longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Pato fu é bem mais do que você pensa

Sem a poderosa ferramenta da internet uma banda se firma no cenário independe do rock nacional nos anos 90. Sem se apegar a um estilo o Pato Fu conquistou seu espaço na mídia, fez shows pelo país inteiro, gravou vários discos, cativou grandes figuras do cenário musical, o que lhes rende desde trilhas de novelas a grandes parcerias, consolidando, com seu estilo sempre irreverente, um projeto multifacetado que não perdeu o gás até hoje.


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O primeiro CD do Pato Fu que comprei foi uma coletânea, e no encarte há algumas palavra do jornalista Pedro Só. Dizer que a banda é algo inédito entre as bandas que surgiam nos anos 90 e que são não só inclassificáveis, como “não estão aí para serem decifrados”, mais que uma descrição perfeita da banda em 99 (quando a coletânea a que me refiro foi lançada, que é da coleção “Focus” da BMG), é uma descrição que se mantém até hoje e sustenta a outra afirmação de Pedro Só “seu caminho altamente particular permite, no máximo, aproximações com Mutantes.”

Mais que quatro covers do grande ícone da música experimental brasileira, Pato Fu são os verdadeiros herdeiros dos Mutantes. Mutantes tem “2000”, a moda de viola futurista, algo, ao menos particularmente, inesperado. Pato Fu tem muitos momentos inesperados, principalmente apelando ao sotaque caipira, uma clara acolhida bem humorada ao fato de serem “mineirinhos, sô”.

"Ando meio desligado" também é uma versão da banda para um clássico dos Mutantes, que abria a novela global "Um anjo que caiu do céu", em 2001. Também regravaram "Qualquer Bobagem" e "Vida de cachorro".

Pato Fu tem, dentre outras, a matuta reflexão sobre a “Vida Imbecil”: “A terra boa que deus deu nóis e nóis quer mudar o mundo, esse mundo é tão perfeitim, esse mundo é mesmo amor”. Talvez não haja um álbum tão preenchido por ironia, humor negro, sarcasmo e revolta como o “Gol de quem?”. Não é uma inocente canção de viola de papo pro ar, pois no restante da música lembramos que nesse “mundo perfeitim” existe fome, violência, estupidez e “ojerizas nucleares”.

Exigiria muito falar de cada disco até hoje, mas do disco anterior, o inicial “Rotomusic de Liquidificapum”, vale destacar “Meu coração é u’a privada”, sobre pessoas que se você encostar o ouvido no peito vai ouvir “um barulhinho chuá, chuá”, esses seres que não gostam de nada, do cachorro, das crianças, da empregada, de si mesmos, mas acham que tem "sanguinho azul... de barata".

Rotomusic termina com o tema dos Flintstones, e é por isso que aos 15 anos, enquanto muitos amigos ouviam Iron Maiden eu ouvia Pato Fu. Era engraçado por demais. Até a expansão da internet, ouvir uma banda que não se apega a um estilo, que é sempre inesperada, uma banda alternativa de verdade, mas que por mérito de algumas composições belíssimas como “Perdendo os dentes” (Laços de família, 2000) ou "Por perto" (O beijo do vampiro, 2002) se tornam trilha de novela, sim senhor e daí? Que fazer sucesso não é pecado, Rita Lee, Santa Rita de Sampa, é uma das artistas que mais tem trilhas em novela.

O preconceito que marcava esse estigma da banda de novela fazia muitos perderem uma banda que não faz música para vender; uma banda que hora está arrotando distorção, hora está cantando uma versão mais boba de Ob-La-Di, Ob-La-Da que a original (que não é uma opinião pessoal, mas, entre outros, a do próprio Lennon que a chamava de “baladinha de merda do Paul”); em outro momento está celebrando Anita Ward (You can ring my beeell, ring my bell!), e em um outro uma versão com um fundo quase surreal para “A volta do boêmio”, de Nelson Gonçalves. Ao final desta há um sample da música original, e esta é uma das marcas da banda, uso de samples.

