Carlos Henrique dos Santos

Eu vou rasgar meu coração

Numa simples volta do trabalho para casa uma senhora sentada a meu lado no ônibus comenta algo. Paro minha leitura e iniciamos uma conversa, que gira em torno do marido doente dela e me faz pensar no que aconteceria se ela resolvesse matá-lo. O resultado é o conto que se segue.


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Enquanto caminhava em direção à igreja eu me sentia pesada, culpada, má, uma mulher sem coração e em pecado com Deus, assim eu me via no reflexo projetado por minha própria sombra no chão de terra. Eu não conseguia tirar da cabeça aquele pensamento maligno, perverso, desumano de querer vê-lo morto. Eu tentava encontrar argumentos que pudessem aliviar minha culpa mas era em vão, eu era uma mulher má e sabia disso, pior, eu sentia isso a pulsar com força dentro de mim. Desde quando ele sofreu o derrame que eu me dedicava dia a dia a cuidar dele, mal saía de casa, era o tempo todo ali a dar banho, alimentar, cortar as unhas, levar ao banheiro, limpá-lo, trocar sua roupa, pentear seu cabelo. Ele mal se mexia nos primeiros dias e fazia questão de não falar nada, um quase mudo a me observar com olhares silenciosos e dolorosos, eu sentia a dor exalar de seus olhos, era quase como o seu próprio cheiro após se sujar de urina ou fezes, que ia pouco a pouco tomando conta da casa e, mesmo sem ele dizer, eu sabia, eu sentia e lá ia eu limpá-lo outra vez, e outra e outra e outra numa eterna repetição que durava já seis meses, e o tempo todo eu sentia seus olhos postos fixamente sobre mim, eles diziam tudo que sua boca silenciava. O cheiro da sua raiva, do seu ódio acumulado silenciosamente nesses meses após o derrame saía por seus olhos, percorria os cômodos da casa e chegava a mim, então eu me virava e lá estava ele, fixo, olhos vazios mas intensamente fortes a dizer: morte! Era tudo que eu lia em suas retinas mudas, em sua face cada vez mais ressequida, em seu silêncio obstinado e perverso, atroz. Apenas quando recebíamos visitas, e eram poucas e cada vez mais escassas, ele balbuciava algo, como se quisesse mostrar que não estava morto, ainda, e que havia sim a possibilidade de cura, que ele era forte e estava tentando. Isso me diziam os parentes, amigos e conhecidos que vinham até nossa casa para vê-lo, após se despedirem dele e enquanto caminhavam comigo até o portão mas apenas eu sabia o quanto ele estava sendo falso e o quanto, na verdade, ele queria a morte e a pedia a mim insistentemente em seu silêncio.

E eu acreditava no que seus olhares diziam, tanto que também eu passei a querer ele morto, o queria livre daquela dor, daquela prostração, daquele vazio a envolver toda sua lembrança de uma vida que ficara para trás, uma vida repleta de movimento, dos seus jogos de bola aos sábados pela manhã, da sua incessante mania de fazer obras, com seus muitos, e em geral desnecessários, reparos na casa, estava sempre à procura de uma limpeza na fossa, uma troca de telha na garagem, uma nova mão de tinta na parede do banheiro, suas horas e seus parcos recursos da aposentadoria serviam para ele se manter ativo, vivo, intenso como gostava de dizer mesmo após trinta anos dirigindo ônibus e sofrendo com o trânsito caótico, que o faziam chegar em casa mal humorado mas sempre disposto a me dar um sorriso, a me dizer que estava cansado mas também a perguntar o que seria da vida se ficássemos apenas parados esperando a morte chegar, não é? E era justamente como ele se via agora, parado à espera da morte e era a mim que ele pedia essa morte, era para mim que seus olhos gritavam dia a dia que o matasse logo de vez e foi o que eu resolvi fazer.

