Carlos Henrique dos Santos

Realidade educacional em preto e branco

Pequena reflexão sobre a ineficácia de nossas escolas no processo de formação de leitores.


Notícia publicada em meados do mês passado chamou minha atenção (http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=82384), pois a mesma relata que dois livros de colorir da editora Sextante estavam próximos de atingir a marca de um milhão de exemplares vendidos. Nada contra o livro de colorir e seus adeptos, o que me intrigou foi o fato de, num país de não leitores, de mais de cinquenta milhões de analfabetos totais e funcionais segundo dados do Instituto Paulo Montenegro publicados em 2012 (http://www.ipm.org.br/pt-br/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/inaf2011_2012.aspx) justamente um livro sem palavras vender tanto. inaf.jpg (Dados do Inaf)

O problema não é o livro e quem o compra mas sim nossas escolas e suas imensas dificuldades de formar leitores. O cerne da questão é a falta de políticas públicas eficientes para construir e manter uma instituição escolar que atenda às reais necessidades da população. Os números são emblemáticos, todos eles, desde os que mostram os não alfabetizados até a quantidade de livros vendidos, eles servem para nos alertar que a educação está em crise, há tempos, e que nada parece ser feito para mudar isso. Num país cujo lema é “Pátria Educadora” é preciso rever métodos e prioridades se realmente se quiser fazer algo que vise construir uma sociedade melhor, mais justa, menos violenta e menos corrupta. Enquanto os noticiários sofrem uma enxurrada de opiniões sobre maioridade penal, em que se discute se deve-se ou não prender e punir adolescentes criminosos a escola parece nem existir, sendo pouco citada e não aparecendo sequer como uma opção para a diminuição da violência. Pois seria muito mais interessante pensar, refletir e debater se, no lugar de prender um menor infrator, houvesse para ele uma escola decente, que se propusesse a oferecer a ele a oportunidade de se construir enquanto cidadão. Não seria preciso prender se estes menores estivessem na escola. Já no século XIX o escritor francês Victor Hugo dizia que quem abre uma escola fecha uma prisão. Tira_Dona_Isaura_000166_juniao_02_abril_2015_72.jpg (Retirado de: http://www.juniao.com.br/mais-educacao-menos-prisao-dona-isaura-educacao-prisao/)

Penso que enquanto a escola servir, em muitos casos, como depósito de crianças e adolescentes, que vão “estudar” porque não podem ficar em casa sozinhos ou pelo risco da família ser denunciada ao conselho tutelar, que enquanto a mesma escola se mantiver com sua estrutura semelhante a um presídio, no que diz respeito à organização do seu espaço físico, em sua organização hierárquica, com seus sistemas de vigilância e punição (quem quiser é só ler Vigiar e Punir do Michel Foucault para ver como isso se dá na prática), dificilmente as coisas vão mudar e, infelizmente, continuaremos a perder tempo discutindo em vão questões que não são as mais relevantes e que não efetivarão mudanças significativas. Enquanto isso, como dizem desde o ano passado alguns comentaristas esportivos sobre a falência do futebol brasileiro, gol da Alemanha!


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