Do terceiro disco “Tem mas acabou”, do qual vale destacar a melhor rádio de todos os tempos a “Capetão 66.6 FM”, um mix de samples que culmina com Fernanda Takai, aquela voz doce de pé de ouvido, mandando uma voz distorcida num heavy metal sobre um inestimável bichinho doméstico “tem uns que cria cachorrinho em casa, cria filhote de gatinho no quintal, tem uns que dão comida pra peixinho, mas eu alimento o meu capetão”, ou seja, uma paródia bem humorada em homenagem ao estilo. No “Ao vivo MTV” ainda há a participação da dupla que encenou por anos o espetáculo tangos e tragédias, o exímio violinista Hique Gomes, e o saudoso acordeonista Nico Nicolaiewsky, falecido recentemente. O final "poético" da música vem na voz de Ricardo Koctus nos impagáveis versos "Eu quero cinco carros para andar só com um; eu quero um Macintosh para por o cd-rom; eu quero mortadela para 'corocar' no pão; eu quero salaminho fatiado com limão; eu quero um iate bem comprido lá no mar; eu quero uma casa com piscina...", vale a pena ouvir para rir.

“Pinga” e “Água” também devem ser destacadas neste disco. O título já diz tudo, a primeira é sobre o vício na bebida, porém é hilária, tendo como refrão “se eu fosse o Pelé tomava café, se eu fosse o Tostão tirava o calção, se eu o fosse o Dario pulava no rio, se eu fosse o Garrincha não pulava não”.

“Água” trata da situação de fé daqueles que vivem na seca: “nóis mora aqui no poeirão”, mas “existe todo dia uma hora da noite em que um trem no meu peito me diz que água um dia vai cair azulzim, e com certeza vai estar molhadim (...) e aqui vai virar um lamão”, com uma voz fina a banda em coro repete “lamão, lamão”, este lúdico coro de falsete é um tipo de acontecimento frequente nas músicas também, essa infantilidade da banda ainda vai culminar em “Música de brinquedo” um dia.

Em 1998 surge um disco mais sóbrio, sem pinga, com mais lírica, se inicia uma fase com menos letras ácidas e mais poéticas. Há um cover delicioso de “Eu sei” do Legião Urbana na voz de Fernanda (John muitas vezes faz vocais também). Merece destaque pela crítica os estilhaços punk de “Licitação”: “fazer pirâmide e jardim não é problema, bota o nome do Ayrton Senna na entrada do buraco (...) vamos errar português, vamos eleger um bundão, vamos votar em quem roubou, mas fez (...) já que a policia não faz nada menininho da calçada de dia dou moedinha e de noite eu dou porrada (...) vamos inventar uma nova dancinha, chicotear a o samba e maltratar o carnaval, vamos dar um jeito de arrumar a vida, então vamos morrer de uma vez, tá legal?” A música termina com uma referência à placa que a banda presenciou em uma borracharia “coliseu pneu aqui”, e um coro de nanana, claro.

Merecem destaque também “A necrofilia da arte”, que versa sobre nossa mania de nos vangloriar de consumir os mortos, de venerar, de sofrer por, de endeusar, “Elvis não morreu, mas não vivo sem ele”; e “Televisão de cachorro”, que além de música título nos compara com cães em frente o forno da padaria, sonhando com tudo que não podemos ter em frente a TV.

Outra característica é que a banda sempre arrisca outra língua, inglês, italiano francês e no ano seguinte, em “Made in Japan”, uma música totalmente composta em japonês que teoriza que após sofrer o calor da bomba A o Japão zela pela vingança com “tecnologia menor e mais barata, menor e mais bonita”; na verdade o gatilho já fora disparado, ao abrir seu amplificador valvulado, um americano legítimo, o eu lírico da música constata que este era constituído por peças que em sua metade eram feitas no Japão! “O começo do fim!”. Todavia a NASA sempre estará do nosso lado, não devemos esquecer, um projeto secreto resolverá tudo!

Merece destaque também “Um ponto oito”, pois é uma inédita crônica. É uma música que conta a história de um acidente, um atropelamento por um motorista imprudente, é uma letra poética, profunda e sensível.

O título do sexto disco é (antes tarde do que nunca?) finalmente uma música para mandar para seu parceiro sem erro, “Ruído Rosa”, em 2000, quando até Titãs começa a ser criticado por compor baladas e perder seu tom “punk”, por que não? “Toda a vez que tento me perder, acabo me encontrando perto de você”. Mas a música de trabalho deste disco foi “Eu”, que inicia com um teremin sintetizado, e ao vivo é tocada em um serrote por Hique Gomez, performance executada no Museu da Arte Pampulha (“ao vivo MTV”, que é o disco seguinte) e por um chaveirinho de fantasma no dvd “Música de Brinquedo”.

