longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Eu, tu, ele: celular

E se a inclusão do celular às investigações comportamentais, sobre inter-relacionamento, comunicação não verbal, etc., fosse encorajada? Pesquisas desse tipo geram uma gama de escritos, desde científicos a manuais de autoajuda, e vem até agora mencionando o ambiente virtual como ferramenta, mas ainda que o tom deste texto seja lúdico e sarcástico, não há como negar, é um apontamento sério, o celular já faz parte do nosso corpo, está se impregnando na nossa biologia, rege nosso comportamento mais que mecanicamente.


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Até pouquíssimo tempo atrás a maioria das pessoas se sentia incomodada com alguém que não tira os olhos do celular. Livros científicos de análise comportamental ou manuais de conquista, seja para se tornar melhor no trabalho, no amor ou qualquer aspecto do cotidiano, se concentram em nos mostrar os acontecimentos não verbais, frisam coisas como “deixe o celular de lado, assim fará as pessoas sentirem que sua atenção é integralmente delas”. Hoje a maioria virou uma minoria, e se alguém se sente incomodado, e acha que o outro usar o celular é um medidor de atenção ou não está se tornando inconsciente.

Eu mesmo superei isto. Mas confesso que aprecio a gentileza das pessoas em deixar o celular de lado.

Quanto mais jovem mais o sentimento de indiferença quanto a isso se instaura. Afinal, o celular nem deveria mais se chamar celular, celular é algo que ficou no passado, que servia para fazer ligações, e invadir totalmente nossa privacidade. Depois que as mensagens começaram a dominá-lo este passou a se integrar mais silenciosamente a nossa convivência.

É como diz a brincadeira das redes sociais “se você chamar seu Iphone de celular o espírito do Steve Jobs aparece e transforma-o em um Nokia Azul”. Olhar no celular talvez fosse pecado, no smartphone é mais que natural.

Conta o prestigiado professor de história da UNICAMP, Leandro Karnal, que ao tentar revidar os alunos, certa feita, deixou o celular ligado, o que considera um crime ao dar aula, e a cada vez que os alunos perguntavam alguma coisa ele fazia um gesto para que eles esperassem, conferia o celular, e depois respondia. Ao final da aula ele perguntou “vocês perceberam o que aconteceu aqui hoje?” e eles disseram simplesmente “não”. Para eles foi muito natural. O mesmo professor conta que na tentativa de um diálogo com uma pessoa que não parava de receber ligações resolveu ligar para ela e disse “vamos ver se por aqui consigo a sua atenção”.

Quando digo da parte biológica estou falando do apelo ao que é instintivo, do que de alguma forma nos ajudou na sobrevivência em um dado momento. Sempre vemos destas coisas nas publicações citadas.

Tocar é algo invasor. Proximidade é algo que deve ser evitado, mesmo num banco de ônibus nós delimitamos nosso espaço. Encarar é certamente algo invasor. É visto como algo nocivo. Coisas assim são instintivas.

Encarar é aquilo que fazemos por mais de três segundos. Se alguém nos olha sem medo algum por muito tempo é assustador, não atraente. Mas se alguém nos olha por pouco tempo, de tempo em tempo, se virando quando nos viramos, não tomamos como nocivo, muito pelo contrário. Se estivermos com alguém por perto para relatar e alimentar o sentimento positivo é ainda mais propenso concluir que aquela pessoa se interessou por nós.

Você pode conquistar a simpatia de alguém com gestos não verbais, como olhar por pouco tempo, movimentos de sobrancelhas e lábios, uma inclinação de cabeça, uma certa forma de jogar o cabelo e outras atitudes corporais. Basta ler qualquer um desses manuais, guias comportamentais, estudos sobre relações proxêmicas, etc.

Até agora.

Relação proxêmica é um conceito do antropólogo Edward Hall cunhado em uma obra intitulada “A dimensão oculta” de 1963, que sucintamente quer dizer: uma linguagem de espaços, no que tange a ocupação e utilização deste para comunicação entre um indivíduo e outro.

A boa relação de espaço entre indivíduos hoje é aquela na qual o celular cabe.

A geração atual já nasce sabendo mexer em tablets e celulares. Quem sobreviverá? A favor de quem a seleção natural está? Dos que ainda tem a sensibilidade de reconhecer pequenos gestos e olhares, ou dos que estão conectados e adquiriram essa espécie de hanseníase existencial?

