Carlos Henrique dos Santos

Estrangeiros pela própria natureza ou de como um filho teu foge à luta

Apreciação do filme Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas.


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Rodado em 1996, no que posteriormente seria denominado de Retomada do Cinema Brasileiro, Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, Brasil, 1996) dialoga muito bem com seu período de produção, inclusive com a derrocada da economia e do próprio cinema nacional, ao mostrar um país inseguro, sem muitas esperanças e com os sonhos soterrados. Ao contar a história de Paco, que vai para Portugal como traficante de jóias após a morte de sua mãe, o longa mostra a falta de perspectiva que toma conta dos jovens brasileiros.

Paco sonhava ser ator, não liga para frequentar a faculdade e aos 21 anos ainda busca uma identidade mais madura e consistente. Sua mãe morre junto com a economia brasileira, literalmente é o calote aplicado pelo governo de Fernando Collor de Melo que a leva à morte. Metáfora para a crise econômica brasileira, sua morte é uma representação das esperanças perdidas, dos sonhos destruídos (ela sonhava em retornar a sua cidade natal, San Sebastia, na Espanha), sonho que não agradava seu filho mas que acaba sendo herdado por ele. Desiludido, perdido, sem uma referência familiar e sem dinheiro Paco se vê só no mundo e decide viajar para San Sebastian, o futuro do filho indo ao encontro do passado da mãe.

Sua viagem passa antes por Portugal, lugar para onde ele deve levar como contrabando algumas pedras preciosas. O desenraizamento de Paco é notório, seu descompromisso com o país em crise, com os sonhos de ser ator, tudo fica para trás enquanto ele parte em busca de si mesmo, querendo descobrir algo que nem ele sabe o que é. É dentro do contexto denominado de Globalização que Paco está. No livreto de uma mostra sobre Cinema e Globalização o professor Hernani Heffner define o mundo globalizado como "(...) a formação de uma rede planetária de trocas econômicas e simbólicas facilitadas pela internacionalização dos fluxos financeiros (...) e por um suposto enfraquecimento do Estado-Nação como agente hegemônico junto à sociedade, quer em escala local, quer em escala mundial." (Heffner, 2014, 38).

Ideia semelhante é expressa por Leonardo Betemps Kontz ao resenhar o livro Globalização: As consequências humanas, de Zigmunt Bauman, segundo Leonardo: "Devido a isso, Bauman diz que o Estado vem sofrendo um definhamento, ou seja, existe uma forte tendência à eliminação do Estado-Nação. Esta circunstância leva ao que o autor chama de nova desordem mundia." Fica claro assim como o Estado outrora tido como central na vida das pessoas hoje nada mais é que um ente em crise, perdido assim como as pessoas que dependem dele.

Dentro dessa lógica de crise emerge também uma nova maneira de ver e pensar o cinema, maneira essa que para alguns se traduz como um "World Cinema", um cinema sem centro, sem bordas, apenas um cinema do mundo, sem Hollywood para servir de padrão e parâmetro: "Não tem começo nem fim, sendo um processo. World cinema, como o próprio mundo, é circulação." (Lúcia Nagib, 2014, 25).

Terra estrangeira representa bem esse ideal: feito por uma equipe de brasileiros, com locações em Portugal e Espanha, por uma cineasta que futuramente iria assumir ainda mais essa postura de transnacional, fazendo filmes em Hollywood (Água Negra, 2005) e produções que podem ser tidas como mundias, como Diários de Motocicleta (2004). Podemos dizer que Terra Estrangeira Trabalha tanto o nacional (ao falar de problemas brasileiros, como a crise da economia mas também de questões mais amplas, que fogem do meramente nacional, como o tráfico internacional e o desajuste dos "exilados".

