Carlos Henrique dos Santos

Retrato de uma saudade

Do que somos hoje a partir do que fomos ontem: reflexões em torno de uma foto.


10292952_zLDnw.jpeg (A reprodução proibida - René Magritte -1937)

Olho o retrato e não me reconheço, pedaços dispersos num ontem inexistente na memória. Onde foi parar esse eu de outrora que não sei quem sou? Assim a me indagar avalio a mim mesmo na foto sobre a mesa: entre dois e três anos, cabelo repartido para o lado (da esquerda para a direita), um conjunto de short e camisa bege, uma barra de Galak na mão direita, apertada, bota de couro e meia. Tenho entre dois e três anos mas não sei quem sou. Meu eu está ainda escondido por trás da nuvem espessa da consciência de existência. Finitude é uma palavra que não conheço e morrer/existir/viver são verbos que não imagino como se conjugam. O que fiz antes da foto? Para onde fui após o retrato ter sido batido? A sombra que marca a foto me dá a certeza da força do sol sobre mim, aparento cansaço e indisposição para estar ali. Mas estou. Estou?

Quem eu era que não sou mais? Como eu era antes de saber como sou? Que gosto teve aquele Galak que segurava com tanta firmeza? Para que essa força desmedida para segurar um pequeno pedaço de chocolate? E se a foto houvesse queimado, o que teria ficado daquele dia? (falo do início dos anos 80, fotos eram quase que artigos de luxo num bairro pobre como o Jardim Catarina – maior bairro de loteamentos da América Latina). Que imagem teria de mim hoje sem ter um eu para olhar no ontem da existência? Tive sonhos ou pesadelos naquela noite? O que senti enquanto comia o Galak? Quais as ideias, os medos, os desejos, os dilemas que me envolviam naquela época? O que eu pensava de mim? Como eu me via a refletir no espelho da razão?

São tantas perguntas sem respostas, tantos eus foram me compondo ao longo do tempo que esse eu que tinha entre dois e três anos e segurava com força uma pequena barra de chocolate é apenas mais um, mais um eu a me compor feito uma canção; a me desenhar, traço a traço com as tintas da vida: azul do céu, vermelho do sangue, verde das plantas no fundo da foto. E assim se forma uma pessoa, rastros espalhados, feito os vestígios de um crime deixados pelo assassino. A morte aqui é mais que figurada, é a morte do que não lembro, do que ficou em mim desse eu mas que não sei onde está, para onde foi. Como nos versos de Cecília Meirelles:

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida a minha face?


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