longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

A pornografia nos moldou? - A antipornografia de Nabokov em Lolita

A forma como fazemos sexo é instinto natural ou demanda de um imaginário industrializado? A forma como fazemos sexo é retratada na pornografia, ou esta ganhou vida própria? Nossos sentimentos vão direto ao imediato, não temos tempo pra atender à sensibilidade, a demanda da alma, só nos livrar do impulso fisiológico que nos consome como fome. Queria Diógenes de Sínope, o cínico, poder satisfazer a fome apenas esfregando sua barriga, como podia fazer com a necessidade sexual.


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Ao contrário do que sugere nosso infectado imaginário o famoso romance da década de 50, "Lolita" de Vladimir Nabokov, não é um livro pornográfico, quiçá também não seja sobre pedofilia, e por mais avisos que o iniciem, é decepcionante lê-lo até com o mínimo interesse erótico. Ao final (não ao final da história, tentarei fugir dos spoillers caso o leitor se interesse em ler o livro que não é um clássico tão conhecido como o fim de Star Wars, por exemplo) descobrimos que era exatamente a intenção do autor criar uma antipornografia.

A pergunta inicial é: o que nos deu esse imaginário restrito, infectado, seja lá como se queira dizer, de que a mera sugestão de um caso de pedofilia se trataria de um livro erótico, senão pornográfico? (suposto aqui já que a definição de erotismo e pornografia sejam bem distintas para o leitor, a primeira é uma arte de insinuação, no máximo, e nem sempre, um estímulo sexual; enquanto a pornografia é uma jogada explícita de conteúdo sexual apelativo).

Muitos anos de um jogo de investimento sobre isto que parece ser um mero estímulo natural, o sexo. Mas existe, ou existiu, este estímulo natural cru? Onde se pode achar? Onde se acha o estímulo sexual fora da influência do meio em que vivemos?

Um exemplo de que nosso imaginário sexual vai se enquadrando em moldes sociais, e não num puro estímulo natural é esta questão moral que produzirá um engasgo até mesmo na pessoa mais libertária: porque a simples menção de que Lolita se trata de um adulto que se apaixona por uma menina de 12 anos produz a qualidade ao livro de "um livro sobre pedofilia"?

Em nosso contexto jurídico pedófilo caracteriza um indivíduo que se atrai por um pré-pubere. Porém a todo momento a questão da maioridade, e principalmente maioridade penal, tem entrado em voga. No contexto sócio-histórico nem sempre 18 anos foi uma idade de reconhecimento de maturidade total, principalmente em outros momentos da nossa cultura, ou de outros povos. Pros gregos, pode apostar sua casa, isso não devia ser problema algum - claro que pros gregos escravidão também era normal, não ligue a máquina do tempo.

O que é um indivíduo de 12 anos hoje? Pré-adolescente se diz? São, com toda a sabida modificação alimentícia, os mesmo indivíduos de ontem? Mesma carga de hormônios? Mesmo nível de amadurecimento (falta de)? Logo, uma pessoa atraída por qualquer menor de idade não é um pedófilo, existem dois outros termos para isso: hebéfilo, que é alguém cujo interesse amoroso são pré-adolescentes, e "efebófilo" que se atrai por adolescentes ou pessoas no final da adolescência.

Até a modernidade crianças não existiam, veja o exemplo da conhecida princesa do Brasil, Carlota Joaquina, que se casou com D. João VI aos 10 anos. Isso possibilitou relações abusivas e com o desenvolvimento de consciências humanistas, ou quaisquer outras necessidades, foram-se criando mecanismos de defesa desses órgãos mais frágeis.

Como disse um dos editores que rejeitaram Lolita: se eu publicar este livro iremos todos presos. Não quero banalizar a pedofilia, não queremos ir todos presos, certo? Aonde quero chegar com estes apontamentos é justamente que algumas singularidades ajustaram um meio de proteger o individuo infantil. O debate de até onde vai a infância ou a adolescência atualmente é outra coisa, fixemos a ideia de estabilização de condenação de um desvio moral de uma parte, para proteção de outra. Logo, essas pessoas com tal transtorno merecem compreensão também, é necessária informação e descobrimento desta capa de moralidade, para que essas possam buscar ajuda, aliviando-se do seu sofrimento e do possível sofrimento de uma criança.

