Carlos Henrique dos Santos

Cinema com cara de Brasil

Sobre como os filmes nacionais nos ajudam a pensar o país: Casa Grande e Que Horas Ela Volta? em diálogo.


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Existem diversas maneiras de assistir e pensar um filme, dentre elas há uma que me agrada e que diz respeito a certo papel social que acredito que o cinema (assim como a educação) deve ter. Partindo dessa perspectiva acredito, ainda, que esse papel social deve propor reflexões sobre questões, sejam elas boas ou ruins, que envolvem a sociedade na qual o filme está inserido, questões essas que podem ser trabalhadas de diferentes maneiras cinematográficas, seja por meio de uma linguagem tradicional que busca com isso, normalmente, atingir um público mais amplo, ou como um exercício de estilo e/ou linguagem, sendo dessa forma um filme que obriga o espectador a duas reflexões, no plano da forma e do conteúdo.

Independente de quais caminhos o cineasta e a equipe optem por seguir o fundamental, para mim, está nas reflexões propostas. E dois filmes nacionais recentes são um prato cheio (e bota cheio nisso!) para se pensar o Brasil e suas muitas e intensas desigualdades. Servidos então em sequência tornam-se um banquete de questionamentos possíveis sobre nossa realidade.

Assisti Casa Grande (Fellipe Gamarano Barbosa, Brasil, 2015) e Que Horas Ela Volta? (Ana Muylaert, Brasil, 2015) um seguido do outro, nessa ordem e o resultado foi que me vi arrebatado, entorpecido numa overdose de Brasil. Fiquei muito feliz em constatar que após um boom dos mais desagradáveis de comédias fracas e vazias (muito mais programas de TV estendidos em duas horas do que obras cinematográficas que se prezem) que pode estar havendo uma mudança de rumo em nossos filmes. Resultado disso é o sucesso que o longa estrelado por Regina Casé vem tendo, a ponto de, a partir de hoje (17/09/2015), ter um aumento de 90% em seu número de cópias, ou seja, o filme faz, assim, o caminho inverso da maioria, que normalmente entra em cartaz num número maior de salas e vai pouco a pouco tendo uma redução de cópias.

É possível dizer então que o público está cansado da receita, mais do que batida, das comédias besteirol que vem inundando nosso cinemas nos últimos anos? Acredito que sim. Além disso, o fato de tanto uma quanto outra obra citada aqui tratarem da classe média alta nos indica outro ponto interessante: após o sertão (década de 60) e a favela (década de 90 e início dos 2000), o foco de alguns cineastas agora é a combalida classe média.

Cada filme lança um olhar: o de Fellipe Barbosa se debruça sobre a decadência de uma família carioca e tem como personagem principal o jovem de 16 anos que se vê perdido, tanto pelas questões da idade, como sexualidade, quanto pelas que envolvem seus pais e a crise financeira que os assola. Outro ponto é a relação de Jean com os familiares, já que não é com eles que o rapaz dialoga e tenta se situar no mundo mas sim com os empregados da casa, seja o motorista, para saber sobre como “ir além do beijo”, seja com a empregada, com quem estabelece uma relação erótico-afetiva.

No longa de Ana há uma inversão e o olhar recai, ao contrário, sobre a empregada de uma família burguesa de São Paulo. Esta, após anos distante dos parentes que vivem no Nordeste e sofrendo na pele a força da desigualdade, vê as coisas mudarem com a chegada da filha para prestar vestibular. A jovem é contestadora e não aceita a submissão da mãe.

Tocando em pontos-chave das relações humanas, como afeto, carinho, compreensão, amor, respeito, admiração, desejo, além de valores sociais e morais os longas traçam um belo retrato do Brasil desigual no qual vivemos. Há clichês demais nos filmes, é possível dizer como crítica mas os mesmos aqui emergem mais como um registro do que como uma mera repetição daquilo que já sabemos. Os lugares-comuns nos longas são mais um modo de retratar fielmente certas situações do que apenas uma maneira de reproduzir uma ideia.

No plano da linguagem os filmes são eficientes e atendem muito bem àquilo que tem como proposta principal: contar bem uma história e proporcionar reflexões instigantes sobre nossa sociedade. Esta eficiência da linguagem se traduz em narrativas seguras e atuações firmes dos atores, principalmente em Que Horas Ela Volta? Mas até mesmo Marcelo Novaes, acreditem, tem atuação convincente como o pai falido do jovem Jean.

A sensação que fica após assistir os filmes é que temos problemas demais a enfrentar no caminho para a construção de uma sociedade realmente justa. Se em pleno século XXI ainda há resquícios de nosso passado de escravidão e violência (não à toa o título de um dos longas é Casa Grande, o que nos mostra que a senzala ainda está viva, seja no quartinho de empregada abafado, pequeno e mal ventilado de Val, seja ainda nos espaços, divididos entre periferia e zona sul). Estes contrastes que marcam nosso país ao longo de nossa história tristemente ainda se fazem presentes, vivos e pulsantes.

Mas o que agrada e faz ter esperança é saber que a arte, no caso o cinema, está atenta aos nossos dilemas e os procura retratar, mostrar nossa cara a nós mesmos. Belos filmes sobre feios problemas, uma antítese que persegue nossos cineastas, pode-se dizer, já que desde o sertão de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra nos anos 60 eles são vistos na tela e nos ajudam a entender melhor o que faz nosso Brasil Brasil.


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