Carlos Henrique dos Santos

Tiro, porrada e bomba

A violência é uma marca da sociedade ao longo do tempo mas sua crescente banalização chama a atenção e é motivo de reflexão nesse texto.


morte-rede-social.jpg (Retirado de http://plugcitarios.com/2015/07/redes-sociais-a-banalizacao-da-morte/)

(...)

— E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?

— Até que não foi morrida, irmão das almas, esta foi morte matada, numa emboscada. (...)

— Este foi morto de bala, irmão das almas, mais garantido é de bala, que mais longe vara.

— E quem foi que o emboscou, irmãos das almas, quem contra ele soltou essa ave-bala?

— Ali é difícil dizer, irmão das almas, sempre há uma bala voando desocupada.

(...) João Cabral de Mello Neto

Acredito que o ser humano seja violento de um modo quase que natural, pelo menos assim sou levado a pensar, já que a História da humanidade (História maiúscula, desde nossas origens) nos traz relatos diversos sobre práticas violentas. Vide um caso famoso, a crucificação (claro que menos dramatizada do que relatada na Bíblia mas ainda assim um ato de extrema crueldade pendurar uma pessoa numa cruz pelos braços - pregos eram raros - e deixá-la morrer asfixiada, já que a musculatura abdominal era sobrecarregada pelo peso) ou ainda a morte na fogueira na Idade Média, em que até mais de um condenado era queimado ao mesmo tempo.

Esses fatos ajudam a confirmar certa tendência violenta no homem mas ao ser chamado por um aluno de 12 anos em uma segunda pela manhã, em sala de aula, para olhar em seu celular o vídeo de um homem caído levando um tiro de fuzil na cabeça e tendo a face completamente destruída, e em seguida ainda levar mais alguns tiros no buraco que tomou o lugar de seu rosto eu ainda me surpreendo e me indago: o que houve? o que somos? o que fizemos de nós? por que a violência é e foi tão banalizada? As palavras da música de Valesca parecem refletir bem nosso atual estado de desumanidade nessa sociedade de relações líquidas, é tiro, porrada e bomba e nada de amor, de respeito, de afeto, de cumplicidade, de consternação perante a morte alheia, perante a desintegração do outro, o fim da vida parece algo normal, banal e corriqueiro.

Tão banal que as pessoas não se incomodam de praticá-lo, como casos recentes de linchamento tem mostrado, basta lembrar o bárbaro crime do ano passado, no Guarujá, em que Fabiane Maria d Jesus, de 33 anos, foi espancada até a morte por SUSPEITAREM de que ela fosse uma sequestradora e que praticasse magia negra com crianças. Era apenas uma suspeita, fruto de uma foto vista nas redes sociais mas apenas isso, A SUSPEITA, foi suficiente para que um grupo de homens e mulheres de diversas idades não exitassem em bater em Fabiane até levá-la à morte, até tirar uma vida, destruir um corpo como quem amassa uma lata de refrigerante e a joga pela janela do ônibus, com uma completa ignorância da sua atitude. Semana passa ocorreu outro caso, agora no Maranhão e que também teve repercussão na grande mídia, Cleidenilson Pereira Silva foi amarrado a um poste e espancado até a morte por um grupo de pessoas em São Luís - MA. Segundo matéria da página da Revista Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-linchamento-como-sintoma-2154.html) só no primeiro semestre do ano passado foram 50 casos de linchamento no Brasil.

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

E tem mais, dados coletados pelo http://www.mapadaviolencia.org.br/index.php mostram que as mortes por arma de fogo no país saltaram de 8.710 em 1980 para absurdos 42.416 em 2012. Está mais do que claro que algo precisa ser feito mas é também bastante claro que isso é extremamente difícil, já que a violência (por mais que eu acredite que esteja de algum modo no próprio ser humano) é também fruto de múltiplos e complexos fatores, que vão da desigualdade extrema em nosso país, com seus altos índices de miséria, até as leis que servem apenas para os pobres e a falência da escola em seu atual formato. Não tenho receita e não sei também o que fazer mas me dói bastante enquanto pessoa ver/ouvir/ler sobre tais atrocidades em nossa sociedade, assim como dói saber que para alguns jovens a morte violenta tem se mostrado como algo natural , com o qual eles parecem lidar de um modo descompromissado, sem incomodo, sem dor ou qualquer outro sentimento, já que o outro que morreu não parece lhes dizer nada, não significa nada para ele mas apenas mais um vídeo a ser compartilhado no Whatsapp.


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