E é isso que Humbert Humbert é, desviante, o protagonista mostra certas peculiaridades em comportamento, pois existem certos traços esperados de um pedófilo que não se encontram neste homem. Como é dito no começo do livro, como caso clínico pode se tornar um clássico para a psiquiatria. Destas peculiaridades falarei mais adiante.

Esse aspecto da nossa vida nunca ficou somente entre quatro paredes, o sexo é uma força motora cuja potência só se isola à esfera do privado numa pequeníssima porção, 99% é público, 99% é nossa ferramenta de revolução, é ferramenta de mudança de nosso ser, é escancarado para nossa transformação/tratamento, é ferramenta de conexão espiritual (o Kama-sutra é um livro com este intuito para quem não sabe), foi estudado como reserva de energias, é nosso maior trunfo de socialização, quase todos os tabus giram em torno dele, quase todo dia um tabu em torno dele é quebrado.

Dessa forma a questão seguinte: moldamos nossos atos sexuais, ou eles nos moldaram?

Impulsionados por nossas convenções cotidianas - nossa moral protecionista, nossa libido incentivada exacerbadamente, etc. - somos levados a acreditar que Lolita se trata de pornografia. Ou que um romance que contenha pedofilia será obviamente pornografia.

Impulsionado pela pornografia somos levados a fazer sexo de certa forma, a acreditar que somos todos máquinas viris a serem libertas, quando existem pessoas que gostam pouco ou nada de sexo; que o sexo deve vir sempre em um turbilhão de variações, com novas combinações, se possível mais pessoas, se possível mais pessoas ao mesmo tempo, ou seja, num crescendo diz Nabokov; o sexo é voltado imediatamente ao genital, com uma mínima volúpia de toque, chamamos preliminares.

Isso sabidamente se iniciou com os libertinos, o Marquês de Sade certamente o que nos chega até hoje. A idade medieval repudiou o corpo descoberto, mas no Renascimento houve finalmente uma abertura para as artes voltarem a mostrá-lo, porém a tolerância durou pouco, e com a Reforma do século 16 a Igreja novamente quer resguardar os cristãos ao pudor.

Sempre houve formas de cair no despudoramento, com tolerância da cultura vigente ou não, na idade média havia contadores de histórias picantes, se não se podia ver, podia ouvir. Dois séculos depois então começam a surgir movimentos críticos à moral impositora cristã, e um deles são os hedonistas e decadentes libertinos no século 18.

Sade considerava o corpo uma máquina destinada a degeneração... que ele resolveu acelerar. Sade não escreveu e depois fez, escreveu porque fez, porque suas ideias e comportamento o levavam à famosa Bastilha, onde por sinal estava quando a derrubaram na Revolução. Na prisão então ele escrevia seus contos, que são sem dúvida assustadoramente carregados de sexo criminoso, com o maior número de envolvidos e "peripécias" possíveis, "em uma de suas peças até o jardineiro é convocado a participar" diz Nabokov, pois é. Na verdade só se poupava as cozinheiras. Única regra de Sade, poupar as cozinheiras, pois a máquina precisa ser lubrificada, não?

Por outro lado Sade é um sargento do sexo, Foucault quem o diz. A concordância entre Foucault e Nabokov me iluminou a escrever este artigo. O pornógrafo não tem liberdade com enredos, com cenários, com demais descrições senão as de uma cena de sexo, e é somente aí que é necessário ser meticuloso ao extremo, e é necessário que se chegue logo a ela, que ela se siga com mais e mais frequência, que o último momento seja infinitamente "pior" que o primeiro, senão se perde a audiência. Essa é a grande tristeza estética da pornografia, as regras são claras, não há liberdade, há enquadramento, há um objetivo claro, e isso a torna tediosa, meticulosa, disciplinada, e anatomicamente limitada.

A pornografia digital data de 1896, um ano após a invenção do cinematógrafo, mas eram apenas strippers filmadas. Segundo a historiadora Mary del Priori as pessoas só começaram a se beijar na boca por volta da Primeira Guerra, com a invenção da pasta de dente, pois nos séculos anteriores era "fedor em baixo, fedor em cima", concluímos que talvez não fosse tão convidativo, certo? De fato o mais antigo registro de pornô como vemos hoje data de 1915. Após isso se instala o vasto repertório, que hoje já não é surpresa e sim quase uma exigência, que pede além de preliminares, closes genitais e penetração sempre que possível incluir sexo oral, anal, lesbianismo, ménage à trois, etc.

