longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

O fenômeno Baader-Meinhof na música do Legião Urbana

Movimentações sociais, conflitos civis, guerrilha urbana, violação de direitos humanos, abuso de poder jurídico, abuso estatal em geral, muita violência, indiferença. As questões trazidas pelo fenômeno Baader-Meinhof na música do Legião Urbana.


BAADER complex.jpgCartaz do filme alemão de 2008, indicado a Oscar de melhor filme estrangeiro

O título da conhecida música da banda brasiliense, Baader-Meinhof Blues, é referência ao Grupo Baader-Meinhof que foi uma organização de extrema esquerda alemã, chamada na verdade RAF, fração armada do exército vermelho (Rote Armee Fraktion), que iniciou em 1970, e não atuou apenas de 70 à 80, logo antes de Brasília nos dar Legião (82 a 96, a música está no disco inicial de 85, anteriormente não tinham contrato com uma gravadora).

Em verdade o final oficial de suas operações se deu em 1998, quando uma carta de oito páginas, datilografada em alemão, foi enviada à agência de notícias Reuters, assinada com o logotipo da RAF - uma metralhadora MP5 sobre a estrela vermelha - comunicando o fim das atividades do grupo, depois de 28 anos de existência como organização.

A biografia do grupo possui um best seller escrito por Stefan Aust, e filmado por Uli Edel em 2008. Filme que indico vigorosamente.

A adaptação do roteiro foi feita por ninguém mais, ninguém menos que o produtor Bernd Eichinger, de "A Queda! – As Últimas Horas de Hitler”.

Baader e Meinhof não são necessariamente os lideres, mas Ulrike Meinhof certamente é uma das fundadoras, militante radical de esquerda, já experiente escritora, ela ficou conhecida por organizar a fuga de Andreas Baader da prisão em 1970. A mídia passou a designá-los assim para lograr-lhes reconhecimento de movimento político organizado, e caracterizá-los um bando anarcoterrorista. Nem se deve dizer que também pejorativamente os chamavam anarquistas, pois seus escritos demonstram que nem no sentido puro o eram.

A semente do movimento veio em verdade de Gudrun Ensslin, estudante de literatura que, envolvida em uma manifestação contra o Xá Reza Pahlavi, que visitava Berlim em 02 de junho de 1972, assistiu a morte de um estudante a tiros por um policial, o policial foi inocentado à época. Reza Pahlavi, monarca do Irã, estava sendo denunciado por se fazer indiferente a violação de direitos humanos em seu país. Episódios como estes começam a colocar em questão o monopólio da violência pelo Estado, Ensslin convenceu-se então que "a única forma de responder à violência seria com violência".

Ensslin conhece Baader em 68, junto com mais dois companheiros são presos como incendiários, ganham um período de condicional, tem o período revogado e sendo convocados a voltarem para cumprir o resto da pena fogem para Paris. Mais tarde vão para a Itália. Outro nome conhecido, Horst Mahler, seu advogado neste caso, os incentiva a voltarem a Alemanha e fundarem um grupo de guerrilha.

Hoje em dia, com 80 anos, Horst Mahler não só é ativista de direita, como é membro do Partido Nacional Democrático da Alemanha, envolvido em polêmicas como racismo e xenofobia, tido inicialmente como o sucessor do NSDAP de Hitler.

Meinhof, que estava instável quanto a ideia de se juntar à luta contra o sistema, e cujo único ato prático até o momento fora contribuir numa barricada enfileirando seu carro ao empedimento, e em sua defesa ter dito que somente o havia estacionado às pressas para cobrir o acontecimento, aceita refugiar Baader e Ensslin em sua casa, onde tem que alegar aos filhos pequenos que são seus parentes. Baader é preso em 1970, portando documentos falsos. Resgatar Baader colocaria o fim à vida da profissional e da mãe Ulrike Meinhof.

