Carlos Henrique dos Santos

Sempre haverá tempo para o amor

Resenha sobre o filme Three Times, do cineasta taiwanês Hou Hsiao-Hsien.


Não havia assistido nada do cineasta taiwanês Hou Hsiao-Hsien antes de me encantar com Three Times (França/Taiwan, 2005). O longa pode ser visto como um belo exercício de estilo, que encanta por sua beleza e poesia e mostra um cineasta com perfeito domínio da sua função ao contar três histórias em diferentes momentos da vida de Taiwan:

3times_422px.jpg (Cartaz do filme)

Em 1966 se passa “Um Tempo para o Amor”, centrada em um jovem que serve ao exército e passa algumas horas a jogar sinuca em alguns bares (que mais parecem pequenos clubes de bilhar), em um destes ele se encanta por uma jovem e para ela enviará cartas durante o período de serviço militar. Quando está de folga do quartel ele procura por ela no clube de antes e em outros, numa pequena peregrinação, até que finalmente a reencontra. Temos então alguns momentos de extrema e intensa ternura, marcados pela emoção e por certa singeleza que toca fundo no coração. Essa ternura se reflete cinematograficamente nos silêncios, em longos planos e nos sutis movimentos da câmera, assim a história vai pouco a pouco nos envolvendo completamente, até a comovente sequência final, em que o casal, parado frente a uma rodoviária sob o mesmo guarda-chuva, une as mãos após um leve roçar das mesmas. Lindo e singelo, é um momento que vale mais que qualquer declaração arrebatada de amor ou cenas rocambolescas de corrida pelo centro das cidades, tão banal e comum nas comédias românticas.

A segunda história se passa em 1911. Intitulada “Um Tempo para a Liberdade”, ela é completamente diferente da anterior. O foco agora são as visitas de um homem casado a uma cortesã. Eles “dialogam” mas também são envolvidos por muitos momentos de completo silêncio. Este, aqui, adquire uma carga significativa e expressiva ainda maior: nós só temos acessos, digamos, aos diálogos por meio de inter-títulos (como as cartelas dos filmes silenciosos, em que há uma alternância entre os personagens na tela e os textos que representam suas falas). Assim, pontuado por uma música extra-diegética (que não faz parte da cena, isto é, não está no espaço que os personagens estão, sendo ouvida apenas pelo espectador) nós mergulhamos na complexa relação entre os dois, que aparentam gostar da companhia um do outro mas que se mantém separados, oficialmente, por ele ser casado. O que deixa a cortesã numa posição desconfortável, numa espécie de eterna espera. Desconforto este que também chega a quem assiste ao filme, pois esta parte é toda filmada em ambientes fechados e causa uma sensação de aprisionamento, o máximo que vemos do exterior são as luzes a entrar por uma porta ou janela, fora isso ficamos, como os personagens, presos num ambiente fechado e sufocante em alguns momentos.

Na terceira parte somos levados ao ano de 2005. Agora o exterior prevalece e temos diversas cenas externas e com movimentos, como o início e o fim, em que o casal de protagonistas anda de motocicleta pela cidade. O silêncio novamente é personagem e tem papel fundamental no relacionamento entre os dois. Das três narrativas que compõe o filme essa foi a que menos me envolveu. Mas o conjunto do longa é em si muito bem desenvolvido e em todas as histórias temos um casal e um forte envolvimento emotivo. Falar de amor não me parece algo simples, independente da época na qual esse amor se dá (como os três momentos de Three Times ) ou mesmo quando esse falar, através de uma obra artística, se deu. Basta lembrar da complexa relação de Bentinho, em Dom Casmurro, consigo mesmo e com seus sentimentos por Capitu para se ter uma ideia disso.

Dessa forma é que valorizo ainda mais o filme de Hou Hsiao-Hsien por construir uma bela narrativa sobre o amor em momentos de tão pouca valorização das relações humanas. Seu filme é uma espécie de poema filmado, não apenas pelo tema romântico em si (tão presente na poesia) mas ainda e principalmente pelo seu modo de filmar, com leveza, ternura e beleza. Um filmaço!

"E cruzam-se as linhas no fino tear do destino. Tuas mãos nas minhas." "Romance" de Guilherme de Almeida


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