Em 2002 a banda ganha definitivamente uma grande aquisição, o maestro e arranjador Lulu Camargo, que já havia colaborado antes, mas agora assume de vez os teclados. Graças ao talento do músico o ao vivo se torna algo totalmente diverso dos álbuns de estúdio, o que faz sentido para muitas pessoas, pois se você quiser ouvir a música da forma exata em que ela foi gravada você tem o disco para isso. Sempre esperamos algo a mais no show.

E assim as músicas mais lentas receberam arranjos mais agitados, como “Por que te vas” (cover da anglo hispânica Jeanette), e vice-versa, como “Canção pra você viver mais”, que se tornou uma baladinha bem de ninar. Claro, o disco conta também com composições inéditas, como “Nada pra mim”, composta por John Ulhoa para Ana Carolina.

Falando dos outros membros da banda, Xande Tamietti é baterista desde 1988, se junta ao Pato Fu em 1996, no “Tem mas acabou” e permanece com a banda até o “Música de brinquedo”, onde arranjou formas diferentes de tocar os hits da banda como manda o figurino. De uma bateria de jazz em “No aeroporto” a "Day after day", onde tem que comungar com uma espécie de baião e ritmos africanos trazidos pela participação de "Os mulheres negras" (a pequena big band de André Abujamra e Maurício Pereira). O fôlego de Xande permaneceu impecável para acompanhar o Pato Fu até 2014.

O baixista Ricardo Koctus pertence à formação original, antes mesmo da banda se chamar Pato Fu (sustentado por 1 gesto) ele estava lá. Além do baixo ele também compõe e assume alguns vocais. Está com o Pato fu até hoje, e também já se lançou em projeto solo.

Em 2005 uma música alegre, com clipe ilustrado por Laerte, cheia de cores e o coro de vozes fininhas, a onomatopéica “Uh, uh, uh, lá, lá, lá, ié, ié” é a música de trabalho do disco “Toda Cura para todo Mal”. Parece pura brincadeira, mas tem uma letra séria, uma letra cética... quase cética. “É certo que milagre pode até existir, mas você não vai querer usar, toda cura para todo mal está no hipoglós, no mertiolate e sonrisal”. Acontece apenas que “as pessoas tendem a acreditar em forças invisíveis para fazer o bem, tudo que se vê não é suficiente, e a gente sempre invoca o nome de alguém”, a letra é autoexplicativa, totalmente autossuficiente.

Pato fu é direto, não precisa de grande interpretações. Esse disco tem uma beleza indescritível, a começar por sua “Simplicidade”, essa música com voz mecânica é uma ode à vidinha de interior, à casinha, ao café quente na pia e a barriga cheia, às pequenas coisas da vida. A voz robótica dá o contraste, certamente não por acaso.

Neste disco todas as canções ganharam um vídeo.

“Agridoce” é algo que muitos já tiveram que experimentar “o gosto azedo de uma vida doce e amarga no final”, as palavras ásperas de alguém que era importante, que nos rebaixa, se fazendo de ruim e tentando nos convencer que na verdade não somo o que o somos, não prestamos enfim. No clipe Fernanda está sozinha a um fundo braco, que vai se enchendo por manchas negras que são exaladas a cada verso infeliz que corre; é o retrato de nossa vida, de nosso dia, uma tela branca que se preenche pouco a pouco pelo breu sufocante de atitudes de pessoas inconsequentes.

Vale destacar também “Boa noite, Brasil”, gravada com a portuguesa Manuela Azevedo, também uma música-crônica baseada em um acontecimento real, com um apresentador mal humorado que após falhas técnicas demite uns, culpa outros, quer saber que foi que riu, e por fim manda todos a p*** que pariu ao vivo. Sem dúvida um ser inconsequente, que tornou muitas vidas agridoces, e que tem um coração de privada, ahn?

Daqui pro futuro, 2007, é um álbum tão maternal, John e Fernanda ganharam Nina. "Quem já tem neném sabe muito bem, tem história pra contar", Mamá-Papá conta sobre o sentimento desse de quando esse toquinho se mexe na barriga, só um toquinho "mas transforma sua vida".