Na qualidade de jornalista é permitido a Ulrike Meinhof se encontrar com Andreas Baader para uma entrevista na prisão. Era uma cilada para que a namorada de Andreas entrasse com mais quatro pessoas e o resgatassem. Houve troca de tiros com os guardas que escoltavam a sala da entrevista e todos fugiram pela janela, inclusive Meinhof. O alarde foi completo, o retrato de ambos estampava todas as manchetes, o grupo clandestino fora batizado.

O grupo organizou, dentre outros atos, várias explosões de órgãos de inteligência e segurança, de onde decorreram várias mortes de militares, a reivindicação era que fossem retiradas minas terrestres do Vietnã, ou cessassem os bombardeios, por exemplo.

Novos integrantes foram se "alistando", claro, e em menos de dois anos o grupo colocou explosivos em órgãos de impressa, assaltou bancos, roubou carros e obviamente tinham que se apresentar sob documentos falsos.

Em 1974 estão quase todos presos, a última a ser capturada é Meinhof. Na prisão eles deviam se manter em celas isoladas, fora construida uma ala somente para os membros do grupo, e também um tribunal, de forma que eles nunca saíssem da prisão para comparecer às audiências.

A forma como foram tratados causou protesto da Anistia Internacional ao governo alemão. Alguns presos fizeram greve de fome, sendo alimentados a força com um tubo enfiado em suas gargantas. Um deles morreu com 40 quilos.

Em 1974 Meinhof é a primeira encontrada morta em sua cela, enforcada com uma toalha. A constatação de suicídio é questionada publicamente. Em 1977 os outros integrantes seriam mortos em suas celas e se oficializaria pelo governo a ideia de suicídio coletivo.

Andreas Baader foi encontrado já morto, enquanto Jan-Carl Raspe agonizava, ambos baleados; Gudrun Ensslin, enforcada, morreu no hospital; Irmgard Möller fora esfaqueada no peito e no pescoço. Ocorre, entre outros fatos, que: esta última sobreviveu, e dizia terem sido seus companheiros dopados e assassinados, porém sua comunicação com o exterior era estritamente proibida; o tiro que matou Baader foi na nuca; Raspe não tinha pólvora em suas mãos; como alguém pode se esfaquear profundamente mais de duas vezes sem desmaiar?

No decorrer de 1977 outros membros do grupo sequestraram Hanns-Martin Schleyer, empresário icônico para a economia alemã. Sua soltura era negociada pela liberdade dos membros detidos. A consequência do ocorrido com os prisioneiros é a execução de Schleyer, deixado em um porta-malas de um carro o corpo é achado após comunicarem a imprensa que estava acabada a "existência corrupta e patética de Hanns Martin Schleyer. A luta apenas começou. Liberdade por meio da luta armada antiimperialista."

Um ano após a sentença de Ulrike, foram criadas leis de exceção que ficaram conhecidas como "Leis Baader-Meinhof", que permitiam que os juízes impedissem advogados que tivessem qualquer ligação com a organização de defender seus integrantes, permitindo até que os julgamentos continuassem independentemente de sua presença no tribunal.

Um dos últimos casos polêmicos em torno do grupo que ecoou internacionalmente foi o de Klaus Croissant, advogado de defesa que pediu asilo político à França. A extradição do advogado de volta para a Alemanha, enquanto membros do Baader-Meinhof são mortos em suas celas, é um acontecimento que move o questionamento do sistema penal, dos crimes políticos, do direitos humanos, etc. A indiferença das massas na noite da extradição é um exemplo dado pelo autor Jean Baudrillard de que estamos "à sombra das maiorias silenciosas".

Ocorre que na mesma noite da extradição a França disputava sua classificação para a Copa do Mundo. "Algumas centenas de pessoas se manifestam diante da Santé, alguns advogados correm na noite, vinte milhões de pessoas passam sua noite diante da televisão. Quando a França ganhou, explosão de alegria popular." descreve Baudrillard.

