longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Nico: qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste

Nico foi uma belíssima modelo alemã, de exímio talento vocal aproveitado por Andy Warhol para integrar um disco da banda americana Velvet Underground. Coisa que muitos sabem, junto ao fato de que ela gravou apenas este disco de estreia. Poucos sabem que a vida de Nico foi sempre cercada de nomes icônicos além de Lou Reed, Jim Morrisson ou Warhol, e mais são os poucos cientes do brilhantismo de seu legado musical solo. Sua vida pouco iluminada, diferente das estrelas com as quais ela se entrecruza; seus retratos sempre lúgubres, não por acaso, raros sorrisos; seus réquiens dominados pela voz grave e o som do harmônio.


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O companheirismo do músico é divino. Ao mesmo tempo em que ele está ao seu lado, acaba se tornando algo que maior, uma visão de mundo, uma sombra que é autorizada a preludir sua personalidade. É uma sensação fantástica.

É certo que qualquer um pode ter chego aos quinze anos de idade já conhecendo as extravagâncias de Jim Morrison. É certo também que, no máximo, e jogando alto, esta mesma pessoa até seus vinte anos já tenha ouvido falar repetidas vezes sobre Andy Warhol, cineasta e artista plástico, expoente da pop art. Porém dentre essa massa obscura, alternativa, escalafobética e ao mesmo tempo abafada, vemos circular uma figura não tão comentada quanto um Morrison ou um Warhol.

Abafada por ser a parte dos loucos anos 60 que não aderiu ao power flower, mas se concentrava em clubes, que hoje chamaríamos tranquilamente “inferninhos”, que embrionavam o punk, personas como Iggy Pop e Patty Smith. Ou os companheiros de Andy Warhol em meio à fumaça, as cores, as drogas e os takes nada tradicionais na Factory, a produtora do artista. Esta era até mesmo temida por alguns, e outros que estavam lá dentro logo saiam. Nico não era uma exclusividade neste meio, Warhol era especialista em atrair pessoas inconsequentes como a modelo, “tristes, desesperadas, exaltadas”, diz Jonas Mekas, seu mentor.

Jogada neste mundo expansivo, criativo e ao mesmo tempo de tensão, Nico protagonizaria uma banda não tão emblemática ou comercializável como um Doors. Até mesmo hoje em dia, vamos e venhamos, nenhuma revista comum, de uma grande editora, leva às bancas um pôster gigante do Velvet Underground. E se você perguntar a um dos seus amigos sobre Velvet talvez, não raro, ouça “a banda do Slash?” (Velvet Revolver). O que é uma pena. É uma pena que as pessoas não conheçam Velvet Underground e, portanto haja crianças desoladas perdendo a dádiva de uma diva mórbida como Christa Päffgen.

Nico, somente, como ficou conhecida e gostava de ser chamada, nome dado por um fotógrafo, viveu sempre um pouco à margem, um pouco ao lado dos nomes que brilham no holofote principal até hoje, meio assim passando enquanto Morrison se pendura na janela, enquanto Lou Reed atinge o Olimpo de um Bowie; não atuando com Fellini, mas apenas aparecendo como ela mesma, a modelo, em "La Dolce Vita"; indo para Nova York enquanto Coco Chanel a queria como modelo. São fatos sérios, Nico era uma nômade e sua fama se deu mais pelos nomes que a rodeiam do que por sua música, principalmente pelo romance com Alain Delon.

Nico, que ao contrário é Icon, ainda que não tenha surgido desta forma, é o nome deste documentário que conta sobre o portador original do nome e outras histórias da artista. Existem várias biografias, e sessões de livros de jornalistas especialistas em músicas que, ao passar por essa transição do folk rock dos anos 60 para algo mais ousado e agressivo, comentam a história de Nico e o Velvet. Também o famoso filme de Oliver Stone sobre o The Doors tem a emblemática cena em que Morrison e Nico se conhecem, onde o Rei Lagarto a assusta ao se exibir nu pelo lado de fora da janela.

A fama a rodeava enquanto prosseguia na carreira como modelo, filmes, comerciais, outdoors. Em 1965 gravou o single “I Not Saying”, uma letra profundamente realista, uma distopia romântica: “não estou dizendo que te amo, que estarei lá quando você precisar, que serei verdadeira”, e negativas de todas essas coisas que a passamos boa parte da vida dizendo para segurar alguém; “but I’ll try”, eis a coisa mais sincera que podemos dizer para uma pessoa. Nico era tida como infantil às vezes, outras vezes marmórea, insensível às pessoas no geral, tinha amizades transitórias, mas sempre acabava se entregando plenamente a seus amantes.

