Carlos Henrique dos Santos

Que bom te ler, Rubem!

Impressões de leitura do livro Amálgama, de Rubem Fonseca


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Falar sobre Rubem Fonseca e não cair no lugar comum que a teoria o colocou é tarefa complicada, sendo assim não vou me deter no histórico do autor e não me fundamentarei na ideia de brutalismo cunhada por Alfredo Bosi e que traduz perfeitamente aquilo que está presente no melhor da obra de Fonseca dos anos de 1960 e 70. Dono de um estilo singular e com lugar de destaque nas últimas seis décadas de nossa história literária (é quase impossível não colocar um livro que seja do autor em qualquer lista dos melhores lançados na segunda metade do século XX entre nós, seja no conto, com O Cobrador, seja no romance, com Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos,) fica difícil emitir qualquer juízo de valor sobre sua produção mais recente, já que uma comparação de Fonseca com ele mesmo faz, pelo menos pra mim, o primeiro ganhar disparado.

Mas aqui não quero perder tempo com essa ideia de comparação mas sim falar do presente. Acabo de ler Amálgama ,seu último livro, e me arrisco a dizer sem medo de errar: este não é seu melhor livro, este não é o melhor livro que li nas últimas semanas, assim como está longe de ser o melhor dos lidos este ano. Mas a maior e melhor certeza de todas: Amálgama é um ótimo livro e me ofereceu o melhor do autor em pequenas e intensas doses.

Lançado em 2013 e vencedor do Prêmio Jabuti de 2014, o livro constrói um mundo todo particular, permeado de Josés, anões e anãs, pernetas e manetas, sexo, violência, eruditismo, literatura e referências claras à própria obra do autor (difícil não lembrar de Passeio Noturno ao ler O ciclista) e muito bom humor. Fazia tempo não sorria tanto com um livro de ficção e, o melhor, não um riso forçado ou brancoamarelado mas sim um riso grande, aberto, de prazer mesmo com o que as narrativas curtas do livro proporcionam.

Aos 90 anos Rubem Fonseca mostra-se em plena forma literária, seja por lançar um novo olhar sobre temas caros a ele mesmo, como sexo e violência, seja no ato de inserir curtos poemas ao longa do livro (aqui podemos pensar que essa miscelânea de formas reflete bem o título, pois uma das definições de amálgama no dicionário é justamente miscelânea, mistura, ou, ainda, liga, que também marca presença no livro, já que nomes e personagens, como José e anões, permeiam mais de um conto e nos ajudam a amarrar as histórias, formando assim uma espécie de mosaico do mundo erigido pelo escritor). Essa consciência de estilo, digamos, o faz se renovar mesmo com um pé no passado e no cânone de si mesmo, e nos dá uma outra certeza: eis um autor que nos fará muita falta.


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