longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Figuras antidiversidade: o gay moralista

O gay moralista é uma contradição em si que perambula por aí quase bem camuflado, como qualquer minoria que reproduz um discurso universalizante. Este quer calar discursos diferentes do seu através de construções lógicas, como se viver fosse um jogo de xadrez. A este jogo se evoca a Razão. E eis o homossexual que tenta achar perante a Razão a solução por ser discriminado na conduta do outro, que é diferente de si. Outrora o julgávamos diversidade também, mas ele não parou mais para se olhar no espelho.


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O melhor lado das ciências humanas é que ainda do mais analítico dos seus aspectos belo dia, e não raro, somos lá surpreendidos, imersos em toda a argumentação para concretizar algo cientificamente válido, com lições de vida que carregamos para sempre. E que obviamente nos tornam cada dia mais outra pessoa.

Das frases mais belas que aprendi em textos acadêmicos uma que não me sai da cabeça é “a diversidade é benéfica, a uniformidade diminui nossas alegrias e nossos recursos (intelectuais, emocionais e materiais).” É de Paul Feyerabend, filósofo da ciência, está contida na obra “Adeus à Razão”.

Esta Razão com “R” maiúsculo que o autor usa é para especificar que é aquela cuja qual faz, por exemplo, os Estados Unidos implantarem sua democracia no Iraque. Esta Razão Moderna sim, que não se atualizou em vários nichos. A Razão do projeto cartesiano no século XVII ao iluminismo no século XVIII, que tinha lá sua boa intenção, a intenção positiva (no sentido científico) de achar universalidades, de traçar métodos (quiçá "O método") para achar sempre um x compreensível.

Só que a Razão mede, esmiúça e classifica, e desta forma nos acostumamos a precisar sempre do campo certo para colocar as coisas. Da astrologia à psicologia, és aqui aquário, és lá psicótico. Deste misticismo civilizado à ciência.

Os que pedem intervenção militar fazem tudo racionalmente. Intervenção militar... intervenção psiquiátrica como disse o José Simão. Uma figura que parece sumida um pouco, ao menos das minhas vistas, é o negro racista, que despreza a própria raça racionalmente; a mulher que não só reproduz, mas defende com unhas e dentes, o discurso machista racionalmente; o religioso fanático também é racional. Como dizem os Titãs “você pode ter razão, mas não pode estar certo”, aliás “pode até se divertir como animal adestrado”, então, lógico, pode ser gay, mas não seja afetado. Essa figura que também esquecemos, que achamos que era o monstro no armário que acabou na infância, ainda volta vez por outra, o gay moralista, conservador dos bons costumes.

Não nos enganemos, não ser moralista é diferente de ser promíscuo ou coisa que o valha, e sim repudiar o apego a estes valores anacrônicos, tão nocivos, que cospem na diversidade.

Ser moralista não deveria ser prezar por valores decantados em uma sociedade doente, e ser conservador também não deveria ser uma palavra pejorativa, porém se torna assim que você quer assegurar-se de seus privilégios abafando a voz do outro, odiando a mudança por fazer aparecer a alteridade.

Numa simples proposição de comentário no Facebook a figura mitológica se expôs a mim. Em um post um contato, homossexual, se questionava por que tem sido tão difícil conseguir um relacionamento monogâmico estável. Com a introdução do poliamor nos comentários, que se entrelaçavam com o conteúdo do post, eu fui impelido a comentar também, pois a cisão com a monogamia é algo que me chama atenção.

Monogamia: reformar ou desistir? Monogamia não é igreja, e as pessoas podem, dependendo de sua inclinação, firmar seus contratos de relacionamento como bem quiserem, suponho que sejamos livres. Vi esses dias o emocionante vídeo da comemoração do surgimento da constituição após a ditadura.

Malograda função de comentar o comentário do Facebook e dividir a discussão do post em inúmeras, meu comentário se tornou alvo de repúdio de um moralista. Essa figura mística, tragicômica, o homossexual conservador. Conservador e racional neste caso é pleonasmo, o conservador é sempre racional, quem discorda dele é sempre burro. Bom senso é algo que Deus deu tão somente a mim, quão medieval. O comentário sugeria sarcasticamente que já que estávamos falando de abandonar a monogamia voltássemos também a andar de quatro, e abandonemos nossa racionalidade.

O gay conservador quer que a sociedade perceba, a alto custo, que ele é um bom caráter. Que aquele gay anormal é um gay que sai do padrão, que suja a imagem de todos os outros, que é essa figura promíscua que deve ser sim abafada.

Alto custo é este apelo à normatização das pessoas, alto custo é pisar na liberdade de expressão, não se pode nem sugerir um mero tema, que o unificador pensa que, pelo contrário, o pária que sugere alguma mudança no sistema quer universalizá-la. Quando na verdade ela já acontece, ela já está lá, só precisa ser desmarginalizada, não precisa funcionar para todos.

Alto é o custo de fazer com que alguém pense que o problema de a sociedade não aceitá-lo está tão somente nele. Isto é apontar o dedo na cara de alguém e dizer "você é o culpado de tudo isto!".

Este apelo à Razão que amontoou bandidos, vagabundos, homossexuais e loucos sem distinção em leprosários, pois estes foram desde sua criação usados para afastar algo que a sociedade não queria ver. Razão que quer tirar da frente, que escraviza, que catequiza os selvagens, porque, claro, não são racionais; manda os protestantes às galés; mistifica os surdos; mata os judeus, os comunistas, que por sua vez matam os ciganos, os homossexuais, os opositores, enfim, tudo que é diferente, e tudo que quer se expressar, dizer que também existe.

A universalidade é um perigo, não é nos tornando o que as pessoas querem ver que seremos aceitos. O movimento é o contrário, que as pessoas aceitem ver o que nós somos. E somos muitos, somos diversos, não esquadrinhe espaços para o outro.

E depois que levaram a todos estes? Também não é "ficando na sua" que as coisas ficarão bem, o homossexual moralista acha que está em segurança; O "Intertexto" de Bertolt Brecht com Martin Niemöller* responde: levaram a mim, que por não me importar com ninguém não tive ninguém para se importar comigo. Façam o que quiser dos homossexuais, estes não são eu, são os afeminados lá fora. Façam o que quiser dos libertários, dos revolucionários, destes escandalosos, estou aqui bem quieto.

* "Intertexto" é o mais conhecido poema sobre a indiferença baseado em outro poema chamado "E não sobrou ninguém" de Niemöller.

* A imagem que encabeça o artigo faz parte da exposição "Imaginação no poder" de Gérard Fromanger, o autor, bem como vários outros à época, deixa vários pôsteres sob domínio público por uma iniciativa libertária em Maio de 68.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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