Carlos Henrique dos Santos

Carregando Sonhos

Há onze anos escrevi um conto intitulado "Sorriso verde de esperança". A ideia é a mesma desse aqui mas agora eu procurei desenvolver um pouco mais os personagens que se amam e decidem pular juntos no abismo. Antes havia apenas o amor (o que já é muito) e nesta nova versão acrescentei certa indignação por parte do narrador com o mundo que o cerca. O resultado agora me parece mais interessante, tanto no ritmo da narrativa quanto no que motiva e envolve o pulo em si.


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Ela chegará e dará bom dia daquele jeito meio displicente dela, como quem fala sem ter um interlocutor a quem se dirige, em seguida me olhará nos olhos esperando eu dizer que a amo, que é o meu modo de agir repetitivo e constante que ela tanto reclama dizendo ser mais uma mania do que realmente um sentimento e que talvez eu não a ame coisa nenhuma mas apenas goste de ficar pronunciando te amo te amo te amo mas que no fundo tenho quase certeza que ela adora, adora tanto que faz essa pausa tipo filme novela seriado em que se fala, para e espera o close up que irá te filmar olhando a pessoa com quem conversa e num campo contra campo teremos as duas expressões faciais na tela em momentos alternados, quem fala e quem ouve e assim sucessivamente numa troca de planos monótona, cansativa e nada bonita cinematograficamente falando, por isso ela para, espera e sorri assim que eu pronuncio te amo e digo também bom dia.

Antes que eu pergunte o porquê do atraso ela dirá que o trânsito estava uma merda, pronunciando merda feito uma criança chateada com um amiguinho da escola e que acabou de conhecer a palavra, usando assim toda a sua força expressiva e indignatória para juntar as sílabas mer-da e se mostrar irritada por meio mais da pronúncia do que da palavra em si, o ônibus, como sempre, demorou e ainda veio parando em todos os pontos, parece que todo mundo resolveu sair de casa no mesmo dia e hora que eu. Dizendo isso ela parecerá uma daquelas senhoras idosas que vão ao banco com mais desejo de reclamar da vida do que de realmente resolver possíveis problemas financeiros, pelo menos assim sempre me pareceu, quando enfim ela silenciar depois de dizer que precisam construir logo um metrô em São Gonçalo porque assim não tá dando mais com esse trânsito dos infernos eu direi apenas tudo bem, relaxa, tá cedo ainda e dá tempo, por isso eu marquei a essa hora, para não termos problemas e antes que eu termine e possa dizer novamente que a amo e que estou feliz de estar com ela ali, ao meu lado para passarmos o dia juntos e aproveitarmos o máximo que pudermos, ela já estará com o celular na mão discando o número da mãe e sem nem ouvir o final da minha fala dirá que está tudo bem, que não precisa se preocupar que ela já chegou etcétera e tal.

Temos vinte anos mas queríamos ter mais, temos vinte anos mas sentimos que temos mais, temos vinte anos mas sonhamos com o dia em que teremos trinta, quarenta e ainda estaremos juntos, saindo cedo de casa para passar o dia na companhia um do outro tomando banho de cachoeira e fumando um baseado, temos vinte anos e nossos sonhos se resumem a publicar um livro a quatro mãos como fizeram Cortázar e Carol, ter três filhos (dois meninos e uma menina mas não nessa ordem e sim: um menino, Juca, uma menina, Rosa Clara e outro menino Zéca, assim mesmo, Juca e Zéca como nomes e não apelidos), morar perto de uma cachoeira num lugar com muito verde e ganhar na mega-sena para poder fazer tudo isso sem trabalhar. A parte mais difícil parece ser essa, já que o livro está iniciado e temos recebido elogios de alguns amigos a quem mostramos o rascunho, os filhos são frutos de uma relação sexual, o que fazemos frequentemente e com muito gosto e não seria difícil que em uma delas ela engravidasse, e a casa na cachoeira é o problema pois não temos grana nem para o aluguel de uma quanto mais para a compra. Mas não nos abatemos com isso e seguimos em frente, afinal, temos vinte anos e sonhar, como diz um samba-enredo, não custa nada e disso nós gostamos, mais ainda por termos vinte anos e nos ser permitido sonhar com ainda mais vigor e vontade, sonhar não apenas que o mundo nos pertence mas que aos vinte anos nos é possível fazer muitas coisas.

