Carlos Henrique dos Santos

Lavoura Arcaica: livro e filme

Leitura comparativa do livro e do filme Lavoura Arcaica.


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O LIVRO

Escrito por Raduan Nassar e lançado em 1975 Lavoura Arcaica já de início despertou a atenção da crítica tendo ficado em 2º lugar no prêmio Walmap no ano de lançamento, em 1976 recebe da Academia Brasileira de Letras o prêmio Coelho Neto e também o Jabuti como autor revelação. Além disso o livro é traduzido para o espanhol, alemão e francês. É possível assim perceber como a obra repercutiu, chamando a atenção da crítica especializada. Um ponto que merece ser citado é a trajetória curta de Raduan enquanto escritor, pois ele lançou apenas mais dois livros após Lavoura, a novela – também adaptada para o cinema – Um Copo de Cólera (1978) e a coletânea de contos Menina a caminho e outros textos (1997).

A história do jovem André e sua relação familiar intensa (marcada pelo sentimento de amor e o desejo que nutre pela irmã e pela forte tensão com o pai) é narrada em primeira pessoa pelo próprio André, num misto de lembrança e desabafo (boa parte da trama se dá no quarto de uma pensão em que o jovem se refugiou e de onde é levado para casa pelo irmão mais velho, Pedro: “(…) eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta (...)” (Nassar, 2004, 09/10). Nesse espaço o narrador relembra diversas passagens de sua vida, seja na infância ou já na vida adulta: “Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá no bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família (…)” (Nassar, 2004, 13).

Essas lembranças chegam aos leitores por meio de intensos fluxos de consciência, numa linguagem poética e subjetiva, composta conotativamente e permeada de figuras de linguagens, como as metáforas em “devaneios cinzentos”, “valia por um livro de histórias” e “o fruto que crescia na garganta”: (…) e ouvindo meu irmão dizer de repente recolhido “a mãe envelheceu muito”, eu continuei pensando nela noutra direção e pude vê-la sentada na cadeira de balanço, absolutamente só e perdida nos seus devaneios cinzentos, destecendo desde cedo a renda trabalhada a vida inteira em torno do amor e da união da família, e vendo o pente de cabeça em sua majestosa simplicidade no apanhado do seu coque eu senti num momento que ela valia por um livro de história, e senti também, pensando nela, que estava por romper-se o fruto que me crescia na garganta, e não era um fruto qualquer, era um figo pingando em grossas gotas de mel (…) (Nassar, 2004, 38/39)

Há dois níveis na narrativa, o do presente da própria narrativa e o da recordação, no qual temos acesso aos conflitos do narrador. E o próprio livro é dividido em duas partes: Partida e Retorno, cabendo ao primeiro 21 capítulos e 9 ao segundo, totalizando 30. É possível pensar o livro numa linha alegórica, já que seu contexto de produção nos aponta um momento de fortes tensões políticas e o pai e seu poder concentrado pode ser visto como uma alegoria para o Governo Militar. Assim como as reivindicações de André por liberdade e amor podem também indicar a crítica ao silenciamento promovido pela censura. Mais do que isso o que valoriza a obra é sua construção, sua linguagem, seu modo de se organizar.

O FILME

Lançado em 2001 o longa-metragem Lavoura Arcaica é uma obra escrita, dirigida e montada por Luis Fernando Carvalho, mais conhecido por dirigir novelas e tendo estreado na direção com a obra em questão e não tendo dirigido mais nenhum filme até o presente momento. Num primeiro olhar, de caráter comparativo, filme e livro estabelecem um diálogo bastante interessante, com ambos buscando se expressar por uma linguagem subjetiva, de traços mais poéticos, o que fará com que a construção narrativa de ambos siga por um caminho não tradicional, já que livro e filme optam por não adotar um estilo narrativo e sim muito mais contemplativo.

Comprova o que dissemos acima a cena de abertura do filme: a princípio temos uma imagem que não se distingue bem, a câmera passeia até nos mostrar André, primeiro seu rosto, depois vemos que ele está deitado e se masturba. Na parte sonora o silêncio vai, aos poucos, dando lugar ao som de uma locomotiva que apita e parece mais próxima, os movimentos e o som parecem sincronizados e quando o trem parece passar por nós, com seu som mais elevado, André atinge o orgasmos.

Já nesse início temos também um jogo de claro x escuro que perpassará toda a obra, nos remetendo ao estilo Barroco, no qual os contrastes são um elemento presente, seja nas antíteses, no plano da linguagem; ou no jogo de luz e sombras, marcante em pinturas do período. Aqui os contrastes se dão tanto no plano da iluminação (em diversas passagens há o claro x escuro) e nas cenas das lembranças, em flashbach, que são bastante marcadas por uma luz bem forte, com todos os elementos bem mais claros, quanto no plano das sensações, pois podemos dizer que o passado mais claro seria um momento mais idílico, utópico até para André.

Ao contrário do presente, em que a oposição luz e sombras é uma constante e há diversos momentos escuros, o que nos sugere o estado psicológico do personagem-narrador, já que ele parece delirar em certas passagens e uma marca visual desse delírio se refletiria na iluminação, nas imagens que compõem essa parte da narrativa. Livro e filme tem na voz de André seu fio condutor e este é um elemento que ajuda a relacionar bem as duas obras, pois este escolha por parte do diretor do longa contribui tanto para uma aproximação entre seu trabalho e o texto-fonte como também para nós, espectadores, pois a voz de André a narrar nos mergulha em seu universo, em seu mundo de intensas contestações e de um amor quase louco, que beira um estado doentio em certas passagens, principalmente quando ele se dirige à Ana após transarem, enquanto ela reza. Ali ele verbaliza toda sua angústia e fome de vida num monólogo de fortes tons dramáticos.

Devido às marcas poéticas que o livro traz, ancorado numa linguagem de forte carga conotativa pode-se até mesmo comparar André a um eu lírico, que exprime estados d'alma, de modo subjetivo e pautado numa linguagem carregada de significados, a partir do uso das figuras de linguagens, como apontado antes. Nas palavras do próprio Luis Fernando Carvalho: “A câmera, portanto, seria uma caneta ou um olho. Estaria voltada mais para dentro do que para fora. Não haveria cartões postais, só paisagens interiores” (CARVALHO, 2002, p.37). Percebe-se assim como o interior de André é importante no processo de construção narrativa.

Entendemos desse modo o jogo operado pela direção de fotografia de Walter Carvalho, pois o trabalho baseado nos contrastes para épocas e momentos distintos na vida do jovem se expressa por meio de jogo de luzes e sombras, claros e escuros que traduzem, visualmente, aquilo que a linguagem escrita o faz por meio das metáforas e jogos de palavras.

Com isso acreditamos que livro e filme constituem-se como obras representativas de seus momentos de elaboração e que merecem a atenção do público de um modo geral, pois proporcionam momentos intensos e prazerosos de fruição.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. 3ª ed. rev. pelo autor. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CARVALHO, L. F. Sobre o filme Lavoura arcaica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.


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