Carlos Henrique dos Santos

O Sequestro do Negro na Propaganda da TV Brasileira

O presente texto propõe uma reflexão sobre a exclusão do negro nas propagandas da tv brasileira.


tv-propaganda.jpg

Um amigo me conta que, sentado num bar sofrendo com seu Flamengo, comenta com outro cliente que os negros são uma vítima constante de racismo na sociedade brasileira, tanto que estão excluídos da propaganda televisiva, sendo esta composta, quase que em sua totalidade, por brancos que reproduzem um padrão europeu de aceitação de beleza. O outro cliente do bar o contesta, diz que não, que não é bem assim. Meu amigo responde tudo bem, deixa dar o intervalo que a gente vê. Dito e feito, ao fim do primeiro tempo de jogo entram os anúncios publicitários e sua avalanche de sorrisos brancos e peles brancas a sorrir, sorrir, só rir, iluminados exageradamente, com uma pasteurização da vida e das pessoas extrema e violenta. Meu amigo então se vira a seu companheiro de bar e o indaga: eu não disse?!

Infelizmente, numa sociedade dita democrática, ainda é apenas um o que se impõe: o branco. É ele que manda na sociedade, que impõe seus padrões, seus modelos, que dita as regras do que é bonito e bom, do que deve ser feito, do que deve ser comprado. É o branco com seu sorriso branco que dita a norma padrão e o senso comum em nossa sociedade negra, sim, somos um país de negros, com mais negros que brancos (se é que seja possível estabelecer essa dicotomia, já que somos frutos da miscigenação, da mistura, da troca, da interação, da complementação) e não arianos como certos loucos que marcaram o século XX desejavam ser. Vejam o que diz Oliveiro Toscani, em seu livro A publicidade é um cadáver que nos sorri:

“Procure o leitor encontrar numa propaganda de nossos dias pobres, imigrantes, acidentados, revoltados, ladrões de apartamentos, baixos, inquietos, gordos, barrigudos, entediados, céticos, desempregados, espinhentos, drogados, vítimas de engarrafamento, doentes, países do quarto mundo, loucos, artistas obcecados, excessivos, estridentes, pessoas que sofrem de herpes, provocadores, grandes problemas sociais, uma crise, desastres ecológicos, explosões da juventude e o pânico dos idosos! Foi tudo substituído por Claudia Schiffer, a modelo(…) questão de pessoa. Ela encarna a perfeição da beleza loura, ariana, corada e saudável, recém-depilada, o ideal de beleza juvenil do Norte, da beleza branca europeia, de erotismo frio e bem-educado, ”um sonho da juventude hitlerista!” (TOSCANI, 2000, p. 32,33).

Não há nas propagandas espaço para a verdade. Além de não mostrar a população como ela realmente é, composta de brancos e negros (a maioria), não temos também o direito de nos ver como humanos: nossos vícios e medos, nossos sonhos frustrados e nossas dores, nosso mal humor, nosso cansaço, nossa feiura, nossa tristeza e solidão, nossos dilemas e perdas, tudo que é humano passa ao largo da propaganda. Não à toa os políticos perceberam isso e passaram a contratar marqueteiros para construir suas imagens, para lhes vestir com a máscara hipócrita da promessa de um amanhã melhor.

Como na música do Zeca Baleiro: “Já tenho um filho e um cachorro / me sinto como num comercial, de margarina(...)” a propaganda vende, antes e acima de tudo, uma falsa sensação de felicidade, uma mentira. Mas por mais que seja sabido que as propagandas trabalham com o fictício e com os desejos de consumo (você não compra o carro mas compra sim a ideia de uma estrada livre onde possa acelerar à vontade com uma modelo no banco do carona), muita gente ainda se deixa levar por elas, o que é um problema, já que também se prestam a formar opiniões e mesmo o senso comum de um país.

Segundo Maria Laura Barbosa Chaves em sua Monografia sobre o negro na mídia brasileira: “A publicidade tem uma enorme influência na sociedade como agente modificador de comportamento cultural e de valores, estimulando o consumo e influenciando comportamentos, (...)”. Assim se opera um intrincado jogo de espelhamento: os negros, excluídos desse mundo encantado das propagandas e da TV de um modo geral, representam na TV o seu próprio papel social, isto é, o daquele que está fora, à margem. Sua exclusão social se reflete na sua exclusão da TV. É como se os negros estivessem no que, no cinema, chama-se fora de quadro, o que não se vê no plano filmado mas que se sabe estar ali, do lado de fora, literalmente.

(...) Mas não... permaneço vivo, prossigo a mística Vinte e sete anos contrariando a estatística Seu comercial de Tv não me engana Eu não preciso de status nem fama Seu carro e sua grana já não me seduz (...) (Capítulo 4, versículo 3 - Racionais Mc´s)

p.s. para acessar a monografia citada aqui: http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1951/2/20427316.pdf


version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Carlos Henrique dos Santos