Uma delas é a que mais gosto: pular do abismo!

Sim, é isso que estamos indo fazer, por isso ela chegou nervosa e ansiosa e com aquele jeito dela lindo de reclamar das coisas feito uma criança irritada ou idosa mal humorada. Agora que estamos juntos ela parece mais calma e caminhamos ao nosso destino. O dia está lindo, céu azul e limpo, sem nuvens, tempo ideal para um bom pulo no abismo. A gente faz isso há um tempo, eu primeiro e ela depois mas sempre dá uma sensação boa de primeira vez, de descoberta, medo e desejo se mesclam e geram uma sensação mágica. Dizem os amigos que já usaram drogas e pularam que os efeitos são parecidos. Segundo eles tanto os instantes anteriores, que precedem o pulo, quanto o depois do pulo são bem semelhantes ao que acontece com os usuários: começa com uma vontade grande, intensa de usar, isso varia tanto do simples cigarro fumado pelo adolescente em início de vício ao remédio tarja preta usado por donas de casa entediadas com casamento e filhos e contas e stress passando ainda, claro, pelos fortes e prejudiciais crack e cocaína mas em todos os casos o procedimento é o mesmo:

1- vontade intensa seguida de uso;

2- o uso repetitivo, já que o primeiro puxa o segundo que por sua vez chama o terceiro que trará colado em si o quarto e ad infinitum ou enquanto o corpo permitir.

3- como momento subsequente à repetição vem o relaxamento fruto da satisfação do prazer barra necessidade. Aí se chega ao que alguns comparam até mesmo ao orgasmo, é o ápice, a droga fazendo efeito total, expulsando todos os problemas e chateações e deixando o usuário livre, tão livre que se distancia de si mesmo e, muitas vezes, se perde no uso barra vício e não encontra mais um caminho de volta. Isso o pulo no abismo não faz.

Se tirarmos as partes danosas que o uso das drogas acarreta os traços agradáveis que a mesma proporciona ao liberar a dopamina (o neurotransmissor que nos dá a sensação de prazer e recompensa após o uso das drogas) e outros, como a noradrenalina e a serotonina, e irrigar assim o cérebro de prazer o pulo no abismo tem sim certa semelhança mas guardadas, claro e logicamente, as devidas proporções, já que o pulo não tem contraindicação e não faz mal à saúde, pelo contrário, se pularmos com frequência nos sentimos ainda melhores, mais vivos, mais leves, mais felizes mesmo.

Por isso desde a primeira vez que pulamos juntos ela sempre se empolga, demonstra toda uma satisfação já na preparação. Os dias que antecedem o pulo são intensos e longos para ela, que se diz encantada com a possibilidade de poder, novamente, pular do abismo comigo. Muitos ainda nos criticam, dizem que somos irresponsáveis e que na nossa idade deveríamos ter outras preocupações, que a vida é seria etcétera e tal pra gente levar desse jeito. Mas sério não é sinônimo de chato, digo, dizemos em resposta mas pouco parece adiantar. Já que é sempre a mesma monótona ladainha vindo de pais, avós, tios e até alguns amigos que se deixam levar pelo discurso dos mais velhos.

Enfim, nós não mudaremos por causa deles. Nós amamos pular do abismo e sabemos que isso nos faz bem. Mais do que simplesmente saber a gente sente, e sentir, meu caro, no mundo de hoje é quase um artigo de luxo tamanha ocupação a envolver as pessoas. Se não concorda veja só: quem tem tempo de sentir algo preso em engarrafamentos com um celular na mão? Quem sente o quê a distância nos diversos bate papos virtuais mantidos ao mesmo tempo? Quem sabe o que sente enquanto aguarda o fim do mês usando o cheque especial? Como sentir-se bem com um salário que dura metade do mês, ou nem isso? O que sente o empresário que fabrica armas de fogo que irão matar milhares de milhares de pessoas mundo afora? E os políticos que, ao desviarem verbas, assinam sentenças de mortes, como a grana que deveria ir para hospitais ou obras emergenciais e vão para bancos no exterior ou compram carros importados e iates, ele sente? Onde está o sentir de quem se mata por banalidades, como em uma briga de rua no trânsito? O que sente a mãe que aborta seu filho? O pedófilo sente o que ao maltratar sexualmente uma criança? Eu sinto o que quando abandono meu filho na creche com pouco mais de um ano de vida, os pais deveriam se perguntar, não? Eu sinto?

