Carlos Henrique dos Santos

Cinema e Educação: caminhos possíveis - parte 4

Parte final da justificativa sobre os filmes nacionais que deveriam constar de uma dvdteca escolar. O longa-metragem em questão, Ônibus 174, é mais um documentário que ajuda a compreender o problema da violência no Rio de Janeiro.


Como última parte da minha reposta à provocação da formação de uma dvdteca escolar comento o denso e emocionante documentário de José Padilha.

onibus174.jpg (Capa do dvd do filme)

Ônibus 174 (José Padilha, Brasil, 2003). Semelhante à proposta de Notícias de Uma Guerra Particular no que diz respeito ao querer investigar o avanço da criminalidade na cidade do Rio de Janeiro, Ônibus 174 também procura mostrar os vários personagens envolvidos no contexto de violência. O descaso dos órgãos públicos e a falta de políticas que se preocupem com os jovens em situações de risco e precárias são fatores mostrados como causadores da violência. Com uma linguagem dinâmica e uma montagem ágil o longa retrata bem a situação de calamidade pública do Rio de Janeiro. É curioso notar que o filme anterior tem no título a palavra notícia, como se fosse uma informação que está sendo dada aos espectadores, e que este é baseado num fato real que teve ampla repercussão da mídia, sendo esta também criticada ao longo do documentário. Ambos mostram como o dia a dia está tomado por esse tipo de acontecimento violento, que é mostrado nos jornais e telejornais e chega também ao cinema.

É uma boa oportunidade de mostrar aos alunos o papel social da sétima arte, sua importância e relevância para a sociedade. Mais uma obra que se debruça sobre a realidade no intuito de entendê-la, Ônibus 174 pode ser visto em sala de aula, assim como Notícias, como um filme “político” (entendo que todo obra de arte, toda ação humana de um modo geral, assim como todo discurso, são políticos na medida em que expressam uma opinião, um ponto de vista, todos os cidadãos são políticos e não há ninguém A-político, pois isso implicaria em alguém excluído da vida em sociedade, alguém isolado num mundo próprio, o que sabemos bem não existe. Mas o “político” que uso para os filmes se relaciona com o uso que se faz da arte como uma forma de protesto, um manifesto de ideias, como uma obra que se preocupa com a realidade que a cerca). Longe de querermos apenas usar o cinema como manifesto de ideias o que pensamos e acreditamos é que tanto o cinema como a escola são produtos sociais, são criações do homem para o homem, e mais, no nosso caso, principalmente a escola, é uma instituição do Estado mantida com nosso dinheiro, sustentada pelos muitos impostos pagos pela população brasileira.

Sendo assim, nada mais justo, nada mais coerente que essa instituição devolva à sociedade seu investimento, e que essa devolução se dê em forma de bons serviços prestados à mesma sociedade pelos que passaram pela escola: médicos, professores e todos os outros profissionais que lidam diretamente com a população e que tiveram seus estudos pagos por este mesmo povo tem de retribuir esse gasto em forma de serviços dignos. É função da escola contribuir na construção da cidadania de um país, um povo com boa educação tem mais condições de ser um povo mais digno. Por isso a escola precisa estar consciente do seu papel na construção de um país melhor. Dessa forma ela deve ser responsável por discussões que envolvam temas polêmicos, ideias precisam ser debatidas, soluções precisam ser tentadas e acreditamos que o cinema pode ser útil na construção desse caminho, tanto sendo visto quanto produzido. A dvdteca deve servir como uma ferramenta didática e cultural, como mais um instrumento educacional na construção de cidadãos que pensem e façam uma sociedade melhor.

Ônibus 174 contribui como ferramenta didático-cultural com sua linguagem direta e objetiva, assim como o filme de João Moreira Salles este lança um olhar abrangente, amplo, que procura identificar e ouvir todos os envolvidos na criminalidade. O foco aqui não é apenas uma denúncia de mais um jovem negro da periferia morto pela polícia mas sim toda a complexa questão que explica a violência na sociedade carioca. O documentário atinge ótimos resultados com seu olhar multifacetado, que vai na raiz do problema e também da genealogia de Sandro para promover uma discussão. Quem é mocinho e quem é vilão aqui? Com os papéis embaralhados pela própria realidade Padilha joga para o expectador a decisão, e o faz por meio de um filme dinâmico e bem resolvido tecnicamente, que lida bem com imagens de arquivo e entrevistas e assim constrói sua narrativa.

DVDTECA4.jpg

Como conclusão gostaria de deixar claro que a intenção dessas sugestões não é fazer da escola uma formadora de cinéfilos ou críticos de cinema mas sim que ela seja capaz, a partir do uso dos filmes, de contribuir mais eficazmente na formação cidadã de nossos jovens. E isso pode e deve ser feito a partir do contato com nossa cultura, com nossos artistas, com nossos filmes, pois são eles que falam a nossa língua e exibem o nosso rosto na tela. Se esse rosto não é o mais belo e o mais interessante de se ver, se não é glamuroso como talvez gostaríamos que fosse isso passa necessariamente pelos problemas que enfrentamos e que a escola pode ser um caminho para solucioná-los.


version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Carlos Henrique dos Santos