Carlos Henrique dos Santos

A filosofia do dom, o senso comum e o poder das palavras na formação escolar

Você tem dom para quê? Reflexão em torno do poder das palavras na formação do senso comum nas escolas.


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Em determinados espaços da sociedade, como o da educação, é muito comum ouvirmos que este ou aquele possui o dom de algo, como o dom de ser o mais habilidoso, dom de saber mais, dom de aprender, dom de fazer, dom de saber. Mas será mesmo assim ou há mais por trás dessa ideia? O poder das palavras é um caminho de explicação bastante aceitável, já que é por meio do discurso que essas ideologias se criam e desenvolvem, a ponto de ser tornarem quase verdades, de estarem entranhadas no senso comum da população. Mas de quem é o discurso que propaga essas ideias? Certamente que não é dos que “não possuem dom” mas sim daqueles que o têm, dos que foram iluminados, escolhidos, dos eleitos, digamos.

Curiosamente, em nossa desigual e injusta sociedade, os dons mais valorizados ficam nas mãos dos mais abastados financeiramente, os ricos são os que têm o dom do saber e por isso se formam em médicos, advogados, engenheiros, intelectuais, cientistas e ocupam a pirâmide da hierarquia social, cabendo aos mais pobres e desfavorecidos de condições financeiras os dons mais simples e básicos, como o dom de limpar, de cuidar, de se subjugar aos mandos e desmandos dos ricos e poderosos. Numa simplificação: uns com o dom de pensar e os outros com o dom de executar.

Simples coincidência é que isso não é. Mas o discurso hegemônico o propaga como uma verdade e diz que se você nunca gostou da escola e abandonou os estudos a culpa é sua, é você que não tem dom para o aprendizado. Como se bastasse aqui querer ou não, como se a todos fossem dados os mesmos direitos (segundo as leis, tanto as “reais” calcadas na Constituição, como as irreais fundadas no pensamento religioso somos todos iguais) mas na prática é mais do que claro que as condições não são iguais, desde a escola que os providos e desprovidos de dom frequentam e tem a possibilidade de frequentar à alimentação, ao lazer, ao descanso, às condições de moradia nada é igual e tudo os mantém cada vez mais distantes.

O elo de união é apenas discursivo, já que ambos, com ou sem dom, reproduzem a mesma falácia: se tem ou não se tem dom! Claro que há as exceções, pois sem elas seria mais difícil explicar e manter a ideologia falaciosa, por isso alguns pobres atingem “o dom” e se formam, saem da escola e ingressam na faculdade, pois há essa possibilidade, claro que há, desde que existam condições minimante favoráveis para o processo de aprendizagem ser desenvolvido, desde que ao pobre seja dado tempo de estudo, que não precise abandonar a escola para trabalhar, desde que o pobre possa se alimentar dignamente e com isso poder se concentrar, desde que haja professores na escola pública da periferia que o pobre frequenta, desde que a família do pobre o incentive, desde que os livros e os bens culturais estejam também acessíveis aos pobres, desde que o pensar seja tão valorizado quanto o agir e que a ideia de que eu não nasci para estudar não seja vista como verdadeira, aí sim o pobre pode deixar até mesmo de ser uma exceção no mundo do dom.

Um exemplo interessante de valorização desse discurso se dá quando aquele que até então não se via ameaçado de perder seu espaço garantido pelo dom depara-se com essa possibilidade. Refiro-me às cotas universitárias (e aqui não me interessa discutir se ela é ou não o caminho, até porque o que disse acima mostra que não), já que elas retiram o dotado para o saber de sua posição de conforto e obrigam-no a se esforçar mais, pois agora haverá uma redução no seu universo de vaga até então restrito e garantido pelo discurso hegemônico. É então que vemos jovens a apregoarem em alto e bom som: mas somos todos iguais, por que ele precisa de cota?!

Esse é um assunto que já discuti em sala de aula com jovens e adultos e normalmente sou contestado, pois a força do meu discurso não se compara a séculos de formações discursivas intensas, repetitivas e legitimadas, infelizmente, pela própria escola, já que é nela e dela que emanam as maiores parcelas dessa ideologia do dom. Instituição reprodutora e formadora de verdades, a escola deveria fazer justamente o contrário do que faz e não se automutilar ao dizer que ela é incompetente e que apenas alguns, dos muitos que passam por ela, são aptos ao pensamento (dever da escola como detentora do saber como ela se coloca) e outros, a maioria, que se contentem com as migalhas do bolo da vida por não terem dom.


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