Na década de 70 foram introduzidos no mercado os videocassetes, as fitas de VHS popularizando ainda mais a pornografia, permitindo às pessoas não precisarem mais se sujeitarem à cinemas, sujos e sem privacidade.

Impulsionada pela tecnologia talvez seja possível que a pornografia esteja tomando um eficiência própria. Com a banalização do sexo, principalmente por aplicativos, e principalmente apps de encontro gays, estamos preocupados em "mandar nudes" mais do que realmente fazer sexo com outra pessoa. Antes a pornografia era um "ensaio", pensar que aquilo poderia ser feito com uma pessoa. Hoje ela parece se bastar em si mesma, em sua hiperealidade.

E não há estudos sobre a influência dela na vida das pessoas? Bem, o pesquisador Simon Louis Lajaunesse tentou executar um estudo sobre como ela afeta a vida dos homens, porém o que ele descobriu é que hoje, com o alcance da internet já há uns dez anos, "Não havia um rapaz na faixa dos 20 que nunca tivesse consumido pornografia”. É, nem padres.

lolita3.jpgA imagem mais conhecida de Lolita, óculos de coração, batom vermelho e um pirulito, pela insinuação eternizada nem parece só o acidente de uma criança destrambelhada que é a personagem

Voltando ao livro. Sim, no livro Lolita tem 12 anos, ledo engano a Lolita dos filmes tem 14 anos (1962 - dirigido por Stanley Kubrick; 1997 - por Adrian Lyne) para ligeiro alívio de consciência censuraria atual - à época certamente foi por censura executiva.

Lolita é o diminutivo de Dolores, algumas vezes chamada também de Lô, Lola ou Dolly. Hoje em dia isso virou um termo, homólogo a ninfeta, que é o termo que Humbert Humbert, um acadêmico de literatura europeu de meia idade, usa para descrever "criaturas singulares" que ele vez por outra encontra em meninas de 9 a 14 anos. Popularizou-se chamar uma jovem sexualmente precoce de lolita. Também é conhecido o estilo de moda japonesa com roupas ao estilo rococó, lembrando a era britânica do século 19 ou início do século 20 (vitoriana/edwardiana), as pessoas que os vestem se assemelham a bonecas de porcelana, e é usado por pessoas de várias idades, e inclusive alguns homens.

Dolores Haze, filha de Charlotte Haze, da qual Humbert Humbert se torna inquilino. Posteriormente Charlotte se revela apaixonada pelo professor, que claramente aceitara ficar em sua casa somente pela proximidade de Lolita, mas eles se casam e vivem felizes, por incrível que pareça. O que surpreende tanto o leitor, pois seria esperado que Humbert vivesse frustrado e ressentido, sempre na tentativa de se livrar de sua mulher e seduzir finalmente sua filha. Tanto que, ao menos no filme de 1997, é exatamente assim que o diretor resolveu retratar o casamento, de forma alguma como um momento feliz para o protagonista. É o acaso que elimina a mãe. Desde que se mudou para lá Humbert sempre escrevera em seu diário sobre sua paixão por Lolita, e eis que um dia Charlotte o descobre e em um acesso de fúria sai apressada de casa e acaba sendo atropelada.

O livro é um manuscrito. Não é uma história de amor, poderia parecer, poderia se criar, poderia se problematizar um relação entre duas pessoas de faixas etárias tão distintas, mas lolita é perversa, perversa como crianças são umas com as outras na escola, ela brinca com Humbert até que se cansa, ela o trata bem em um momento e o maltrata propositalmente em outro, Lolita é uma criança, e para os humores mais sutis, como o de sua mãe, por sinal, uma criança insuportável. Se fez de Lolita uma grande propaganda de femme fatalle, quando esse momentos são bem menores que os de pirralha imatura. Humbert não quer tirá-la dessa condição, ele sente uma paixão platônica se for o que lhe é permitido, não precisa se aproximar, só olhar, não precisa tocar seus cabelos, só ver sua cor, e se admirar com seu movimento. Humbert é um esteta, quase um paspalho, e está ciente de sua condição ser aberrante. Ele escreve o manuscrito após ser preso e ficamos esperando para saber como se deu a prisão, quando finalmente o encontraram com a menor? Porém a cada momento a trama vai ficando mais complexa, pois legalmente Humbert pode viajar com Dolores por aí no seu direito de pai, se espera então que haja um flagrante, ou uma denúncia da menina, o que nunca ocorre.