Nico então é descoberta por Andy Warhol, apresentada por ninguém menos que Bob Dylan. Além de aproveitar sua imagem para filmagens Andy a incluiu como vocalista do Velvet Underground. A banda era realmente difícil, foram expulsos de um clube por que ninguém conseguia dançar com sua música, ninguém queria trabalhar com eles. John Cale e Lou Reed não gostaram disso. Lou Reed já ficou bastante murcho de ter que aceitar outra mulher, pois Maureen Tucker era baterista (que também possui uma carreira solo e uma versão bastante interessante de "Pale Blue Eyes"), mas nos vocais foi meio que o cúmulo. Por isso o disco todo com a banda não foi cedido aos vocais da garota alemã, mas versões como de "All Tomorrow’s Party" tomam uma consistência muito mais profunda na voz de Nico do que de Lou Reed, principalmente em sua posterior versão solo. Nico não era um satélite, ela tinha sua luz (ou sombra) própria, e sua carreira solo seria, portanto, esse espectro bastante denso.

Nico gostava de Reed, romanticamente, o achava impenetrável. Foi recíproco, mas durou pouco por parte de Reed, principalmente por problemas “profissionais”. A paixão por Jim Morrison foi mais intensa. Disse que ele era quem mais a havia compreendido, era seu irmão de alma.

Os vocais congelados de garota alemã que Cale e Reed rejeitaram, fazendo-a chorar no estúdio, dizendo que não lhes interessava uma garota perfeitamente afinada, talvez tenha sido um favor para a música, no todo, ou ela seria apenas mais um Velvet. Porém saiu da banda assim como entrou. Aos poucos também se desfez da criação áudio visual de Warhol, ela estava totalmente entregue à música. Foi auxiliada pelos Velvets que, individualmente, compunham, gravavam ou produziam seus discos. A sonoridade folk que foi dada aos arranjos e os vocais funcionam quase perfeitamente cada um por si só; o incrível é como trabalham bem juntos, poderiam se desentender, poderiam recair ligeiramente no noise, mas não se aproximou dessa característica do Velvet.

A voz de Nico preenche os ouvidos como o mais grave dos metais, sobe de volta pela garganta e se expande na língua, se diluindo como fumaça. Ao tentar imitar seu timbre algumas sílabas se perdem, ou seja, falta ar. Os arranjos são bem desenhados, alguns deles por Cale, que admite que Nico era uma letrista invejável, incomparável na verdade. Uma prova disso é que as músicas raramente tem um refrão, algo que cole na cabeça, que marque, compositores que fazem músicas densas e autobiográficas possuem essa característica. O que deixa as músicas claramente pouco comerciais. Por fim soa exatamente como uma poesia bem recitada e musicada. Há cores nas harmônias, há as cores no tom fraco certo, são músicas sinestésicas. A presença dos sintetizadores e do harmônio é constante depois de um tempo, esta espécie de órgão sem tubos era o instrumento predileto de Nico.

Todavia, em “Chelsea Girls” essa voz tanatica ainda emanava surpreendentemente de uma deusa loura, encarnação da beleza inquestionável, vestida em calças brancas e botas de hipismo. Se não fosse por esta voz talvez passasse como um disco de folk-rock marcado pelo violino e guitarra, melancólico e onírico apenas, que se questiona sobre uma mudança. “Agora que é real, agora que os sonhos deram tudo o que tinham de dar, eu quero saber se devo ficar ou se devo ir?” diz “The Fairest Season”. “Esses dias eu pareço pensar sobre como todas as mudanças vieram na minha direção, e eu penso se eu vou ver outro caminho” diz “These Days”.

Nico não queria ser mais objetificada. Sua personalidade mórbida gritou por esta mudança. Estava assumidamente cansada da vida. É essa sinceridade que nos atrai nos nossos ídolos musicais, que os autoriza, como disse no início, àquelas formas de representação de nossos egos. Mais que sua vida junkie e inconsequente, eles dizem coisas que não podemos dizer. Não podemos dizer “oh, esta vida é um estafermo”, que alguém irá nos repreender. Seja um colega, um amigo, um familiar. É preciso pedir desculpas para as pessoas por não termos a mesma visão de mundo que elas. É preciso despreocupá-las, afinal, dos suicídios. Suicídios no plural, pois algumas pessoas bebem a morte em gotas, em drogas lícitas ou ilícitas, em carros velozes, em abandono das refeições.

A cantora passou a odiar sua beleza, passou a fazer coisas para distrair aquela atração imagética, usar outras roupas, escuras e largas, tingir os cabelos de cores escuras, deixando os grisalhos aparecerem depois. Estava despreocupada com as marcas de agulha no braço, a pele do rosto estragada e os dentes podres. Com olhos injetados em órbitas fundas “era uma drogada de meia idade” como disse seu tecladista James Young.

