Carlos Henrique dos Santos

Ainda somos humanos

Pequena apreciação crítica do curta-metragem A Fábrica, de Aly Muritiba.


fabrica01.jpg (Cartaz do filme)

Quando muito falamos e ouvimos sobre a falência de instituições como a família (o que concordo, já que nunca foi esse ideal apregoado de equilíbrio e harmonia), ou de uma certa desumanização do homem, imerso numa sociedade corrupta e violenta, marcada por crimes, sentimentos opacos, relações inconstantes e desapego aos valores, como amor, respeito, companheirismo, etcétera e tal, vem uma obra de arte e nos arrebata, nos tira do lugar comum da descrença no atual momento em que vivemos e nos faz pensar que sim, ainda somos humanos e vale a pena viver e buscar a felicidade ou qualquer coisa que valha por esta.

A obra em questão tem pouco mais de quinze minutos e conta a história da visita de uma mãe a seu filho num presídio de Curitiba. Simples, direto, objetivo, denso, intenso, humano. Acima de tudo humano, assim posso definir A Fábrica (Brasil, 2011), o premiadíssimo curta-metragem do diretor Aly Muritiba:

A partir de uma montagem alternada, na qual vemos a ação dos dois personagens em momentos simultâneos mas em espaços diferentes, somos apresentados a Metruti, o detento que se prepara para um dia de visitas; e sua mãe, que o visitará. Até aí nada demais, o diferencial está no que ela leva consigo e, principalmente, no que ele fará com o que recebe de sua mãe.

É aí que entra o humano ao qual fiz referência. Num mundo marcado pela pobreza, que no curta vem retratada por meio de uma fotografia “suja”, em que o real não maquiado emerge nu e cru nas imagens de uma casa simples de periferia e no presídio, é aí, nesse mundo que o humano vem à tona. Ele está nas ações da mãe que prepara o lanche do filho, está no ato de barbear-se dele para recebê-la. Há todo um ritual de preparação, e esta tem seu fundamento e se concretiza no momento da visita. É então que a humanidade atinge seu ápice no filme através da exaltação do amor familiar. Preso, Metruti não pode dar pessoalmente os parabéns à filha que faz aniversário, por isso sua mãe o visita munida de um aparelho celular. Este é entregue a ele de um modo bastante inusitado e metaforiza, pode-se dizer, a ascensão do amor e da humanidade no sujo mundo em que estão inseridos os personagens.

Marcado por muitos silêncios e tendo sua construção narrativa estruturada numa ótima montagem o filme nos envolve pouco a pouco e nos faz mergulhar completamente em sua atmosfera bem perto do fim. Belíssimo retrato do amor e da afetividade, A Fábrica, como o próprio título metafórico indica (aqui só vendo o filme para entender), tenta, por meio da fantasia, salvar o amor. É no universo infantil, no futuro, no vir a ser singelo e doce da filha de Metruti ao telefone com um doce na mão que temos a redenção do homem. Com a sensação de dever cumprido expressa no sorriso que traz no rosto, Metruti se aproxima da mãe e lhe dá a mão. É então que temos o primeiro plano mais aberto do curta, já que até então a câmera se manteve sempre muito próxima, em planos fechados, que ajudam a reproduzir a atmosfera de enclausuramento do personagem.

É um grande plano geral em que se vê a quadra de esportes do presídio com os detentos e suas respectivas visitas, avistamos também e principalmente o céu, imagem que nos remete diretamente à liberdade, tão almejada por todos que ali estão. Dessa forma é possível pensar o filme como otimista, já que se inicia com Metruti a se barbear num primeiríssimo plano bem fechado no seu rosto refletido no espelho (o encarceramento total do corpo e das emoções) e se fecha com o céu, que indica um para além do presídio, que nos dá, junto da ligação que ele faz para a filha, a sensação de liberdade.


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