Carlos Henrique dos Santos

Cinema e Educação: caminhos possíveis

Como formar uma dvdteca escolar com filmes nacionais? Essa é a nossa discussão e a fazemos a partir da sugestão de quatro títulos. Como primeiro deles temos "Terra em Transe" (Glauber Rocha, 1967), marco do movimento do Cinema Novo brasileiro e da filmografia do cineasta Glauber Rocha.


A partir de uma provocação feita a mim enquanto estudante de licenciatura em cinema (“Que dvds disponibilizar em uma dvdteca escolar para formar um público para o cinema brasileiro?) elaborei uma lista em que procuro justificar o porquê da inserção de cada um dos quatro filmes. A lista de filmes que, penso, comporia uma boa e útil dvdteca escolar se fundamenta na ideia de que tanto a escola quanto o cinema devem exercer um papel social, isto é, devem ter uma atuação relevante na sociedade na qual se inserem. A partir desse pressuposto é que procuro formar e fundamentar uma relação com base na força e importância sócio-cultural que os longas-metragens escolhidos exerceram na época de seus lançamentos e continuam a exercer até hoje. São filmes distantes no tempo mas próximos nas preocupações e indagações, nas contestações e propostas de se pensar a sociedade brasileira como um todo, partindo desse raciocínio de problemas vigentes e constantes no país. Escolhi longas de ficção e documentários mas não houve nenhum pensamento prévio sobre isso, o que moveu as escolhas foi mesmo a atuação desses filmes, a sua importância na reflexão sobre os males que atingem o Brasil, males esses que eram diferentes na década de 60 (quando Terra em Transe e Vidas Secas foram lançados) e na contemporaneidade de Notícias de Um Guerra Particular e Ônibus 174. Optei por comentá-los individualmente (e também um a um irei publicar os comentários) mas por partir de um pensamento comum, no que diz respeito ao porquê das escolhas, acredito que todos podem ser discutidos, também, à luz de uma mesma proposta, que é a sua qualidade cinematográfica e sua importância social, o que justifica a inserção numa lista de dvds a serem utilizados com objetivos didáticos e culturais.

O primeiro da lista é Terra em Transe (Glauber Rocha, Brasil, 1967).

download.jpg (Cartaz do dvd do filme) Longa fundamental na compreensão da proposta cinematográfica de Glauber Rocha, Terra em Transe é um filme vivo, forte, denso, inteligente e sarcástico. Trata da relação do intelectual na política brasileira além de discutir os caminhos dessa mesma política. A apresentação de Porfírio Diaz, personagem interpretado por Paulo Autran, é magistral e extremamente atual, além de nos ajudar a pensar como eram e são os que ocupam os cargos políticos em nosso país, nada muito distante de figuras que até hoje transitam por Brasília. Esse fator, que faz do filme uma obra pulsante de vida e atualidade crítica, é um dos motivos que me levou a escolhê-lo como representativo de um momento importante da cinematografia brasileira, o Cinema Novo, que por si só deve ser mostrado aos estudantes, chamando a atenção para sua representatividade, com prêmios constantes e diversos em festivais espalhados pelo mundo, por sua força criativa, que influenciou gerações de cineastas, por suas propostas estéticas vanguardistas, que junto dos outros cinemas novos do mundo marcaram época com inventividade da linguagem e fortes críticas ao padrão hollywoodiano de produzir filmes, além de proporem, como Terra em Transe, reflexões sobre a sociedade e seus problemas. Esses fatores fazem com que o movimento deva ser conhecido, pensado e discutido nas salas de aula, pois ele é um marco na nossa cultura, como o são os movimentos literários presentes no currículo escolar, conhecer o Cinema Novo é entender um pouco da história do cinema brasileiro e saber valorizar sua riqueza. Filme político e poético, Terra em Transe traz belas atuações, imagens lindamente fotografadas, crítica social e uma linguagem rápida e dinâmica, o que contribui para sua exibição nas escolas hoje. Marco do cinema político, em que se discute a realidade brasileira sem meios tons, a obra tem uma construção narrativa rica, que pode muito bem ser explorada em sala de aula, falar sobre sua montagem não linear, sobre o uso da poesia de Paulo Martins, sobre o posicionamento político dos intelectuais brasileiros sempre tão envolvidos na vida política, todos são fatores que justificam a inserção do longa na lista de uma dvdteca escolar. A riqueza da linguagem que Glauber utiliza no filme também é um fator estético que nos agrada, mescla de ficção e documentário, como no momento (já citado) em que se narra a ascensão política de Porfírio Diaz o filme leva a pensar nas barreiras que separam essas mesmas linguagens e em como ambas podem conviver em harmonia. A iluminação, a câmera na mão, a quebra do distanciamento com o espectador, como na cena em que Paulo Martins olha a câmera enquanto tampa com as mãos a boca de um personagem que representa o povo e que falava aos outros e indaga: "Já imaginaram o povo no poder?". É um momentos emblemático do caráter combativo e crítico do Cinema Novo e merece ser discutido e pensado: cinema é política? Cinema é diversão ou pode também ser reflexão? Como os filmes, a indústria cultural como um todo, pode (deve?) lidar com questões políticas e sociais? Qual o papel da arte na sociedade? Mais: qual o papel da arte nas sociedades pobres e desiguais? Estas e outras questões estéticas e políticas são marcantes na construção de uma arte que possa ser vista como transformadora e por isso deve ser tema escolar, deve estar na ordem do dia das discussões feitas em sala de aula. A escola deve fazer valer seu papel social de transformadora, de contestadora, de construtora de uma sociedade mais justa e o uso de filmes que ajudem a motivar essas discussões são mais do que bem vindos ao ambiente escolar.


version 1/s/cinema// //Carlos Henrique dos Santos