Carlos Henrique dos Santos

Resposta à pergunta de um leitor

O presente texto é uma resposta ao leitor J., que propôs uma interessante discussão sobre a privatização do Ensino Fundamental e Médio.


escola_privada.jpg (Retirado de: http://blogdotarso.com/2012/03/19/professor-da-usp-critica-a-privatizacao-da-educacao-superior/) A partir de um comentário feito a uma postagem minha (http://obviousmag.org/longe_do_esteril_turbilhao_da_rua/2015/realidade-educacional-em-preto-e-branco.html) resolvi responder com um texto. A pergunta, não dirigida apenas a mim mas a todos que quiserem discutir, foi: Inicio a discussão: como veem a possibilidade de tornar o Ensino Fundamental e Médio pago? Feita por J., um leitor assim identificado. Eu sou completamente contra e cito três motivos para abrir a discussão:

1- fui aluno durante toda minha vida escolar do ensino público (fundamental, médio e superior) e se não houvesse esse direito garantido à população pela constituição e ratificado pela LDB:

TÍTULO III DO DIREITO À EDUCAÇÃO E DO DEVER DE EDUCAR

Art.4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivo mediante a garantia de: 1. ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

2. progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;

3. atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino;

4. atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade;

5. acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; (…) (Fragmento da LDB retirado de: http://www.secon.udesc.br/leis/ldb/ldb3)

Eu não teria escrito o texto que você comentou e não estaria aqui, pois minha família não dispunha de condições para pagar uma escola particular, isto é, você só pode me ler graças ao ensino público;

2- sou professor e trabalho na rede pública, no município de Magé -RJ e já lecionei em escolas particulares de São Gonçalo - RJ e posso dizer, sem medo de errar, que a diferença é mínima entre elas, tanto que já tive aluno que beirava o analfabetismo funcional no 6º ano da rede privada como tenho casos parecidos no 7º da rede pública, ou seja, a suposta qualidade atribuída às escolas particulares não é lá tão verdadeira. Com exceções, claro, de instituições como os colégios São Bento, Santo Inácio, dentre pouquíssimos outros. Mas em contrapartida existem também os colégios federais, como o Colégio Pedro II, em que também lecionei, e no qual se percebe uma considerável melhora. Mas isso passa pela estrutura, pela valorização do profissional, pelo interesse do aluno e a cobrança que o mesmo recebe por cursar a rede federal de ensino e não apenas pelo ensino em si;

3- se pagamos impostos, caríssimos, diga-se de passagem, e vivemos sob a tutela do Estado, é sim dever dele oferecer um ensino público, gratuito e de qualidade a todos;

A partir desses fatos defendo uma revisão da educação mas não uma privatização da mesma. E a revisão aqui envolve todos, pois não apenas o Estado e sua falta de política é o responsável: professores que só reclamam da vida (sala de professores costuma ser um lugar deprimente, com uma enxurrada de reclamações: dos alunos, do salário, do governo) mas que não propõem nada de novo para sua própria prática docente, que sequer sabem o nome do aluno no conselho de classe de final de ano também é um ponto que precisa ser revisto, ou seja, a formação docente deve também ela passar por uma reformulação, pois uma nova escola necessita de um novo professor.

Revisto também deve ser o currículo, pois não dá mais para ficar preso a conteúdos que se mostram sem sentido para os jovens, a maioria imersos no mundo virtual. É preciso se perguntar sobre qual a validade de determinados assuntos, da maneira que são tratados, ainda marcarem presença nos livros didáticos. Não há mais espaço para cuspe e giz apenas, é preciso mais, é necessário mais: mais empenho, mais materiais didáticos e para-didáticos, mais liberdade para se trabalhar sem ficar preso à dicotomia aprovado x reprovado.

Se a escola se quer como um local de aprendizado, como um espaço de construção da cidadania, de afirmação da identidade de seus alunos e de desenvolvimento do saber ela precisa mudar e com ela devem também se transformar todos os envolvidos na educação: dos pais e responsáveis aos diretores, passando pelos docentes e discentes e todo os funcionários da escola é preciso uma renovação, uma mudança. Ou então entraremos na canoa furada da privatização e faremos um retrocesso à época em que apenas alguns poucos tinham o direito à educação e com ela subjugavam todos os outros.

publica-x-privada_editado-1.jpg (Retirado de: http://super-visao.blogspot.com.br/2011/10/escola-publica-x-escola-privada.html


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