longas cartas pra ninguém

Pois quem vê sabe, estas palavras estão me usando!

Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la.

Ser igual para ser diferente

“Privilegiar” desfavorecidos não seria tentar igualá-los? Há pessoas que justificam sua insegurança e preconceito muitas vezes questionando a igualdade que temos perante a lei. Se queixam do surgimento de medidas que visam prover segurança para minorias, aumentando leis punitivas, e ajuda financeira a desfavorecidos, criando bolsas e cotas. Não há contradição alguma nisso, porém. Não estamos igualados, não estamos democratizados, não vivemos em um mundo colorido. Estamos em processo.


fromanger_rj_f_003.jpgEsta imagem faz parte da exposição "Imaginação no poder" de Gérard Fromanger, o autor, bem como vários outros à época, deixa vários pôsteres sob domínio público por uma iniciativa libertária em Maio de 68.

Em primeiro lugar temos que ter em mente que conservadores são pessoas que tem medo. Medo de que seu status de privilegiado seja rescindido, cassado na última hora por decisões legislativas e executivas como oferecer cota a negros, bolsas de todas as espécies, criminalização de ofensas a minorias, etc. Medo de que o mundo seguro onde este vive se desfaça, e ele se perca em um papel que era tão bem demarcado a tempos atrás.

Com a dissolução dos gêneros e mais direitos para as mulheres, por exemplo, o que sou eu, homem? O que significa ser agora esta figura que não lutou, e não precisou, por nenhuma mudança? O que sou eu branco, o que sou eu satisfeito com meu gênero? Para onde irei?

Todos, até conhecidos meus, parecem estar aceitando coisas que ontem nos eram inconcebíveis. Inicialmente a homossexualidade era tolerada, agora ela parece incentivada, vejo alguns amigos dizendo que não veriam problema em experimentar, quero estar longe daqui quando ela for obrigatória. Não sei mais o que é mulher e o que é homem.

Toda esta insegurança é recoberta então com preocupações morais de cunho religioso, político-sociais e econômicas.

Não deveríamos nos abalar, porém, no mundo subjetivo em que vivemos, com o bailar dos valores. Ainda que valores revolucionários surjam aqui, ali em outro lugar se reforçam idéias tradicionais, como lembra o historiador Leandro Karnal (UNICAMP) nos anos 70 casar na igreja não fazia parte das preocupações de uma jovem, mas hoje a avó, a mãe e a jovem sonham juntas com casamento na igreja, de branco. Em verdade sabemos que a boa religião manda que se case virgem, e o branco representa esta pureza, porém esta “regra” vira recomendação, e pouco importa para uma pessoa com uma religiosidade subjetiva hoje.

Não nos enganemos que as pessoas com este tipo de pensamento sectarista se importem com liberdade, tampouco democracia. Alguns são adeptos da intervenção militar, outros da volta da monarquia. Qualquer instituição que faça regulamentações cabíveis, ao invés de variantes que se multiplicam, são bem vindas, pois, para o cidadão cumpridor de leis não importa, é fácil seguir algo que não goze de divergência constante. Em outras palavras, estas pessoas estão sempre prontas a justificar, e embasar, às vezes de forma bastante “admirável”, seus preconceitos. Ainda que uns sejam muito eruditos, não se deixe levar, bobagem em latim ainda continuaria a ser bobagem.

O questionamento quanto a ramificação das leis pode se dar numa simples expressão “para que prezar pelo direito de ser igual querendo ser diferente?”. Ou seja, se somos todos iguais perante a lei porque o Brasil tem visto no direito penal o aumento de leis de proteção contra crimes à negros, mulheres, integrantes de grupos LGBT, etc.? Um estupro é um estupro, um homicídio é um homicídio, ocorra a quem for, é o que argumenta o conservador. Alguns são ressentidos a ponto de temer uma ditadura das minorias, onde parece prevalecer a intimidação aos que não fazem parte destes grupos.

Usar de uma proteção como um privilégio para se dar bem em cima de outro é uma atitude leviana. O direito é uma constante a ser evocada quando necessário. Pessoas que trapaceiam para conseguir bolsas, ou minorias que ofendem e depois se fazem de ofendidos, não são casos para abolir os temas em questão. A vitimização inconsequente de algumas pessoas não é caso para deslegitimar lutas sérias.

Igualdade para ser diferente sim. Não há contradição nenhuma. Todos são iguais perante a lei, mas os crimes de ódio por homofobia, racismo, xenofobia e machismo não param de aumentar, e demandas estatísticas exigem decisões concretas. Quando há maior taxa de registro de crimes em uma cidade é atendido seu pedido para aumentar o número de policiais. É algo burocrático, mas é assim que as coisas funcionam.

Se não houver queixas sobre os crimes nas delegacias não há registros de que uma cidade precise de maior policiamento. Se há maior queixa de estupros acometendo mulheres, e alguns nos dizem que homens também são estuprados provavelmente estas queixas não estão sendo registradas, seja pelo orgulho masculino, seja qual for o motivo, é covarde querer derrubar o aumento dos meios de proteção criados para atender demandas emergentes.

Todos têm as mesmas chances educacional, econômica, culturalmente? Socialmente somos todos iguais? Negros tem cotas, pobres tem bolsas. Essas demandas de esquerda atendidas pelo governo em programas sociais incomodam muito pois, novamente, não éramos todos iguais perante a lei?

A sociedade, como organismo vivo, não se faz somente de frases abstratas escritas em constituições pela eternidade. Os direitos fundamentais dos cidadãos também devem prezar pela moradia gratuita, e quantas pessoas se endividam para ter um teto hoje em dia? Nossas “casas populares” têm custos, nossos programas de financiamentos enriquecem bancos, e programas de habitação enriquecem construtoras e ambos empobrecem o cidadão comum.

Todos têm direito à segurança. E nossa policia é tão violenta que amedronta mais que o ladrão. Junto com isto temos liberdade de expressão. Mas a policia não está ao lado do manifestante, e sim está servindo orgulhosamente de aparato de proteção do órgão executivo. Nosso sistema elegeu república, mas não cortou a cabeça do rei; e ainda maquia ditadores.

Conservadores acham, claro, que revoluções são incômodos impensados. Seus intelectuais creem em preceitos idealistas clássicos, de que a história ruma para seu aprimoramento. Não nos agitemos demais.

Democracia em si é um conceito que não atende a sua semântica. Democracia nos parece ir às urnas eleger alguém para escolher por nós. E depois culpar o outro pela escolha errada. Democracia, sempre lembrando Winston Churchill, "é a pior forma de governo, fora todas as outras já tentadas". E "o melhor argumento contra ela são cinco minutos de conversa com o eleitor médio". Nossos instrumentos para aprimorar a igualdade, a democracia, a segurança, a liberdade, podem ser paradoxais, parecer contraditórios, mas certamente não são inúteis. Diante de tantos problemas é melhor garantir direitos para as minorias, incentivo aos oprimidos e chances aos menos afortunados ou nos prendermos em discussões de termos? Igualdade para ser diferente sim!


Gustave Caligari

Formado em filosofia mas devorador compulsivo de história, psicologia, sociologia, etc. Vegetariano não-xiita. Vlogger infrequente, narcisista assíduo. Escrevo por que preciso. Tomei por meta corporativa na vida informar e fazer rir, quando percebi que se ri da ignorância, se ri na ignorância, mas se assume uma postura séria, prepotente e tediosa para combatê-la..
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