimos Rice é um banquete, diferente de Tolkien ou Asimov, por exemplo. E são estas características narrativas ligadas ao obscuro, às mansões antigas, à boa vida, boa comida, boa bebida, ricas ornamentações, que mantém o passo de um romance gótico.

A comparação com estes monstros da literatura para nossa autora é meramente quanto à descrição e trato dos personagens, pois sabe-se que o forte destes autores é a criação de universos. Os personagens de Anne Rice estão bem ambientados em nossa realidade e atualidade, narrando sua história que provém de eras antiquíssimas. Lestat, por exemplo, ao despertar no século XX, se encanta pela sonoridade do rock e encontra um ambiente onde pode ser bem vindo, onde não terá que se esconder, como sempre quis, onde será idolatrado.

Os cenários variam na história, antiguidade clássica, início da era cristã, renascimento, classiscismo; Roma, Grécia, Itália, Egito, America do sul e do norte. A forma como a autora por fim faz caber de tudo em Nova Orleans lembra a estratégia de Stephen King com o estado do Maine. Porém, Nova Orleans já tem um terreno fértil preparado. E é neste quesito que se deve dizer aqui que “As crônicas vampirescas" se entrecruzam em um ponto com outra série, “Bruxas Mayfair”, cujos dois primeiros volumes “A hora das bruxas” é lançados quatorze anos após “Entrevista com o vampiro”. Nestas duas coleções há uma instituição de estudiosos que observam casos sobrenaturais, a Talamasca, ambos os casos são cobertos por membros da ordem, o das Bruxas Mayfair, e o caso dos vampiros que envolvem Lestat, mas a união se dá perfeitamente apenas em “Merrick”, sétima crônica vampiresca, onde Lestat, Louis e David Talbot, antigo membro da Talamasca, transformado em vampiro por Lestat, encontram através de Merrick Mayfair o espírito de sua querida Claúdia, transformada em vampira pelos dois ainda quando criança, porém morta pelos integrantes do teatro dos vampiros, personagens liderados por Armand, que encenavam peças obscuras para uma platéia comum e moravam no subsolo deste teatro onde se apresentavam.

Em primeiro lugar os detalhes científicos que caracterizam uma boa modernização do terror parecem mais caros à autora na história da família Mayfair, onde vem envolvido por toda uma gama bioquímica e mais representativa que na preocupação fisiológica da trama dos vampiros, dado que um dos personagens principais é Rowan, que nada sabia sobre o legado de sua família, enxercendo a profissão de neurocirurgiã com afinco até que o sobrenatural cruzasse seu caminho. O entrelaçamento entre sobrenatural e fisiológico é reconfortante, não são relatos de fé na ciência, de fisicalismo radical, mas também não é a impotência diante do sobrenatural. Condiz exatamente com o momento que a humanidade experimenta, um momento plural. Cromossomos, embrionamento, exames de sangue, gestações, líquido amniótico, bruxas Mayfair está envolto em todo um horror mítico-científico, uma biologia nauseante. Se os vampiros chafurdam por cemitérios enlameados e esgotos infestados de pragas, Roman Mayfair se vê envolta, não poucas vezes, nos próprios fluídos; convidada a uma pesquisa ilegal com células tronco de fetos; ou grávida de uma criatura não humana.

Voltando à cidade de Nova Orleans, um amálgama de atrocidades e mistérios crescentes desde sua colonização pelos franceses, um moralismo cristão de um lado, e uma teia de escândalos que envolvem obscuramente outras práticas como vodu. A cidade serviu de cenário para outras tramas sobre bruxas, como a terceira temporada de American Horror Story: Coven. Orgias tenebrosas, assassinatos sanguinolentos, mutilação de escravos e lendas decorrentes sobre suas figuras, como Candyman, a cidade abriga qualquer história de deixar os cabelos em pé. Na série duas personagens parte da história da cidade se encontram, madame Lalaurie, uma condessa Bathory moderna, nunca julgada pelas atrocidades que cometeu com seus escravos, e Marie Laveau, uma rainha do vodu de existência questionável.

Anne Rice deu à família Mayfair fazendas escravistas; descendentes franceses voluptuosos; sua própria rainha do vodu, Marguerite; os experimentos cruéis com bebês e cabeças humanas permaneceram guardados em uma parte da casa urbana até a chegada de Rowan; existiam bonecas de pele e ossos de todas as bruxas principais da família desde a era celta. A história se entrelaça com dados históricos reais antes de um Dan Brown, segundo a ficção de Rice a rainha virgem, primeira Elisabeth, não teria contraído matrimônio por ser uma bruxa, e a gravidez de uma bruxa pode dar origem a um ser antigo chamado taltos, um destes que percorreu todo o pano de fundo da trama "Hora das bruxas", atormentando a família do plano não material até conseguir conseguir se tornar carne. Não é um espírito sumariamente mal, mas é por vezes até infantil em sua sede de retornar à matéria.

Por fim cito outro momento de intertextualidade da autora, que é na quarta crônica vampiresca, inspirada pelo conto “A coisa na soleira da porta” do outro ícone do terror, H.P. Lovecraft. O vampiro Lestat encontra um ladrão de corpos e acorda em ascender a seu corpo humano para saber como é viver a vida mortal novamente. Obviamente este homem foge com o corpo vampírico de Lestat, pois até agora havia pulado de corpo em corpo para conseguir vida longa, e agora teria a imortalidade sem se preocupar com o momento de outra troca.

O que aconteceria se uma criança fosse transformada em vampiro? Qual a origem dos vampiros? Existe Deus? Existe alma imortal? A saga de Lestat é imensamente rica, possui todas essas respostas, encontros com o Deus e o diabo, a posse da força de um deus e conhecimento milenar, tudo isso e muito mais o vampiro nos relata. O fôlego de Anne Rice a fez uma autora que está para além do terror ou do gótico moderno, suas narrativas imensamente ricas em todos os sentidos, dotada de pesquisa histórica extensa e uma ousadia que ao longo de seus novos voos (a partir de 90 além de “A hora das bruxas” começam surgir outras séries inesperadas, como “Cristo Senhor”, narrada por Jesus Cristo em primeira pessoa desde a infância) com certeza concretizou seu desejo, ser reconhecida como uma autora de ficção literária.

1. Informação retirada de BADDELEY, Gavin. Goth Chic: um guia para a cultura dark. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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