A banalidade de olhar para o celular poderá nos tirar nossas “armadilhas” de conquista naturais? Será que um olhar que vai ao celular voltará ao seu redor para completar um flerte? Será que ele estará do nosso lado? Tornar-se-á cada vez mais fácil achar alguém na internet, quem sabe reconhecimento por foto? E os que sobreviverão serão os privilegiados, ou seja, os que estão do outro lado da conexão? Para nosso azar, meros mortais, que estamos ali na frente. Azar de quem olhou por mais tempo que devia. Agora a pessoa já foi contar para alguém que tem alguém lhe encarando no ônibus.

Os psicólogos podem afirmar de pés juntos que não. Continuarei temeroso. Temeroso que algum dia seus livros mudem e digam “cuidado para não perder o olhar da pessoa para o smarthphone, estudos apontam que se uma pessoa tiver mais de três aplicativos para responder ela se esquecerá de qualquer coisa ao seu redor, não importa o quão atraente”.

Não sou tão saudosista. Não sinto tanta falta de quando as pessoas se olhavam plenamente. É instrumento do tímido, é esse o ponto mais positivo.

Não sinto falta de quando não procuravam o wi-fi a cada recinto que adentravam. Gosto de procurá-lo, acho seguro, se alguém quiser me achar, se tudo correr mal, terei com o que me entreter; se eu quiser carona também.

Há fotos demais nos encontros, sim, isso há.

Se você é obsessivo compulsivo talvez perceba que não limpamos o celular, lavamos as mãos, mas nunca o celular, e com as mãos, salvo engano, pegamos o celular.

Então, pensemos de forma otimista, quem sabe novos sinais de uma interação bem construída comecem a surgir, em vez de “a pessoa retirou o celular da frente, ele parecia um obstáculo à interação, a interação está consolidada” encontremos a dica “ela esteve com o celular até agora, mas ao menos não colocou-o na mesa, muito menos ao lado do prato de comida, pode ser um sinal de que ela respeita seu par”.

Saia com a mesmíssima roupa duas vezes, pode ser que a outra pessoa repare, pode ser que não tire fotos, por ser o mesmo lugar e a mesma roupa ela faça essa incrível constatação, a de que vai parecer que são fotos reaproveitadas e não irá postá-las com a legenda “de ontem”. Puxa, esta pessoa está mesmo reparando em você.

Chame-a pelo celular. Será a melhor forma de constatar em que nível estamos. Se ela se envergonhar e continuar a conversa oralmente as coisas não saíram totalmente do controle. Caso ela continue, aceite, os que perpetuarão a espécie serão os que estão separados por uma tela, a evolução não beneficiará os fracos que persistirem em costumes arcaicos como conversar olhando nos olhos, sem membros cruzados ou virados para a saída, retirando objetos do espaço entre os dois, inclinando-se levemente em relação à pessoa, etc, etc.

Dentro em breve abandonaremos o que sabíamos até aqui. Mas tenhamos em mente que uma pessoa pode realmente estar interessada no que você diz, em vez de estar esperando sua vez para falar. Depende do tempo que ela demora para responder. Depende do emoticon que ela mandar.

Celular é o alimento de uma falácia, de um desejo impensado, o de que podemos ser onipresentes, de que além do ciclo em que estamos inseridos em um momento, podemos ainda participar de outros e atingir a todos os nossos conhecidos ao mesmo tempo. Certificar-lhes (ou a nós mesmos?) que somos felizes, que aproveitamos plenamente os momentos que estamos vivendo.

Estes dias ouvi alguém dizer, quiçá o próprio professor Leandro Karnal (minha memória não é tão boa quanto a do meu celular, tem bem mais gigas, mas foi programada de forma diferente) que a vida não é a estação, mas o trem. O celular também. Este aparelho é, como já diz o nome, um aparelho, uma máquina, um meio de conseguir o que precisamos, não um fim.

E quem não se pega por vezes, muitas vezes, pensando “vou postar sobre isto desta forma”? Não se preocupe, é reversível. Prezo para que a integração com o aparelho não seja realmente encorajada, e sim que os escritos continuem, e cada vez mais, nos ensinando a como manter relações pessoais, e não mediadas por cinco polegadas, touchscreen, 14 megapixels, que agora é bom até debaixo d’água.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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