longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Sem Foucault: três décadas sem um intelectual nada convencional

Uma singela homenagem com fatos pessoais pouco conhecidos, e por vezes cômicos, do intelectual francês Michel Foucault, que produziu de 50 a 80; foi ativo em movimentos estudantis e lutas gerais, como a luta antimanicomial e a liberação das vozes dos prisioneiros; grande ponte para entender a pós-modernidade; influente em campos diversos além da história e filosofia, como direito, letras, ciências sociais e educação física.


Gérard Fromanger -1976-Michel Foucault.jpgEsta imagem faz parte da exposição "Imaginação no poder" de Gérard Fromanger

25 de junho de 1984 – a três décadas o mundo perdeu mais um maluco, pervertido e supervalorizado por teorias facilmente refutáveis, dado manipulação e erros sobre fatos históricos que usava a seu bel prazer. E que maluco!

Numa corruptela da música do Cazuza: meus heróis morreram de AIDS; estou ciente de toda critica que se faz acerca da vida e do pensamento de Michel Foucault. Tão “fã” que sou, isso só reforma minha admiração, sua vida é um ato invejável, de experimentação e ousadia em todos os sentidos, contra-argumentações a suas teses morrem de imediato ao ler suas obras. Não se responde uma critica a Foucault, parece que ele mesmo já o fez, basta lê-lo. E para criticar basta não fazê-lo, ou não fazê-lo direito.

Aos 57 anos ele nos deixou com três volumes da "História da Sexualidade", que constariam de seis volumes! Ficamos legados a mudança de estilo nos dois últimos e saber que o próximo se chamaria "Confissões da carne".

Deixarei aqui relatos da pessoa por trás do intelectual, trazidos por um amigo, o historiador e arqueólogo Paul Veyne, na biografia "Foucault: seu pensamento, sua pessoa" e por um ferrenho crítico, Roger Kimball, que presta um favor ao tentar diminuir o autor escrevendo fatos "desconcertantes" em um texto chamado "A perversão de Foucault", confirmando que nosso filósofo era um contravensor, quase um rockstar, que sua vivência vai de acordo com sua teoria, desconstruir, desconstruir, desconstruir, nunca se conformar.

"O observador, que é o herói deste livro, chama-se Michel Foucault, essa personagem magra, elegante e incisiva que nada nem ninguém fazia recuar, e cuja esgrima intelectual maneja a escrita como se fosse um sabre." Paul Veyne

Agir de forma rápida, agir de acordo com a necessidade do momento; Foucault não era comunista, era extremamente anti-marxista, anti-maoísta, debatia com a juventude maoísta e integrantes do partido comunista, mas estava nos movimentos estudantis, nas barricadas, atirando pedras na polícia, marchando ao lado de Sartre.

Com a quinta república Daniel Defert, amante de Foucault, diz que De Gaulle, o republicano de direita, implanta um Estado fascista. Foucault discorda. Defert é um extremista, mas Foucault se apaixona por seu ativismo.

Michel Foucault é anti-freudiano, ainda assim reconhece a importância de Freud já em seu primeiro livro de caráter filófico-histórico ("A história da loucura na idade clássica"). E também seus pecados.

As contradições intelectuais de Foucault em suas obras podem ser encontradas no documentário "Foucault X Foucault", que serve também para que pessoas que até se interessam pelo autor, mas nunca conseguiram conceber "qual é a dele" fiquem esclarecidas.

Foucault cita Marx sem referenciar, principalmente em "As palavras e as coisas", criticado por isso ele responde que cita o pensador a todo momento, apenas não referencia, pois este tal leitor deveria saber identificar tais pontos.

Nas palavras de nosso biógrafo "pretenso esquerdista, que não era nem freudiano nem marxista, nem socialista nem progressista, nem terceiro-mundista, nem heideggeriano, (...) que não era nem 'nietzschiano de esquerda' (como alguns), nem, aliás, de direita, foi o inatual, o intempestivo da sua época, para retomar com propriedade um termo nietzschiano. Por essa via, Foucault era não-conformista."

Ainda que tenha alcançado sucesso da forma mais academicamente impecável, a forma quase imparcial de sua escrita, que tem tom de historiador e não filósofo, para que possamos pensar por nós mesmos sobre, o autor era amante de experiências com drogas, carros velozes e vasta experimentação sexual. "Na tua vida, com quantas mulheres foste para a cama?" perguntou ele a Paul Veyne, "Eu, quando comecei, fui para a cama com duzentos homens no primeiro ano». Imaginem como deve ter sido a faculdade para o jovem Michel, e você achou que iria encontrar um American Pie, mas na verdade perdeu sua vida social.

Claro, nem sempre tinham um caráter positivo, algumas vezes era parte do transtorno autodestrutivo falando.

Alcançou cátedra de professor da prestigiada ("pináculo da cultura francesa" usando as palavras de Kimball) universidade College de France, ainda assim em seu escritório ostentava um cartaz de uma saúna gay de São Francisco. Segundo o amigo Paul Veyne permaneceu ali pendurado até mesmo quando Foucault esteve doente.

