longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Vida margarina

Vida margarina: por que derrete no calor de nossas expectativas? Não. Porque se resolve em soluções consumistas, em ilusões bem montadas, como um comercial de margarina. Este artigo é sobre crer que filhos irão salvar sua vida. Perpetuar seus sonhos, iluminar seus dias com uma presença sempre límpida. A vontade de ter um filho pode ser um sentimento consumista, como o de adquirir qualquer objeto.


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“Filhos, melhor não tê-los”, do poema “Enjoadinho” de Vinicius de Moraes, é de onde Roseli Sayão tira a melhor máxima para fazer exposição de uma análise para os pais de primeira viagem. Com isto nossa renomada psicóloga quer dizer que é melhor não tratá-los como bens de consumo. Não ter filhos para preencher uma casa maior, uma vida que parece incompleta. Não ter filhos para nos tornar imortais, dar a eles tudo o que não tivemos e espelhar um futuro idealizado por nós neles. Não ter filhos pela “família margarina”, famoso jargão para os que estudam educação. Lembrar que crianças são agitadas, adoecem, não estão sempre limpas e coradas como nos comerciais que mostram uma família à mesa esperando a mãe trazer o café.

A reflexão mais fatal, penso eu, para que a sua crise dos vinte, da meia idade, ou qualquer outro fator que te faça sentir vazio e pense que uma outra vida sanará isso, é lembrar que um dia aquela criança será você.

Ainda não inventaram nenhum ser vivo não vegetal em bonsai. Toda prole animal cresce. Nossos animais de estimação crescem. Há bem menos problemas nisso do que no fato de que nossos filhos crescem.

Seus filhos um dia serão você. Um dia terão grandes ambições. Na infância irão querer coisas que não sabem que você não pode lhes dar porque pensa não ser primordial. Não entenderão se você escolher lhes dar uma educação privilegiada em vez de um vídeo game de ultima geração.

Na adolescência explodirão em hormônios e se rebelarão, seja você um péssimo pai, um pai regular, ou um pai excelente. “Não se preocupe, sempre dá errado” brinca Leandro Karnal, na família original, criada diretamente por Deus, Caim mata o próprio irmão. A adolescência é o mundo perdido, é o abismo em que não sabemos se somos crianças ou adultos, e realmente não somos nenhum dos dois, somos a transição.

Ok, nós superamos. Quase todos superam. O pior vem exatamente quando alcançamos o mundo adulto.

Queremos mudar de casa. Queremos mudar de cidade. Queremos estudar e ter uma profissão satisfatória. Queremos preencher nosso vazio. E ainda por cima muitos de nossos colegas de escola parecem estar conseguindo coisas tão grandes, e nos sentimos como se a vida tivesse pista de largada, onde ficamos para trás.

O seu filho um dia será você. E não bastará que você o compreenda. Como não bastou até ali. Nem na infância, nem na adolescência. Talvez você não possa mantê-lo fora para que ele curse a faculdade integral que é seu sonho; talvez ele se encontre frustrado com seu emprego; talvez se sinta frustrado com seu relacionamento; e na pior das hipóteses, não bastante não seguir nenhum das suas idealizações espelhadas, ele sonhe em seguir carreira na área de humanas, ele sonhe em ser professor. Muitos dos figurões que vemos em cafés filosóficos, docentes da USP, UNESP, UNICAMP, etc., especializados no exterior, já fizeram essa brincadeira, Karnal, Cortella, Pondé ou Clóvis de Barros.

É uma triste verdade, é uma verdade aparentemente pessimista. É, pois que Schopenhauer esteja certo.

Ou Sartre. Existir é isto. Existir é uma fatalidade. Existir é o fardo das escolhas. Só que muitas das vezes as escolhas serão irrealizáveis.

Pense nisso, seus filhos existirão. Seus filhos pegarão metrô lotado às seis da tarde na linha vermelha em São Paulo. Seus filhos pegarão ônibus. Ou assumirão seus negócios a contragosto. Ou estarão dirigindo no trânsito, voltando estupefatos do Banco do Brasil ou da Caixa Federal, pois sua família, seus irmãos, seus pais, supriram o ideal de que a estabilidade de um bom concurso público é uma meta corporativa de vida.

Seus filhos poderão se debruçar sobre as mãos como você nesse momento, que na tentativa de preencher sua vida, onde festas e bebidas não fazem mais sentido, e seus amigos te deixam pois afinal, quase todos eles se casaram e tiveram filhos.

E, claro, todos esses valores poderão ter definitivamente ter virado poeira quando seus filhos existirem, e eles passarão por crises de transições, avaliando que aprenderam coisas que não lhes servem em absolutamente nada. A tão esperada escola que cursei, o curso de informática que minha mãe não deixou abandonar, hoje não tem mais nome, são obtusos.

Seus filhos serão você. E isto que você está pensando para solucionar sua vida se chama egoísmo. A sua vida é o que você quer para seus filhos? Você ama? Você poderá dá-la a eles sem ressentimentos? Ou esta vida nova que você quer colocar no mundo é uma desesperada tentativa de salvar a sua? Ter filhos não necessita um minimo de empatia, necessita um máximo, pois é pensar naquilo que ainda nem é.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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