Carlos Henrique dos Santos

Cinema e Educação: caminhos possíveis - parte 2

Mais do que um passatempo ou apenas uma forma de "ilustrar" um conteúdo, acredito que a exibição de filmes no espaço escolar deva ter como foco maior o exercício da cidadania (função primordial da escola) e da sensibilidade, por isso defendemos a inserção do filme Vidas Secas em uma dvdteca escolar.


Para dar continuidade à lista, segue o comentário sobre o segundo filme que poria na minha dvdteca escolar.

Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, Brasil, 1963). images.jpg (Cartaz do filme)

Outro marco do Cinema Novo, Vidas Secas é mesmo uma obra que deve fazer parte de um acervo que se proponha preservar o cinema e a arte como forma de reflexão. Filme inspirado no também clássico romance do mesmo nome, de Graciliano Ramos, o longa, assim como Terra em Transe, é fruto de um projeto estético-político de fazer cinema no Brasil na década de 60; projeto esse que não deve ser esquecido e por isso é dever social da escola mantê-lo vivo, fazer com que ele seja visto e pensado, admirado e discutido. A estética objetiva, digamos, que marca o filme, com sua fotografia de um sertão árido, seco, num preto e branco iluminado, que reflete, reproduz a vida sem sonhos, tomada por desenganos e dores, por frustrações e melancolias, tudo isso emerge na luz que estoura, no sol que não tem clemência e brilha, brilha com força e dureza, um filme repleto de silêncios que muito significam,

Assim como se pode discutir a força literária que Graciliano põe no romance, pode-se também pensar em como Nelson Pereira dos Santos transpôs dignamente de forma bela e precisa essa mesma força para uma outra linguagem, fez um filme com marcas que podem ser tidas como literárias (toda a poesia da morte da cachorra Baleia, por exemplo), tamanha a fidelidade e originalidade que sua leitura de Vidas Secas nos oferece. Problema social histórico no Brasil, a seca e o sertão eram para os cinemanovistas o que foi a favela para um grupo de cineastas brasileiros, mais precisamente na virada do século XX para o XXI. Da miséria de um para a do outro, do descaso político de um para o de outro, da violência de um para a de outro, ambos os espaços foram usados como um microcosmo do país, sertão e favela servindo de cenário para se pensar o tamanho da nossa miséria, do nosso problema. cisternas06.jpg (Imagem da seca no Brasil)

Se o primeiro ainda é um problema nordestino, visto em reportagens até os dias de hoje, o segundo é nacional. Problema que afeta tanto os grandes centros urbanos do Sudeste quando o próprio Nordeste e está presente nos outros dois filmes escolhidos por nós, não diretamente, como tema mas de modo subentendido, associado à toda violência que permeia a sociedade carioca. Não à toa sua utilização pelo cinema foi uma constante de filmes os mais diversos. Não à toa, também, nossa lista traz dois desses filmes que pensam a criminalidade de hoje e a seca de ontem. Problema social dos mais intensos e difíceis de lidar, a violência é uma marca nesses filmes, tanto aqui, em Vidas Secas, quanto nos documentários citados por nós nos próximos artigos (Notícias de Uma Guerra Particular e Ônibus 174), a violência emerge como uma marca de uma sociedade pobre e miserável, como uma característica de um país desigual e injusto, em que agir violentamente é quase uma válvula de escape, parece, para uma parcela da população.

Não pode a escola se omitir desse problema, dessa discussão, e nada melhor do que usar o cinema, arte eminentemente visual e moderna, de fácil acessibilidade para uma parcela grande da população, para levantar questões que ajudem a refletir sobre esses males. Assim como com Terra em Transe todo o projeto estético do Cinema Novo deve ser discutido com Vidas Secas, a ideia de um cinema de autor, a procura por um cinema de contestação e transformação, a busca de uma indústria nacional de cinema, a valorização dos elementos culturais brasileiros, não por acaso o Cinema Novo adaptou diversas obras literárias, o próprio Nelson tem no currículo Memórias do Cárcere, do Mesmo Graciliano, Tenda dos Milagres, de Jorge Amado e Asylo Muito Louco (da novela O Alienista), de Machado de Assis. Esse encontro entre artistas nacionais, como o de Glauber Rocha com Villa-Lobos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, são uma amostra do projeto estético-político cinemanovista e deve ser pensado. Novamente as perguntas sobre o papel da arte na sociedade e na educação emergem. E cabe à escola possibilitar essa troca, esse diálogo entre os estudantes e a história cultural do país, talvez assim seja mais construtivo o papel desses jovens na busca de uma sociedade mais justa e igualitária


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