Anteriormente, em outra faculdade, conheceu seu assistente, Daniel Defert, e quando requerido que ele explicasse à faculdade a escolha de um jovem e não uma senhora experiente e capacitada a resposta foi "não gostamos de velhas aqui".

Falando em homossexualidade, Paul Veyne fora nomeado homossexual honorário, pois era um dos únicos dentre o círculo de amigos pessoais de Foucault que não o era, e em zombaria eles comentavam "um homem como tu, aberto, instruído, preferir as mulheres!".

Também é um tanto cômico quando o amigo acordou e encontrou Foucault dormindo com uma mulher: "Ora, uma manhã, à hora do pequeno almoço, acordo com uns sons provenientes do quarto contíguo, onde tilintavam pequenas colheres e conversavam alegremente duas vozes: a de Foucault e uma fresca voz feminina. Admirado, embaraçado, bato à porta, tusso, entro e avisto um casal a sair da cama; era Foucault com uma jovem beleza de rosto inteligente. Estavam vestidos da mesma maneira, ambos trajavam um suntuoso quimono (ou antes, um yukata) que Foucault trouxera de Tóquio em dois exemplares. Sou intimado a sentar-me, desenrola-se uma amável conversa e depois a desconhecida, que falava um francês sem sotaque, ausenta-se. Mal acabara de fechar a porta da entrada que Foucault, orgulhoso como um pavão por esta sua transgressão, voltou-se para mim a dizer: 'Passamos a noite juntos. Beijei-a na bocal' Depois, disse-me que tinham até pensado em casar-se, mas na condição de Foucault poder adaptar o nome da mulher: 'Ter-me-ia chamado Michel von Bülow!'".

Uma medida de infantilidade, grande senso de humor e sarcasmo, e também, como a maioria esmagadora da internet, gostava de gatinhos "Os céticos sempre acreditaram na alma dos bichos, e Foucault fazia o elogio da inteligência do gato que visitava os apartamentos do número 285, da rua de Vaugirard 'Ele entende tudo!'" Paul Veyne.

Nosso crítico nos diz que Foucault seria arrogante, frio sarcástico e cruel, segundo ele Didier Eribon (intelectual do circulo de amizades do autor, também homossexual) lembra que em uma das escolas em que trabalhou Foucault era quase "universalmente detestado".

Todavia, nosso biógrafo conta que as pessoas que trabalharam com Foucault o achavam cortês e afável, sentindo-se agraciadas pelo tratamento igualitário que recebiam. "Entendo-me bem com a minha secretária: de carro, quando olhamos para as pessoas na rua, ela e eu gostamos dos mesmos homens". Também de acordo com Defert seu amante era uma pessoa muito fácil de se conviver no cotidiano. Mantiveram um relacionamento aberto por quase vinte anos, não sem discórdias pela persistência em estar com outras pessoas.

Perante a homossexualidade a reação de Foucault obviamente não foi sadia, em 1948 tenta suicídio pela primeira vez. Diante de quadros de autodestruição o autor se vê de encontro pela primeira vez com a psiquiatria, psicologia e psicanálise. Àquela época na França uma pessoa licenciada em filosofia também podia obter diploma de psicologia. Obtendo essa graduação em psicologia patológica a primeira obra de Foucault é nada mais que um compendio de doenças mentais publicado em 1954. O caráter filosófico envolvendo a clínica, o hospital psiquiátrico, o saber médico enfim, permeará toda a obra então.

Esse tipo de pessoa, que não teme a morte, tem seu lado positivo, às vezes chamamos coragem, quando nos é útil. Dentre atos destemidos Foucault já se arriscou entrando em um cabaré em chamas para salvar o proprietário.

Seu pai era cirurgião, a família era abastada e a criança que sonhava em se tornar um peixinho dourado e não tinha desempenho satisfatório na escola, principalmente em história, cresceu sem mais problemas, além da miopia e o bom sarro que toda a crueldade infantil deve proporcionar nos nossos primeiros anos. Porém quando alcançou a idade para ingressar no ensino superior se recusou terminantemente a seguir a carreira da família e seu brilhantismo intelectual aflorou de forma que lia mais do que o necessário, mais do que pedia a École Normale Supérieure.

Seu pai não era impositor, e seus irmãos não o oprimiram mantendo a tradição familiar, como mitificam alguns. Seu pai era gentil, apenas era rigoroso. Sua mãe também, e ajudava o marido na clínica. Quanto aos irmãos um era o caçula e outra a mais velha, e mais que isso não se diz sobre eles na história de vida do autor. A família era católica, porém não devota. Após o início dos estudos Foucault parece ter uma história própria, totalmente apartada, é sustentado e recebe herança quando o pai morre. Não há drama neste âmbito. Não há traumas de infância, seu problema foi sua juventude inerte, onde a homossexualidade devia ser tratada como invisível.

