Carlos Henrique dos Santos

Nossa vida cabe num livro


a-morte-do-pai-para-o-blog.jpg (Capa da edição brasileira)

“Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupa”. (Karl Ove Knausgard)

É comum ouvirmos em bate papos despretensiosos pessoas dizerem que suas vidas dariam filmes ou livros. E talvez todas as vidas possam mesmo possibilitar resultados artísticos, afinal, o que é Ulisses, de James Joyce, senão um dia – na verdade dezoito horas, já que cada um dos 18 capítulos corresponde a uma hora do dia– na vida de um homem comum na Dublin de 1904?

Mais do que apregoar que sua vida daria um livro o escritor dinamarquês Karl Ove Knausgard, nascido em Oslo, em 1968, e considerado o mais importante autor norueguês de sua geração, fez da sua vida não um mas seis livros! Sim, Karl construiu sua mescla de ficção e autobiografia em seis volumes. Destes, três já foram lançados no Brasil (A Morte do Pai - 2013, Um Outro Amor - 2014 e A Ilha da Infância - 2015). Li apenas o primeiro (e estou no início do segundo) e confesso que, em relação ao projeto (ambicioso e pretensioso) pois o autor é jovem, tendo lançado o primeiro volume (em seu país) quando tinha apenas 40 anos, me pareceu muito interessante e instigante, pois fazer da própria vida matéria literária, para quem escreve e não encontra ideias ou situações que considere boas para uma narrativa, é uma opção mais que válida.

No que diz respeito ao livro em sim, é fácil esquecermos que estamos lendo memórias, pois as mesmas são revestidas, digamos, por uma camada literária das boas, tendo o autor muitas qualidades como narrador. Não só por nos envolver naquilo que narra mas também pela maneira como o faz: belas descrições, bons diálogos, uma linguagem poética em alguns momentos, sensível mas também forte em outros, chegando a ser bastante direta e objetiva, com questionamentos e reflexões densas e conflitantes. Muito disso em função da difícil relação do autor e de seu irmão com o próprio pai (o título sobre a morte do pai mostra bem isso). É nesse dilema entre pai e filho que se concentra uma boa parte do livro e das questões que movem o jovem Karl.

Para os que citei no início do texto que pensam sua vida como livro/filme Karl Ove dá uma bela contribuição, pois mostra como nosso cotidiano está repleto de tensões literárias e/ou dramáticas, que nossas vidas são mais talvez do que a gente realmente acredite que sejam. Não que sejamos heróis, deuses no Olimpo de um mundo falso de papel ou película (hoje mais para o digital) mas sim que nossos dilemas humanos, independente de onde estamos, se no calor do Rio ou na fria Noruega, são os mesmos dilemas que encontramos na literatura: o desespero de Gregor Samsa n'A Metamorfose, ao acordar transformado em inseto; os dilemas existenciais e emocionais de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas; a paixão e a ilusão de Emma Bovary (em Madame Bovary) ou Luiza (n'O Primo Basílio); o ciúme louco de Bentinho, em Dom Casmurro; a violência que explode em Rubem Fonseca e seu brutalismo; todos são grandes marcos literários mas pode acontecer com qualquer um de nós viver algo que se aproxime dessas vidas de papel. Arte e vida num jogo de espelhos, a refletir-se continuamente e a nos mostrar o quanto de vida há nos livros e o quando de maravilhoso, instigante, interessante, denso e humano há em nossas vidas, como um verdadeiro caleidoscópio de emoções e sensações.

Sobre Karl Ove: É autor de Ute av Verden [Fora do mundo], que venceu o Prêmio da Crítica na Noruega em 1998, e En Tid for Alt [Tudo tem seu tempo], eleito um dos 25 melhores romances noruegueses de todos os tempos.


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