Carlos Henrique dos Santos

o eu entre o amor e as palavras

pequena declaração de amor.


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penso que o que me liga ao texto, seja enquanto leitor ou como alguém que se arrisca a escrever, é o amor. movido pelo sentimento, pelo desejo, pela paixão, pela entrega é que escrevo-leio. e isso vem desde o meu início enquanto leitor. cheguei aos textos através do sentimento de admiração por meus irmãos mais velhos, tanto ele quanto ela liam e eu, criança a buscar referências na construção da minha identidade, via neles e na leitura um reflexo do que queria ser. amava-os e os imitava no ato de ler, primeiro encontro do amor com as palavras.

em seguida vieram outros amores e outras palavras. após o abandono de um sonho, que era o de me tornar jogador de futebol, novamente as palavras estavam a minha espera, e com elas supri a carência da perda, o sonho foi, se perdeu, morto e enterrado nas sombras de um passado com cheiro de grama recém-cortada mas em seu lugar se iniciou a construção de uma nova base de sustentação do eu, base feita de palavras e no amor por estas.

o tempo continuou a seguir seu trajeto sem volta rumo ao horizonte do amanhã nunca alcançável e eu nele, a me deixar guiar, cada vez mais, pelas palavras. cursei letras, passei a escrever mais do que simples poemas de um jovem apaixonado e me debrucei mais e mais sobre os livros.

e o amor sempre presente, a se refletir em mim através das palavras. naquilo que li e escrevi lá estava ele, alerta, marcando seu lugar, desde as paixões literárias, como cortázar, lido e relido, em novas e velhas edições mas sempre envolvido emocionalmente, texto amoroso e primoroso que me encanta e com o qual não canso de me relacionar, num eterno e repetitivo ato de entrega, feito o amante a se perder por entre os braços-beijos-pernas-ventre-sexo da amada. até o trabalho como docente, em que as palavras me ligam aos alunos, e para os quais quero mostrar que o amor pelas palavras e com elas é algo belo, que vale o envolvimento.

e assim entre amor e palavras te encontrei (cursamos letras juntos e o tempo nos ofereceu uma oportunidade de reencontro anos depois).

nunca te fiz muitos textos como queria e gostaria mas nas palavras que me envolvem você está presente. no que leio e escrevo te sinto (quando lia “dor fantasma” (arnon grunberg, 2005) você estava hospitalizada eu pensava que jamais esqueceria aquela leitura, pois era nela que eu tentava fugir do real de te saber doente e com ela foi que aliviei choros e pensamentos negativos de uma possível perda de ti). nos textos que ultimamente me acompanham no blog é você que tenho como leitora modelo, penso que você irá me ler e com isso estarei, de algum modo, perto de ti.

por isso hoje resolvi te escrever nas linhas do meu desejo:

“sou todo desejo

ardo

meu peito é faca afiada

corta

marca

sangra

meu desejo pulsa

expulsa os medos e me

traz você

nua sobre as nuvens

chove

e me encharco com teu

corpo, teu beijo, teu gozo

gosto

do teu silêncio de gata

felina mulher dos meus

afagos

te amo

como a faca que corta ama

o sangue”

mas não me sinto satisfeito ainda, as palavras me parecem vazias, opacas, turvas e inconsistentes, a ponto de querer inventar uma nova, uma palavra-você que sozinha traduza o que sinto, penso, invento de ti pra mim. no dicionário dos meus amores você será a palavra-base, a palavra-sentimento, a palavra-vida, a palavra-amor, a palavra-palavra escrita na minha carne e nos meus sentidos.


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