Essa talvez seja a indagação central do homem do século XXI. Ou pelo menos a que ele deveria se fazer constantemente. Mas não. No lugar de pensar seu próprio sentir, no lugar, na verdade, de sentir, as pessoas querem se meter na vida dos outros e vem me recriminar só porque pulo no abismo com certa frequência. E só não pulo mais porque o ritual que envolve o pulo é sagrado e precisa ser seguido. Não basta subir a montanha e pular. É preciso pular a dois, com alguém que te encante, alguém de quem tu goste realmente. Alguém que faça o pulo valer a pena porque todo pulo pode ser o último, esse é o risco, isso é viver: arriscar-se diariamente, viver ou não viver, isso é a questão. Além disso você precisa ter certeza de que quer pular. Saber que o pulo leva todo um dia mas também que a semana anterior e posterior ao pulo são fundamentais, porque nelas você precisa estar limpo de impurezas: sem drogas, sem comida gordurosa, sem ter dormido mal, sem estar de mal humor, sem dores de cabeça ou pelo corpo. Você deve estar bem consigo mesmo física e emocionalmente se não o pulo não repercute em você e o que era pra ser a mais louca e intensa experiência da sua vida pode ser apenas um ato suicida. Algumas pessoas já morreram ao pular. Achavam-se preparadas mas não verdade não estavam e não deu, o corpo e a mente não suportaram a força da queda e, no mesmo dia ou nos seguintes, vieram a falecer.

Dias desses li na rua uma frase pichada em um muro: “Como carregar e guardar sonhos em meio a tanta realidade bruta?” Achei linda e forte, assim como é o pulo em si: lindo, forte, intenso e revigorante. Agora enquanto caminhamos em direção ao topo da pedra lembro da frase e digo a ela e ela diz que gosta, que linda frase!, e sorri e me abraça e pendurada em meu pescoço sussurra que me ama, te amo, sabia?! Sim, eu sei mas não digo que sei e apenas sorrio de volta enquanto caminho. Dura pouco mais de uma hora e meia a subida, tempo suficiente para ir limpando a cabeça dos problemas lá de baixo. É recomendado subir em silêncio, tanto para a limpeza da mente quanto para uma boa respiração, o que ajuda a limpar também as impurezas do corpo. Assim que chegamos ela me abraça e sorri, me solta e corre de um para outro lado feito uma menina no recreio da escola. Abre os braços e rodopia sobre o próprio eixo: assim a rodar de braços abertos no mesmo lugar ela está linda e me encanta. Eu a admiro em silêncio, em seguida ajeito minhas coisas no canto de sempre, sob a sombra de uma árvore, tiro tênis e camisa (sempre pulo sem camisa, adoro a sensação do vento a tocar todo meu corpo durante a queda) e os ponho na bolsa, bebo um pouco d'água e molho rosto e cabeça. Ela se aproxima, me beija, sorri e diz que lindo, que lindo dia, que lindo você, que linda a vida. Eu retribuo seu sorriso e a abraço, em seu ouvido sussurro te amo, tá pronta? Ela diz que sim e tira óculos e tênis, os coloca junto das minhas coisas, se aproxima, segura minha mão e me olha, vamos? Ela diz com o olhar. Sim, vamos, eu digo também com o olhar, então iniciamos a caminhada, um, dois, três passos antes de nos colocarmos a correr, primeiro lentamente e em seguida mais acelerado, enquanto corremos eu a olho, ela está de olhos vidrados no horizonte, nem parece que corre comigo a seu lado, a corrida dura uns trinta segundos apenas, quando nos aproximamos da beira eu sinto que ela aperta minha mão, a olho e vejo que ela fechou os olhos, como sempre faz nessas horas, eu olho pra frente e vejo, além do horizonte que se abre para o infinito, o fim da pedra cada vez mais próximo, então pulamos.


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