Após a morte de Charlotte os dois passam a viajar para supostamente encontrá-la em um hospital, pois quando o fato decorreu Dolores Haze estava em um acampamento, e Humbert lhe conta que sua mãe adoeceu. No primeiro hotel onde se hospedam H.H. planeja finalmente abusar de Lolita, já que até aquele momento todas as tentativas de ficar a sós com ela haviam sido frustradas. Ele lhe dá um pílula para dormir, que achava ser bastante forte, por ter tentado várias com sua falecida esposa, porém o médico o havia enganado, Lolita não cai em sono profundo, e Humbert, corroído pela ansiedade e culpa, já enquanto esperava o remédio fazer efeito, andando pelo hotel, sem conseguir conversar direito com as pessoas, imaginando todos a lhe julgar e saber o seu intento, vê seu plano embargado. Porém na manhã seguinte Lolita inicia um ato sexual com ele. Ela lhe revela que aquilo era comum com um garoto no acampamento. Lolita não é uma sugestão subjetiva, como na história do clássico "Beleza Americana". Lolita é inconstante, ambígua, é até irritante tentar sensualizá-la.

Pedófilos geralmente tem esta visão de que a criança o seduziu. Pedófilos e estupradores não são sinônimos, os primeiros se preocupam com a "integridade" da criança, que é um objeto de cuidado, como podemos ver em Humbert. Alguns se sentem no mesmo patamar que as crianças, não é o caso de Humbert, se está bem situado em seu espaço-tempo podemos dizer, e sabe que as ninfetas estão em outro, que é o que o maravilha. Pedófilos não se interessam somente por crianças, porém o interesse por elas é maior que por adultos, Humbert se encaixa neste caso visivelmente, conseguindo manter não só o casamento com Charlotte, mas também um anterior, algumas vezes admitindo a beleza de meninas de mais de 14 anos, ou de mulheres que aparentem ter menos idade do que realmente tem. Humbert teoriza que seu problema deriva de um amor de infância, mas quem de nós não teve uma amor de infância não concretizado? No geral molestadores são pessoas que foram abusadas também quando crianças.

A partir deste momento espera-se, como na "regra" da pornografia, que os momentos sensuais cresçam em um turbilhão, quando na verdade eles minguam! E descobrimos também que Humbert pode não ter sido flagrado ou denunciado, mas se entregado, pois sua paspalhice é estupefante! Logo, este homem é descartado do papel de vilão. Descobrimos que o verdadeiro abusador está no final. Começamos a supor mais a frente que o personagem fora preso por algum outro crime. O livro é uma série de distrações do sexo, e ainda de fatores reversores de uma situação que fluem de forma leve. Tão diferente do que exigiria até mesmo um romance atual, pois não temos mais paciência para apreciar descrições, sensações, fuga de maniqueísmos (deve existir alguém puramente bom e alguém puramente mal, e não descansamos enquanto não o encontramos, e o que temos aqui são dois personagens principais mais paspalhões que sensuais e perversos).

Frustrados pela armadilha do autor terminamos com um posfácio anunciando que sua intenção era criar uma antipornografia. Ele não usa essas palavras, mas manifesta sua decepção com as impossibilidades do pornógrafo, que já citei, confessa ainda seu repúdio por metáforas e uso de símbolos a serem decifrados por acadêmicos, além de nos alertar que não somos nenhum tipo de incapazes cognitivos, não somos crianças, nem analfabetos, nem delinquentes juvenis, podemos lidar com as "alusões a impulsos fisiológicos de um anormal".

A pornografia moldou nossa forma de fazer sexo? Talvez. Mas dentre tantos outros agentes contribuiu com o aumento da nossa pressa, de nossa insensibilidade estética, nossa frustração, nosso machismo, nosso preconceito com os corpos não-padrão, etc., etc., etc.. A automatização nossa de cada dia? Sem dúvida.

É preciso uma reeducação sensível. "Para mim, um romance só existe na medida que me proporciona o que chamarei grosso modo de uma volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma. Não há muito desses livros" Vladimir Nabokov, 1956.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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