Carlos Henrique dos Santos

Onde não há espaço para a saudade

A vida em movimento em O Céu de Suely, de Karin Ainouz.


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Filme que trata de idas e vindas, que mostra o desenraizamento dos personagens (uma jovem de 21 anos, Hermila, nascida no interior do Nordeste, vai para São Paulo e retorna com um filho pequeno mas sem marido, por quem ela espera por um tempo mas depois desiste) O Céu de Suely é um belo retrato da desesperança. Após o retorno da cidade grande Hermila encontra dificuldades de se adaptar e se mostra insatisfeita, por isso pensa em partir novamente e, por estar sem trabalho e sem dinheiro, ela vai vendendo rifa de Uísque até se decidir por rifar a si mesma, isto é, aquele que vencer a rifa da própria Hermila, vendida por 15 reais, ganhará, nas palavras dela mesma, uma noite no paraíso com Suely, nome que adota para a outra na qual “se transforma”.

Lançado em 2006 o longa é dirigido por Karin Ainouz, cineasta da nova geração brasileira e que começou a filmar nos anos 2000, tendo feito o excelente Madame Satã (2002). O Brasil que Karin retrata é um país em crise, não há emprego e a prostituição emerge assim como uma via alternativa de se conseguir dinheiro.

Presença constante no filme, a estrada mostra o trânsito não só de veículos mas também de pessoas: caminhoneiros e motoboys, postos de gasolina e rodoviária, tudo remete ao movimento e, consequentemente, a um não-lugar, a um porto de passagem no qual todos estão e não estão, pois apenas passam, seguem caminho e não criam laços. Segundo o francês Marc Augé, no livro Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade:

“O mundo da globalização econômica e tecnológica é um mundo da passagem e da circulação – tudo tendo como fundo o consumo. Os aeroportos, as cadeias hoteleiras, as autoestradas, os supermercados (…) são não-lugares, na medida em que a sua vocação primeira não é a territorial, não é a de criar identidades singulares (…) mas bem mais de facilitar a circulação(…)" (Augé, 2003,p.84).

É o que parece se dar com Hermila, ela transita mas não se fixa, está nos não-lugares de Augé, como posto de gasolina e estrada, vaga a esmo, sem lugar fixo de chegada. Ponto interessante no filme e que pode servir como demostração de uma quebra de barreiras da globalização e que remete também à ideia de movimento, é a música que se ouve: desde o Forró, música tipicamente nacional e com forte presença em determinadas regiões, como o Nordeste, até a música eletrônica que, ao contrário do Forró, mais enraizado numa cultura específica, toca nas mais diversas partes do mundo, sem raiz, sem identidade definida.

Fotografado pelo excelente Walter Carvalho, O Céu de Suley não constrói nenhum tipo de embelezamento a partir de suas imagens, pelo contrário, por mostrar uma personagem principal sem esperanças o filme possui um tom ameno, de pouca alegria, sem brilho, sem excesso de cores. Mesmo nos momentos animados, com música e Hermila a dançar, ainda assim prevalece a simplicidade, nada de glamour, de pintar a “realidade” com cores alegres. Essa marca de desesperança emergirá com força no final, marcado pelo vazio e a incerteza. Hermila segue em um ônibus partindo do não-lugar constituído pela rodoviária para o Sul do país. Para ela, por ser esta uma região mais desenvolvida (segundo padrões capitalistas) do que a sua, o Sul pode lhe trazer algo de bom, um algo a mais que ela não sabe o que é.

Sua única certeza é a não de conseguir ficar e esta certeza é fruto da sua dificuldade de adaptação, por isso ela transita, pois não possui laços que a prendam a um lugar específico. Mesmo sem um destino definido, mesmo sem qualquer certeza do que o futuro lhe reserva, é melhor ir do que ficar.

Um plano longo e extremamente belo fecha o filme: com a placa que marca o perímetro da cidade com os dizeres “Aqui fica a saudade de Iguatu” o ônibus que a leva parte, sendo seguido por João, um “namorado” que demonstra gostar de Hermila, que se propõe até a comprar todas as rifas para que ele vença e ela não precise transar com outro. Os veículos cruzam a placa, saem de quadro, não há corte, ficamos com o céu azul, a estrada e a placa. Então a moto volta, João retorna, só, sem Hermila, ela seguiu, foi para o Sul, mais uma na estrada a seguir rumo ao desconhecido, ela vai em frente e não se deixa prender e parte rumo ao vazio. A nós, espectadores, fica a indagação: o que será dela? E a certeza de mais um belo filma nacional assistido.


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