Carlos Henrique dos Santos

dos livros que perdemos pelo caminho

Dos livros que emprestamos e não nos devolvem e a sensação de perda que fica a partir disso.


imagemdeleituralivrosvoador.jpg

A lista é longa, indo desde clássicos como Guimarães Rosa, com Sagarana (que sequer lembro a quem emprestei), até autores desconhecidos como Fabiano Figueira e seu muito bom Romance, passa por Chico Buarque e Budapeste e chega em Amilcar Bettega Barbosa e seus três ótimos livros de contos: O Voo da Trapezista, Deixe o Quarto Como Está e Os Lados do Círculo, sem contar Bernardo Carvalho, Homero, Ruben Fonseca, Kafka, Tolstói, Dante (dois exemplares diferentes d' A Divina Comédia, versões em verso e em prosa). Tem ainda os mais queridos, aqueles aos quais dedicamos um carinho extra, como Cortázar e Garcia Márquez, do primeiro não me devolveram Final de Jogo (por sorte relançado recentemente e pude repô-lo) quanto do segundo levaram para sempre meus Cem Anos de Solidão. Falo de perdas sentidas principalmente pela qualidade literária mas tem ainda as outras, como a emotiva, que nos marca mais pelo que envolve o livro do que o livro propriamente dito.

Me dói mais a des-importância que dão aos livros do que a não devolução. Queria mais consciência, mais respeito. Se agem assim com um objeto tão importante e rico como um livro o que não fazem com outros? E se desrespeitam assim dono e obra é porque não veem em ambos valor ou qualidades que os faça merecedores de respeito. Um livro é algo único, por mais exemplares dele que tenham sido lançados o meu livro não é o seu nem o dele muito menos o de qualquer outro, cada livro é único para seu dono, pois o marca enquanto leitor, podendo muitas vezes ter sido lido enquanto esperávamos por alguém importante e que nos faria feliz com sua presença aguardada, ou ainda aquele que foi lido durante a convalescença de um ente querido, como li o sugestivo Dor Fantasma, de um autor holandês que não conhecia, Arnon Grunberg, enquanto você estava em coma e eu sofria dia a dia com um sentimento de vazio e solidão somados a uma sensação forte de perda, pois para mim, em muitos momentos, você não sairia do coma e eu ficaria sozinho, só e com minha dor, com sua ausência e seu silêncio.

Assim como se diz que os clássicos se renovam sempre, o livro em si, independente de critérios de valor, será sempre um clássico para seu dono apaixonado. E não falo apenas dos bibliófilos não, me refiro a todos que gostem do livro-objeto, que sintam prazer em segurar, cheirar, folhear, ouvir o leve som do toque entre as páginas, se embebedar com o aroma, de novo, usado ou mesmo velho, daqueles que nos fazem espirrar e pensar, caramba, quanto tempo em uso, quanta leitura já feita, a quantos já serviu...

O livro é lindo e único para quem o respeita, admira e ama mas os que se apropriam de livros emprestados e não os devolvem desconsideram tudo isso, fazem valer sua vontade, sua preguiça, seu descaso e descompromisso com obra e dono e se esquecem que aquele objeto que para eles pouco ou nada representa tem, para seus donos, um valor muito grande. Por isso costumo sofrer e me indignar com os livros que não me devolveram e lembro-os sempre com carinho e ternura, talvez até mais do que mereçam. Já aos que ficam com os livros que me pertenceram um dia costumo não dedicar os mesmos sentimentos bons, para com eles minha indiferença se manifesta em sorrisos insinceros e palavras de pouco valor.


version 2/s/recortes// //Carlos Henrique dos Santos