Carlos Henrique dos Santos

onde andará lívia b.

Mais um conto antigo, doze anos já, e daqueles pelo qual guardo um carinho especial, pois foi escrito "por encomenda", digamos. Quando leio desses textos penso: por que não dei continuidade?, por que parei (reduzi) tão drasticamente o número de contos escritos?, será que conseguiria, realmente, me tornar um escritor?, isso penso e por isso, também, os publico aqui.


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para lívia b., é claro!

lívia b. lívia b. lívia b.!, onde andará você? saio de casa sob uma puta chuva e fico rodando pelo centro à procura de lívia b.: bares, livrarias, farmácias, padarias, lojas de roupa e restaurantes: nem sinal de lívia b. em nenhum desses lugares

ah!, lívia b., onde andará você?

meus pés doem, quero mijar, acendo um cigarro: outro outro outro, o tempo passa, me leva junto, eu vou, sigo-o: caminho caminho caminho, meu corpo parece de vidro, a cada passo sinto que algo em mim se parte, desliza, resvala por meu silêncio e desce pelo bueiro mais próximo; um beijo beijo beijo, quero um beijo de verdade em meus lábios mas

porra! lívia b.onde andará você?

a noite cai sobre mim com força, pesa em meu coração a escuridão da sua ausência: caralho caralho caralho, pra onde ir?, em que rua dobrar?, a quem pedir informação?, sentado fico olhando o céu, uma estrela: outra outra outra, cochilo, minha cabeça tomba pro lado, acordo, minhas roupas estão molhadas e meus pés não param de doer, tenho fome, como um sanduíche: mais um mais um mais um e uma cerveja: e outra e outra e outra; pego um ônibus, desço, fumo, entro num bar, mijo, no espelho sujo procuro resquícios de você em mim: lívia b. lívia b. lívia b., novamente na rua, cansado, minha cabeça dói, fecho os olhos

l í v i a

b. o n d e a n d a r á v o c ê ?

é tudo que consigo pensar, acho que vou desistir, não sei mais o que faço, ando há horas atrás de uma mulher que nem sei se quer alguma coisa comigo, em geral elas apenas me usam & abusam da minha fragilidade, não me faço de vítima, não é isso mas penso que a relação deva ser compartilhada e não dividida, não quero comer uma parte do bolo e deixar a outra para aquela que estiver junto a mim, quero poder comer o bolo junto, compartilhando-o, é isso, é simples mas não não não, ficam sempre me dizendo que sou um cara complicado, que exijo muito, mas porra!, se me entrego muito tenho o direito de exigir muito, ou não?

(?hei, você que tá aí me lendo, por acaso não viu nenhuma lívia b. passando por aí, não?)

começo a sentir frio com essas roupas molhadas, cada minuto que passa deixa meu corpo mais pesado: exausto! procuro um lugar qualquer para sentar, de longe avisto uma mulher atravessando a rua, levanto, corro: rápido rápido rápido, passo por entre carros & motos & ônibus, o sinal abre, ouço buzinas: maluco, viado, quer morrer!, gritam gritam gritam, continuo a correr, a mulher está mais perto: mais mais mais, já posso sentir seu cheiro: êpa!, paro, cansado, abaixo a cabeça: não não não, ainda não foi dessa vez, essa não é lívia b.

deu na rádio nacional, deu no jb, deu na globo, deu na cbn, deu na veja, deu no new york times, deu na voz do brasil, deu no olé, deu no fígaro, deu na mec am, deu no sbt: lívia b. desapareceu!, ajudem a achar lívia b.!

volto pra casa caminhando, o corpo em frangalhos, restos de mim vão ficando pelas ruas que passo, quero o cheiro de lívia b., quero o sorriso de lívia b., quero o gosto de lívia b., tudo que tenho são lembranças: saudade saudade saudade, tomo banho, choro: lágrimas lágrimas lágrimas, deito nu, olho o teto, desenho lívia b. nas sombras que entram pela janela e durmo: em meu sonho encontro um duende azul, ele me sorri sorri sorri, depois me pergunta em mandarim (e eu entendo) o que quero: respondo que quero lívia b., então ele me manda fechar os olhos: fecho; o sonho acaba, tenho medo de abrir os olhos e ver que estou só, alguém puxa minha coberta, meus olhos não se abrem: medo medo medo;

?lívia b. lívia b. lívia b., onde andará você?

abro os olhos e vejo um beija-flor a meu lado: sorrio sorrio sorrio e o conto termina com lívia b. me beijando, assim:

carlos henrique dos santos. 04/01/06


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