Carlos Henrique dos Santos

Papu di Butiquim

Pequena nota explicativa: Papu di Butiquim é a ideia de um projeto coletivo escrito por mim e pelo Fábio Fonseca com desenho do meu irmão, Márcio. São dois personagens, Zé Cascalho e Gazu, que se conhecem na Faculdade de Letras e travam uma amizade movida a mulheres, textos, cigarros e bebida, muita bebida. Cada um escreveria sua parte e os desenhos deveriam ilustrar o bar, principal ponto de encontro deles. Infelizmente ficamos apenas nos primeiros textos e uma das minhas partes é a que se segue.


Das-Nachtcafe.jpg (Fonte: http://www.kunstkopie.de/a/vincent-van-gogh/das-nachtcafe.html)

Chovia forte quando Zé desceu correndo as escadas da faculdade em direção ao bar, era quinta-feira, vinte e oito de novembro de 2002 e ele estava prestes a entrar de férias e resolvera ficar até mais tarde na faculdade para uma das festinhas que aconteciam na instituição. Passava da meia noite quando avisaram que a festa seria encerrada e Zé ainda não saciara sua sede de cerveja, bebia e fumava de um modo um tanto quanto nervoso, olhava uma ou outra menina mas estava desanimado com o desemprego para tentar qualquer tipo de aproximação e decidira por curtir sozinho mesmo aquela sua primeira noite de bebedeira universitária. Chegou no bar do Simão e pediu uma saidera para esperar passar a chuva e sorriu, Simão sorriu de volta e lhe serviu, Zé agradeceu e acendeu um cigarro antes do primeiro gole, tragou, sentiu a fumaça penetrar lentamente o pulmão, soltou, respirou fundo e bebeu. Antes de tragar novamente foi abordado por um rapaz que lhe pedia fogo, Zé tirou do bolso da camisa azul listrada o isqueiro, o rapaz acendeu, agradeceu e falou que chuva, hen?! Matou a festinha. Zé disse é e sorriu, o rapaz falou você é novo aqui e Zé disse não, tô no terceiro período já mas venho pouco aqui, na verdade nem venho, hoje foi a primeira vez que fiquei numa festa. O rapaz falou eu fico sempre, hora boa para azarar as gatinhas e tomar umas com os amigos, Zé disse é, tem várias bonitas aí, e fumou sem dizer nada, o rapaz também fumou sem dizer, ficaram em silêncio, trovoou forte, uma, duas vezes, e um raio iluminou em seguida o céu, ambos pegaram juntos dos seus copos e beberam. Simão trouxe outra cerveja para o rapaz e comentou algo em tom de brincadeira com ele que Zé não entendeu e serviu uma dose de Domeq, antes que o rapaz bebesse novamente uma mulher passou nos fundos do bar e sorriu pra ele, depois ela apareceu na porta da frente e veio para trás do balcão, era Soraya, mulher de Simão mas Zé só saberia disso com o tempo, o mesmo tempo que, mais de dez anos depois, revelaria a Zé que o rapaz a seu lado transava quase que diariamente com ela, mesmo tendo uma diferença de uns trinta anos, no mínimo, entre os dois. Zé costumava ter problemas com o tempo, com o sentimento que o passar do tempo lhe causava, alguma coisa apertava em seu peito a cada vez que ele se mirava no espelho e percebia, ainda que não quisesse, que o Zé que ali estava não era o mesmo de tempos atrás, tempos curtos até mas que passavam por ele de modo rápido e contínuo e isso o desagradava, tinha medo da morte e sabia que o tempo era isso, a morte, viver é morrer aos poucos, Zé escreveria ainda nesse ano de 2002, num momento de tristeza pós ressaca. Zé alimentava sonhos de ser escritor, fazia versos não como quem chora, não gostava de poesia dor de cotovelo, como dizia brincando aos amigos mas sim de poesia de verdade, tipo João Cabral, entende?, ele almejava uma escrita cerebral, por mais que às vezes, como no dia em que escreveu que viver é morrer aos poucos, se deixasse levar pela emoção e produzia sim versos como quem chora, tirando os versos cerebrais Zé também rabiscava algumas narrativas mas todas lhe desagradavam bastante e até evitava mostar aos conhecidos. Disfarçando o sorriso que a mulher do bar lhe dera o rapaz perguntou se Zé fumava um, Zé disse não, não fumo, a nicotina já é o bastante para me matar e sorriu, Zé tinha mania de sorrir quando não sabia ao certo o que falar ou em situações que considerava embaraçosas, como uma conversa com alguém desconhecido, o rapaz também sorriu e falou beleza, vou aproveitar que tá minguando a chuva e vou nessa, Simão, anota pra mim, amanhã tô de volta, após falar virou o copo, fez uma cara de criança bebendo remédio, sorriu meio torto e disse valeu, vou nessa, a gente se esbarra e saiu do bar. Zé terminou sua cerveja, pediu outra e aproveitou para, imitando o rapaz, pedir também um Domeq para esquentar, disse. Quem lhe serviu foi a mulher, Zé sorriu meio sem graça enquanto ela enchia seu copo de Domeq e o olhava de modo insinuante, Soraya, Zé ainda não sabia e levaria mais de dez anos para saber, gostava de rapazes mais jovens, como o que estivera até bem pouco bebendo a seu lado, ela colocou sua dose e enquanto fechava a garrafa falou Simão, quanto foi a conta do Gasu?, Simão tirou um caderninho meio deteriorado da gaveta e falou um número que Zé não ouviu, estava se perdendo em seus pensamentos que, agora, finalmente, depois de muita bebida, começavam a ser turvar feito o tempo lá fora. Zé abriu a mochila, tirou um caderninho e anotou o tempo é isso, essa matéria concreta de vida, esse caos frenético de dor, esse lapso intenso de vontades, esse rasgar do céu em noite chuvosa, o tempo é isso, esse eu bêbado de verdade, eu instante repleto de saudade, essa vida, parte inteira de um ator que me representa. Parou, acendeu outro cigarro e sorriu sozinho olhando as palavras escritas no papel, tragou uma, duas, três vezes antes de dar um gole no Domeq, virar o copo inteiro de cerveja e perguntar onde é o banheiro.


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