O silêncio da sacristia me deixou mais calma, senti como se um peso fosse aos poucos retirado de minhas costas e meus passos se tornaram mais firmes, seguros. Me benzi e caminhei em direção ao confessionário disposta a contar todas as ideias perversas que me acompanhavam nos últimos dias, queria uma confissão completa e que me aliviasse da angústia de quer matá-lo, me doía só de ver sua imagem no caixão e eu ao lado, em prantos, um pranto pesado e sufocante, choraria não apenas pela morte dele, pela sua perda mas também e principalmente pelo meu crime, pela minha perversidade em matá-lo, em tirar a vida dele, pela minha crueldade. Por mais que essa vida já parecesse cada dia mais longe, distante como seus olhares fixos em mim mas vazios de vida. Já sentada eu disse ao padre que havia pecado, que estava em pecado constante nos últimos dias com pesamentos cruéis. Ao ser indagada sobre quais eram esses pensamentos me senti tonta, minha vista escureceu e não consegui pronunciar uma palavra sequer. Notando minha indisposição física o padre pediu que me acalmasse e que lhe contasse calmamente que ideias eram essas e o que as motivavam. Ainda me recuperando da tontura eu disse a ele tudo, falei do derrame, da minha dedicação e do meu empenho, da abdicação de tudo em prol dele e também de como ele reagia, do seu vazio, da sua aparente falta de vontade de viver, com sua recusa em falar comigo, em fazer fisioterapia, é como se ele não quisesse mais padre, como se a vida já tivesse acabado pra ele e o que ele faz agora é apenas esperar o fim chegar.

E sinto como se ele me pedisse isso com seus olhares fixos em mim, ele me olha, padre, de um jeito estranho, tenho tido pesadelos com o olhar dele, com ele pedindo que eu o mate, é isso que vejo em seus olhos, padre, um pedido, uma súplica agonizante de que o mate, eu não acho isso certo, padre, não quero perdê-lo, não o quero morto mas nos últimos dias começou a me dar uma coisa forte e estranha aqui dentro ó, padre, bem aqui no peito e que me sobe pela garganta e então trava, trava e me sufoca, me deixa sem ar, padre, me enerva e angustia, padre, o que que eu faço? Me ajuda, pelo amor de Deus, padre, me ajuda!!

Eu sabia que era uma ideia louca mas não aguentava ficar parada como ele à espera de que a morte chegasse, fosse como fosse eu precisava fazer alguma coisa urgentemente, seis meses vendo a pessoa que eu amava definhando aos poucos, se desmanchando feito farelo de pão na nossa mão, casquinha por casquinha, fragilmente a se desfazer por entre os dedos. Não, eu gritava em meu interior e então tive uma ideia, louca mas uma ideia, uma possibilidade, uma chance de fazer a mim e a ele respirarmos, tentarmos, buscarmos um retorno à superfície da vida, já que estávamos como dois afogados a morrer abraçados, imersos em tanta dor, porque eu também sofria, eu sofria muito e por não querer mais tanta dor foi que decidi tentar algo que me desse um leve sinal, por menor que fosse, de que ele ainda estava ali, que habitava aquele corpo, que ali havia ainda um homem e não apenas um corpo vazio, meu homem, meu marido, meu amor e não apenas um par de olhos fixos em mim completamente secos de vida. Após a janta eu o arrumei e o deixei na cadeira na sala em frente à tv para que eu pudesse arrumar a cozinha. Fiz tudo calmamente e fui tomar banho, antes passei pela sala, desliguei a televisão e coloquei uma música, baixinha, para não incomodá-lo, pois eu sabia que ele não gostava de barulho. No banheiro me despi e fiquei parada a me fitar no espelho grande, ainda estava bem, meus seios até que estavam firmes para uma mulher de 48 anos. Não ter tido filhos pode ter contribuído, eu pensei.

Apalpei minha barriga, minhas pernas, olhei minha bunda para ver como estavam as marcas de estria e celulite e não achei que estivesse mal, me depilei um pouco, como sabia que ele gostava, e imaginei que seria sim possível despertar nele algum desejo, por mínimo e mais insignificante que fosse, não precisava ser um desejo sexual, sabia que esse era praticamente impossível mas um desejo de vida, de se manter vivo, pelo menos queria ver seus olhos mudarem, acender algo nele, mesmo que uma lembrança remota de quando a gente transava duas, quatro, até cinco vezes no mês no início do casamento. Sabia que ele não ia levantar curado, me agarrar e entrar com seu pau duro dentro de mim, claro que não mas ele estava vivo e eu queria enxergar o menor sinal dessa vida em seus olhos, se não seria mesmo obrigada a fazer o que tanto me assustava ter de fazer. Tomei banho, me perfumei toda e fui completamente nua pra sala, apaguei as luzes e ficamos iluminados apenas pelos resquícios de luz do poste da rua que entravam pela janela.