E eis que, não mais que de repente, numa versão da post punk Siouxsie and the Banshees, os Pato fus não decepcionam com uma bem executada “Cities in dust", algo meio eletrônico, sem pressa, com o quê sedutor ou despreocupado.

A música de trabalho, "A verdade sobre o tempo" é uma fugidia canção que contempla a fugacidade da vida "a vida é como um gás, só um sopro, só um vento, nada mais". É pra ouvir respirando devagar, sem pressa, de olhos fechados, sem fazer mais nada, como John (como produtor John não ouve uma música fazendo outra coisa, como costumamos fazer). Ouça a música como ela toda, não como fundo ambiente, "a vida é muito mais, que os dias, que os deuses, que jornais".

Há um certo hiato após o lançamento desse, disco pois Fernanda resolve seguir com um projeto solo. Mas em 2010 voltam com uma ousadia experimental: música apenas com brinquedos. Um disco de versões, cantadas com Nina (a filha do casal), que surpreendeu tão positivamente que ganhou o Grammy em 2011 (melhor música latina para crianças) e um disco de ouro, o que é um feito excepcional para uma banda independente. O que, aliás, esqueci de mencionar, é que a banda tem um selo próprio, o Rotomusic, por isso é possível que se mantenham como banda alternativa, que permanece sem fixar uma linha e se renovem a cada dia. As versões deste disco são de artistas internacionais e nacionais, de Mccartney a Zé Ramalho.

Em 2015 um novo disco de estúdio “Não pare pra pensar”, nos mostra que para John o mundo ainda não mudou, o mundo é o diabo, “ninguém mexe com o diabo”. Ambas são faixas cantadas por John, “O mundo não mudou” do “Televisão de cachorro” é sobre uma pessoa que tenta da academia à meditação, da pregação à guerra, “mas não, o mundo não mudou”. Em “Ninguém mexe com o diabo” John diz “o mundo não quer se mexer, não está disposto a ceder, e eu até mesmo implorei e ensinei tudo que sei, mas ele não quer se salvar, gosta de tudo como está”. Não há amor para o mundo, será que também não há amor para nós no mundo?

Não citei quase nenhuma música cantada por John, e agora cito duas no mesmo disco, “You have to outgrow rock'n roll” também é uma ótima música, você precisa superar o rock ‘n’roll e também a síndrome do underground, por mais aparições que o Pato Fu tenha na mídia é uma banda independente brasileira. Muitos apaixonados por gritar que uma banda que ostenta este título deve ser apagada, conhecida por no máximo você e os próprios membros da banda, e se alguém que você não gosta conhece e passa a gostar isso quer dizer que virou modinha. “Get what you can and run away”, conselho do John.

O Pato Fu já colaborou com muitos projetos, como, além do tributos aos Mutantes ("O triângulo sem bermudas"), onde está contido o cover de “Vida de cachorro”, o tributo a Odair José “Eu vou tirar você desse lugar”, com a canção “Uma lágrima”, além da ilustre “Uma vida só”, onde Fernanda Takai colabora com Arthur Faria e seu conjunto no coro dos contrários à pílula: “pare de tomar a pílula, pare de tomar a pílula, porque ela não deixa o nosso filho nascer! Pare de tomar a pílula, all togheter now!”.

Esta é a carreira do Pato Fu, cheia de parcerias muito bem alinhadas, versões incríveis de músicas de bandas épicas, sem contar os projetos solos de Fernanda Takai, como a homenagem a Nara Leão, “Onde brilhem os olhos seus”, música de barzinho e violão, projeto elegantíssimo e “humilde” ao mesmo tempo, ainda assim Fernanda conta com a ajuda do marido John, e Lulu Camargo.

Com Pato Fu nunca se sabe, o que se pode prever é como dizem no começo, sim, em “Rotomusic”: hoje as pessoas vão morrer, hoje as pessoas vão matar, o espírito fatal e a psicose da morte estão no ar.

Não há o que cobrar destes mutantes, não há como se desentender com eles por terem abandonado alguma coisa, pois nunca se fixaram em alguma. O que eu quero nessa vida, meus caros, como diz Ricardo Koctus em Capetão 66.6 FM, é “uma maloca bem bonita na favela, eu quero namorar a Maristela”.


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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