Baader-Meinhof-Gang.jpgCartaz onde se lê "violentos criminosos anarquistas", Meinhof e Baader aparecem em primeiro, a terceira é Gudrun Esslin, em quinto Jan-Carl Raspe, na terceira linha, em segundo está Irmgard Möller

Desvendar com exatidão os versos de Renato, Bonfá e Dado é um trabalho mais difícil que tecer uma análise, alguns são obscuros e podem nem ter estrita relação com o título, este texto é uma análise, que é muito mais rica e menos pretensiosa que uma interpretação.

Procurar o sentido da música me levou ao filme, e coligados me levaram a uma reflexão sobre o fenômeno Baader-Meinhof, o que está em jogo são: movimentações sociais, conflitos civis, violação de direitos humanos, abuso de poder jurídico, abuso estatal em geral, indiferença, violência, muita violência.

A música abre com "A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais"

O verso seguinte "Você passa de noite e vê apartamentos acesos, tudo parece ser tão real, mas você viu esse filme também", a indiferença de quem assiste ao espetáculo televisionado, em paralelo com o que inicia o segundo momento "essa justiça desafinada, é tão humana e tão errada" vão de encontro com esta sentença:

“As guerrilhas urbanas operam no vazio entre o estado e as massas.” Andreas Baader

Justiça dos aparelhos de Estado, repressão e guerra versus justiça popular, violência negociada em defesa de uma sociedade, sabemos de tudo que acontece, sofremos diante de um Estado ilegítimo: “Nós assistimos televisão também, qual a diferença?”

"Andando nas ruas pensei que podia ouvir, alguém me chamando, dizendo meu nome" Em meio a explosões, incêndios, tiroteios, a confusão interior, o sofrimento individual ensurdecedor, os gritos de socorro, a busca de lugar seguro.

Na guerra, no caos das explosões, nos escombros. São muitos gritos juntos! Um monte de corpo cheios de vazio! Corpos massificados, corpos sem individualidade, corpos quentes, que em prol de uma liberdade são uma massa fria. "Já estou cheio de me sentir vazio, meu corpo é quente e estou sentindo frio"

O sentimento não é bem o motor da revolução "todo mundo sabe, ninguém que mais saber, afinal amar ao próximo é tão démodé". A revolução se esquece da liberdade, ao lutar pela liberdade. A guerra torna as populações um preço pífio a se pagar pela soberania de um governo “matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca (...) tornava suas vítimas invisíveis, (...) somente alvos” Hobsbawm

Como já diria Churchill, o pior regime é a democracia, fora todos os outros. Monarquia, ditadura, democracia, socialismo, militâncias, nenhum regime ou movimento obtém sempre sucesso na questão libertar, mas em aprisionar tem o máximo de êxito. É preciso sempre ter um pé atrás. Há pessoas que não querem aderir a um lado, só querem não ser tocadas, localizadas, enquadradas, estatizadas! “Não estatize meus sentimentos. Pra seu governo o meu estado é independente.”

“Protesto é quando digo que não concordo com algo. Resistência é quando me asseguro de que as coisas que discordo não acontecerão mais.” Ulrike Meinhof

Faz muito sentido falar dessa música em todo o contexto desse nome “Legião Urbana”, uma banda com questionamento político, mas de uma sentimentalidade incrível. Qual a necessidade de ser triste para ser militante, já que é cinza e abominável suficientemente o que combatemos?

Faz muito sentido para mim agora, que esta música esteja no primeiro disco, abrindo “as portas da percepção” sob o que estava para vir desta banda.

Esse estilo de música "não punk", mas fortemente marcada em suas letras pela crítica política, foi nossa espécie de pós punk nacional, conhecida como rock paulista, pois houve um boom de várias bandas surgindo nessa capital (As mercenárias, Smack, Voluntários da Pátria, Akira S & as garotas que erraram, entre outras). Algumas ficaram numa memória nostálgica, como Inimigos do Rei, outras se mantiveram, como o Ira! e Ultraje a Rigor, mas Legião obteve um lastro sentimental inalcançável, figura cânone de um panteão do rock brasileiro, trilha sonora da vida de muitas pessoas.

Urbana Legio omnia vincit!

legião.JPGA corruptela do mote em latim "Legião Romana a tudo vence" está em quase todos os discos


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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