Parei bem a sua frente e olhei em seus olhos, me aproximei, peguei sua mão e a deslizei por meu corpo, primeiro meu rosto, meu pescoço, meus seios, a detive ali por um tempo, massageei meus seios com sua mão, sussurrei algo que nem eu mesma sei o que foi e desci a mão por minha barriga até encontrar meu sexo, você não esboçava reação nenhuma, apenas me deixava guiá-lo feio um cego, pacífico, calmo e acostumado à escuridão da vida mas eu não desisti, segurei seu indicador e com ele alisei minha vagina por um tempo e em seguida a penetrei, senti um espasmo de prazer, um frêmito percorreu meu corpo, fazia tempo não era tocada por você, mesmo antes do derrame, estava já molhada de desejo quando fechei os olhos e te imaginei de pé a apertar minha bunda, a beijar minha orelha e a dizer quero você, então me encostava na parede de costas pra você e você penetrava em mim com força, entrava e saía dentro de mim deixando-me leve, feliz, mulher, então minhas pernas fraquejaram e percebi que havia tido um orgasmo, abri os olhos e você se mantinha com a mesma cara, com o mesmo olhar vazio que agora parecia mais forte, mais doloroso, mais vazio e ainda feroz, uma raiva diferente refletia nos seus olhos e me assustou, me deixou com medo, senti pena de você pela primeira vez e ódio de mim, ser tão desumana assim. Fui chorando para o quarto decidida a fazer o que você me pedia com o olhar nos últimos meses.

Agora gostaria que minha escrita se assemelhasse a de Dostoiévski e eu fosse capaz de construir todo o mundo da narradora em intensa confrontação consiga mesma e com sua fé em Deus antes e durante o ato de matá-lo. Ao se perguntar se deve ou não matá-lo ela se deixa levar por um impulso e desfere sobre ele os golpes de faca ou lhe faz ingerir à força o veneno para, logo em seguida, cair de joelhos aos pés do corpo e rezar, num frenesi intenso, repleto de alucinações. Assim, nesse misto de reflexão, introspecção e loucura eu queria mergulhá-la e levar junto o leitor. Mas não, essa não é minha forma de escrever e por mais que tente sei que não vou conseguir. Com isso voltemos ao ritmo anterior:

Fiquei dois dias sem mencionar uma palavra, sem dizer nada para ele, ao contrário do que sempre fazia, desde o início, antes mesmo de que os médicos dissessem que isso seria bom, falar com ele, que eu deveria tratá-lo do mesmo jeito que antes, não enganá-lo mas sim fazer com que ele pudesse se sentir bem, vivo, forte, alguém acidentado mas não inútil. Só que os médicos não passavam vinte e quatro horas direto com ele, não era eles que estavam todos os dias aqui, a sofrer com a força esmagadora desse olhar. Com isso para eles era fácil falar, olha, senhora, ele depende muito de você mas a senhora não pode deixar que ele perceba essa impotência momentânea, faça-o se sentir forte, você é o que ele tem de mais firme para se sustentar e por isso não pode desabar para que ele não caia ainda mais, ele está mal, a senhora sabe disso melhor que a gente, e por isso precisa de ajuda. Ah, se eles soubessem como dói numa mulher perder o marido dessa forma, vê-lo ir morrendo aos poucos, se esfarelando, se diluindo feito aquele pozinho de suco quando em contato com a água mas não, eles veem apenas o paciente, o ser humano que está enfermo mas quem vê o homem da sua vida, quem vê um marido, amigo, amante, companheiro de bons e maus momentos é a esposa e sou eu quem sofre. E sofri, sofri demais enquanto enfiava com força em sua boca os comprimidos, um, dois, três, quatro, cinco, pronto, agora a cachaça, um copo cheio, assim, isso, bebe, bebe seu desgraçado, bebe meu amor, bebe, vai, me deixa logo em paz, não é isso que você quer, morrer e me deixar em paz? Então, seu filho da puta, bebe, isso, bom, né? Me dá um gole também, assim, isso, agora seremos dois bêbados, toma, vai, bebe mais, bebe tudo, bebe e vai com deus, meu amor!


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