Aquela geração, aquele meio, era certamente composto de pessoas que, bem como os hippies, criaram uma contracultura, uma busca de experiências na contra-mão da movimentação da sociedade comum, e é mais provável que as drogas não sejam nem fuga, nem suicídio lento, como taxamos facilmente hoje. É difícil traçar um perfil social, cultural, psicológico de uma outra geração. Este Zeitgeist fulgaz, com outras drogas, com outros anseios, com base no que não vivemos, e até para quem o viveu é difícil, a memória é falha. Olhe só nossos avós dizendo “antes tudo era mais calmo”, quando viveram durante a segunda guerra.

Não é uma apologia, mas vejam a geração beat, poesias marginais, experiências com ópio, haxixe, mescalina, peiote, obras como “As portas da percepção” de Aldous Huxley que acontecem em 50; experiências também presentes no existencialismo; também as distopias concebidas por Huxley e Orwells; na música começa uma busca da psicolodelia, do oriente, do ciclíquico, minimalista, hipnótico como mantras; vejam também os filmes de Oliver Stone, além da biografia do The Doors, “Assassinos por natureza” (é um filmes bastante recortado mas ao menos parte dele quer evocar os anos sessenta), perpassados por grandes espectros indígenas, a parabola da cobra contada pelo índio navajo e o chamado do xamã para Morrison. Havia, ainda que deteriorada, ou sem eixo, a busca de auto-conhecimento, de acesso a consciências expandidas e conhecimento extraordinário. Contracultura é particularmente ainda o termo é usado por Theodoro Roszak, em 1970, na obra “O nascimento de uma contracultura”, exatamente para conceituar, reunir, todos esses elementos aparentemente dispersos, mas que o autor vê como “uma constelação cultural que difere radicalmente dos valores e concepções fundamentais de nossa sociedade” que sem dúvida tem muito a amadurecer para alcançar uma “plena coesão social”.

Se Nico era apenas uma personalidade superficial em busca de autodestruição, uma romântica inocente, e não uma intelectual consciente destes agenciamentos, não é onde quero chegar. Este é meu ponto final na contextualização de sua vida, somente isto.

nico-smiling-nico-33135875-500-528.jpg É difícil achar uma imagem da artista sorrindo, principalmente nas apresentações ao vivo ela parece sempre fatalizada

No segundo disco, “Marble Index”, (agora após o reconhecimento unânime de sua feiura) Nico alcança um nível protogótico. Se Iggy Pop, que também protagonizou momentos com Nico (gravaram “Evening of Light”), é chamado gloriosamente de protopunk, certamente esta pode ostentar tal título. Protogótico; as características dos próximos discos da artista podem ser encontradas em várias composições da darkwave, ambient music, ethereal, etc.. “É meio medieval”, comenta uma amiga no documentário. “Marble Index” contempla a decadência, inspirado nas ruínas de Berlim em 46; nele tudo se torna mais hipnótico, um caleidoscópio de imagens e sons rodopiantes numa danse macabre. A partir disso as letras e os vocais são mais catárticos. “Através da tela da janela o demônio está dançando, encena uma paródia crucial, está chamando e sacundindo os braços erguidos no ar. Ninguém está lá.”.

Em “Desertshore” as cortinas são abertas por "Janitor of Lunacy" numa entonação mais arriscada, quase um grito, para pedir “zelador da loucura, paralise minha infância, petrifique o berço vazio (...) Testemunha minha vaidade, mortaliza minha memória, engana o feito do demônio”. Memento mori, relembre-se da morte, a única coisa certa, a única que não surpreende; lembre-se que a loucura e a morte podem levar tudo que a vaidade cultiva. “O fim, meu único amigo, o fim”, a versão de Nico para “The End”, de Morrison, intitula um disco de 1974 e é ainda mais aterradora. Certamente este disco mergulha sua carreira em um perpétuo memento mori. Ninguém mais que Brian Eno está nos sintetizadores. Seu último disco de estúdio é "Camera Obscura", produzido por Cale.

Nico foi controversa e inconsequente, porém viveu até morrer, ou seja, não cometeu suicidou. Teve também uma morte indigna de rockstar, não se afogou no próprio vômito, não teve sua milésima overdose, apenas caiu de bicicleta e bateu a cabeça. Sua vida também foi indigna de uma estrela, ela realmente abraça a decadência, a certa altura a encontramos morando com um de seus últimos amantes em uma casa quase sem móveis, sem luz, sem aquecimento, apenas com velas queimando no chão e bitucas por toda parte. Da glamurosa modelo à personalidade decadente, sem apreço pela vida, mas que se entristecia de ter o filho tirado de si pela avó que pediu sua guarda. Qual vida é cheia de sentido? Qual vida vale ser vivida? O que há de nos satisfazer? Esse tipo de vazio, essa melancolia é muitas vezes uma "dádiva" na vida de um artista, ou na vida de seus fãs pelo menos. “Pra se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”, não? Qualquer poesia tem um quê denso, não é contar piada, é difícil escrevê-la quando se está alegre, compor é como que chorar e redigir uma prece. E ainda diz mais Vinicius de Moraes: “uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora”.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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