Alex, a outra personagem principal, não se acha. Paco viverá o mesmo dilema e ambos vivem uma constante busca de si mesmos. Ela chega a afirmar que não é ninguém; isto pode ser visto claramente quando vende seu próprio passaporte, o que lhe daria condição de voltar ao Brasil, o que a define e lhe dá uma identidade no exterior, a coloca como uma turista em Portugal, faz dela, digamos, uma brasileira, é vendido, a identidade se perde, ela se perde, não é ninguém pois não tem raízes, não tem sonhos, planos, futuro. Tudo está aberto para ela, tudo está solto, sem amarras e sem um rosto que o defina.

Um ponto que chama a atenção no filme é a presença constante do mar. Ele nos remete, por estarem os personagens em Portugal, a todo o ideal das grandes navegações, das buscas por novos mundos, da época em que o Estado-Nação era forte e representava o sonho de uma grande parcela do povo. Portugal tem forte relação com o mar e também com o Brasil, foi o mar que os trouxe aqui, que nos uniu e é o mesmo mar que está presente na vida de Paco e Alex. É belíssimo o plano do navio encalhado na praia, Paco e Alex o olham, alguém brinca que parece uma baleia encalhada, encalhada como os dois, poderíamos dizer.

Esteticamente o longa-metragem é muito bem elaborado. Filmado em preto e branco, com fotografia do renomado e excelente Walter Carvalho, o filme tem um visual cru, a falta de cores associada ao tom cinza que prevalece deixa uma sensação de vazio, de falta de alegria (não é a ausência de cores que o faz triste mas o modo como o P&B é usado, temos um filme muito cinza, muito seco de texturas). As imagens externas não brilham mas tem uma força e beleza que impressionam. Nas cenas noturnas o preto prevalece e apenas os personagens aparecem, em alguns momentos, destacados.

A direção é segura por parte de Salles e Daniela Thomas, que contam com excelentes interpretações dos atores. Um exemplo dessas boas atuações está logo na abertura, numa imagem que também chama a atenção: temos o Minhocão, viaduto de São Paulo, vazio e Paco a "declamar" um texto na janela. Descobrimos depois que é Fausto, do poeta alemão Goethe. Quem é o Diabo para Paco? Qual seu dilema? Segundo Eloá Heise, em texto para a revista Cult, Fausto: "(...)adquire também significado universal por materializar o mito do homem moderno, o homem que busca dar significado a sua vida, que precisa tocar o eterno e compreender o misterioso. Sob este aspecto, o mito faustico transforma-se em um mito vivo, um relato que confere modelo para a conduta humana."

Por isso sua citação, por isso Paco "interpreta" Fausto no restaurante em outro momento, este marca certa virada no filme e desencadeará seu final, sua morte, sua viagem dentro dessa viagem que não se completou. Numa cena final extremamente bela e poética, marcada pela música "Vapor Barato", do grupo O Rappa, que é cantada por Alex num plano diegético (isto é, ele canta dentro do filme, em cena) e por Gal Costa num outro plano extra-diegético (fora, apenas na trilha sonora) somos levados a um final em aberto, no qual o carro dirigido por Alex corre em direção à Espanha, com Paco baleado e prestes a morrer, ela avança pela fronteira, rompe a barreira da guarda e segue sem rumo, em direção ao vazio do futuro.

Alex representa nesse momento o Brasil, imerso numa crise econômica, sem rumo nas mãos de um presidente que em breve seria deposto, e ela foge, continua distante de seu país e de si mesma. Nós a acompanhamos e lembramos de outro final marcante na história do cinema nacional, em Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, Brasil, 1964) em que os personagens Rosa e Manuel correm pelo sertão, em fuga, ela cai e ele segue, então há um corte e vemos o mar. Final esse com o qual o próprio Walter Salles já dialogou em Abril Despedaçado (Brasil, 2001).

Para onde vão esses personagens, o que será deles? Indagações que nos ficam, pois não temos certeza do que será, do que foi e do que pode vir a ser deles. Sobra-nos o vazio e a possibilidade de reflexão que um bom filme proporciona.


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