No inicio do documentário "Foucault por ele mesmo", o autor narra seu desejo por uma ciência de espaços que existem, ou seja, diferente de uma utopia, como o comunismo, a obra de Foucault trata em grande parte de espaços periféricos, onde a realidade impera excluindo. Hospícios, prisões, casas de repouso e devemos acrescentar os asilos, onde são colocadas pessoas que cometeram uma indiscrição perante uma sociedade que repudia o ócio, não ter feito o favor de morrer três semanas antes de sua aposentadoria.

Em suas experimentações sexuais é preciso citar que teve contato com o sadomasoquismo e isto foi para ele, segundo Alexander Nehamas, uma espécie de benção.

Kimball acha que os ultrajes infantis prestados por Foucault à sociedade burguesa são pífios para alinhá-lo como um revolucionário decente.

Porém, conhecido o projeto de Foucault, de mostrar que um corpo é um espaço onde foram depositados certos saberes, e bem mapeado, esquadrinhado, adestrado, é que temos num indivíduo o que chamamos tão magnanimamente "homem", intrinsecamente o que chamamos sexo. Algo dirigido a certas zonas especificas o prazer, não? O sadomasoquismo permite desligar estas zonas erógenas triviais, remapear o prazer no corpo, e quebrar a identidade que acreditamos ser nossa pele, é possível não ser mais eu, e me perder no anonimato.

Sobre a morte de Foucault sei duas ocorrências interessantes, uma, claro, narrada por Veyne.

"As últimas notícias de Foucault eram más, a minha mulher soubera na véspera, junto dos médicos do hospital de la Salpêtriere, que já não sabiam o que fazer. Tendo saído de Paris, eu ia na autoestrada, quando vi que estava a ser ultrapassado por um carro maciço e potente que seguia a alta velocidade, era verde, e a traseira retangular tinha uma forma inabitual. No momento em que passou por mim, reconheci Foucault no lugar do condutor que voltou vivamente para mim o seu perfil pontiagudo e me sorriu com os seus lábios, finos. Carreguei no acelerador para o apanhar, mas retirei imediatamente o pé, tendo compreendido o caráter alucinatório desta visão, porque uma alucinação não se confunde com uma verdadeira percepção, é índex sui; compreendera também a alegoria: Foucault ia para onde iremos todos e ultrapassava-me tranquilamente em matéria de inteligência. O carro desapareceu ao longe ou deixou de existir, não sei. Isto tudo terá durado meio minuto, no máximo. Quando contei a coisa a Passeron, ele fez-me notar aquilo que eu não compreendera: a traseira singular do carro era a de um carro mortuário. - Alucinação ou sonho acordado? A visão possuía o engenho alegórico dos sonhos próximos do acordar, quando o pensamento já está meio desperto.”

A outra, que se não me engano consta em um livro sobre "Como ler Foucault" (sim, este é o título e realmente é bom para o que se propõe), de Johanna Oksala. Alguns dias após a sua morte, centenas de amigos e admiradores aglomeraram-se no pátio em frente à capela mortuária do hospital para testemunhar a remoção de seu caixão e lhe prestar suas últimas homenagens. A multidão silenciou quando o velho amigo de Foucault, o eminente filósofo Gilles Deleuze, subiu num pequeno caixote num canto do pátio. Com uma voz quase inaudível e tremendo de tristeza, ele começou a ler os parágrafos do prefácio ao segundo volume da "História da sexualidade":

“Quanto à minha motivação, ela foi muito simples; eu gostaria que para alguns ela bastasse por si só. Foi a curiosidade - o único tipo de curiosidade, em todo caso, que merece ser exercido com algum grau de obstinação: não a que busca assimilar o que é apropriado para conhecermos, mas aquela que permite nos libertarmos de nós mesmos.

Afinal, qual seria o valor da paixão pelo saber se ela resultasse apenas numa certa soma de erudição, sem permitir ao conhecedor, de um modo ou de outro e na medida do possível, libertar-se de si próprio?

(...)Nesse caso, porém, o que é a filosofia hoje - quero dizer, a atividade filosófica - senão o trabalho crítico que o pensamento exerce sobre si mesmo? Em que consiste ela senão no esforço para saber como e em que medida pode ser possível pensar de maneira diferente, em vez de legitimar o que já é conhecido?

(...) Os estudos que se seguem, como os outros que fiz anteriormente, são estudos de 'história' em razão do domínio com que lidam e das referências a que recorrem; mas não são o trabalho de um "historiador". O que não significa que resumem ou sintetizam o trabalho feito por outros. Considerados do ponto de vista de sua "pragmática", eles são o registro de um exercício longo e experimental que precisou ser revisto e corrigido várias vezes. Foi um exercício filosófico. O objetivo era aprender em que medida o esforço para se pensar a própria história pode libertar o pensamento do que ele pensa silenciosamente, e então capacitá-lo a pensar de maneira diferente."


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo porque preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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