Carlos Henrique dos Santos

Qui

Conto que está prestes a completar 15 anos e que é um dos que mais gosto, pois tem um ritmo que me agrada, já que reflete muito do que eu lia à época, como Julio Cortázar, cronópio mor!


Conheci Qui num domingo à tarde em que fui ao cinema com a Ana e o Pedro, que trabalhavam com ele, os três eram dubladores de um desenho para crianças que passava toda manhã na tv aberta. Qui era o herói, Ana a sua amada, e Pedro o vilão; nunca vira o desenho mas já sabia o que iria acontecer nos próximos 10 episódios; Ana e Pedro adoravam contar-me tudo o que seus personagens andavam fazendo. Sobre o Qui sabia pouco e não simpatizava com ele; um herói que não tinha nenhum poder mas que ao ver-se em perigo cantava uma musiquinha que o fazia trabalhar com o tempo da maneira que bem entendesse.

Quando chegamos ao cinema ele estava lá, fomos apresentados e eu o achei simpático mas com um olhar estranho, meio perdido e vazio. O nome dele não era Qui e sim Júlio; Qui era o personagem e ele adotara o nome como seu também, e agora só queria ser chamado assim. Vimos o filme e depois fomos tomar uma cerveja, notava em Qui uma espécie de nervosismo enjaulado, que parecia querer fugir de dentro dele pelos olhos. No bar falamos muito sobre o filme que dividia nossas opiniões, eu e a Ana gostamos, Pedro e Qui odiaram.

Falamos muito sobre cinema, literatura e filosofia, até que chegamos ao desenho, aí sim Qui sorriu, seus olhos brilharam e ele começou a expor suas teorias sobre o seu futuro, seus planos de casar e fugir com a Fa (Ana) e de destruir de vez Cano (Pedro), pois já estava cansado de fazer sempre as mesmas coisas e acabar voltando sempre ao mesmo ponto, ele queria fugir de Fabu (o mundo em que viviam) e vir para a Terra. Ouvindo-o falar não se sabia se era o Qui do desenho ou o Qui Júlio quem falava.

Fiquei um pouco assustada, nunca ouvira Ana ou Pedro falar assim sobre seus personagens, era uma espécie de fixação a de Júlio por Qui. No dia seguinte liguei para Ana e perguntei se Qui era sempre daquele jeito estranho quando falava sobre o seu personagem, ela disse não ver nada demais e que o achava um excelente dublador e um ator ainda melhor, é por isso que ele fica assim sem você saber ao certo se quem está ali falando é o Qui do desenho ou o Qui Júlio. Um mês depois fui assistir a uma dublagem que eles fariam para um capítulo especial que seria exibido no dia das crianças. Qui estava muito bonito naquele dia, com uma camisa verde que ficava bem com seus olhos, e uma bermuda que o deixava com um ar mais jovial, alegre e tranquilo.

Fiquei fascinada em como eles interagiam, quase não precisavam ensaiar, passavam o texto uma vez e pronto, pode gravar; o mais estupendo era Qui, seria impossível imaginar outra voz para aquele lindo bichinho azul com carinha de urso de pelúcia e olhar de gato. Fui parabenizá-los e dizer o quanto havia gostado, disseram-me que voltasse outras vezes e Qui chamou-me para tomar um sorvete, olhei Ana de soslaio e com um risinho lindo ela me disse: “Vai sim!”. Fui. Qui estava bem diferente do dia do cinema, mais alegre, falava da felicidade que sentira desde a primeira vez que fizera a voz dele. Fiquei sabendo que ele já colaborava com o criador das histórias, tanto nas falas, suas principalmente, como nos desenhos. Com gosto de flocos na boca o ouvi cantar a tal música que o fazia mexer com o tempo:

"meu tempo vai meu tempo vem eu não sou páreo pra ninguém meu tempo vem meu tempo vai pra frente e pra trás.”

Achei-a engraçada e mesmo bobinha mas me surpreendi foi com Qui dizendo que devíamos correr, pois Cano estava nos seguindo, ele tinha certeza, e segurando-me pelo braço, disse que eu estava diferente e que ele não sabia se eu era mesmo a Fa. Assustada, sorri, achando que ele apenas brincava comigo; pedi então que me falasse qual era o plano de fuga, e quando o vi tirar do bolso um caderninho com números e letras formando uma complexa mistura, tive certeza de que ele não brincava, e que achava-se mesmo o Qui do desenho. Pensei em ir logo embora mas e deixá-lo naquele estado? Não, isso seria egoísmo da minha parte; chamei-o para irmos embora, pois precisava acordar cedo no dia seguinte, ele respondeu que o tempo não era problema, bastava apenas cantar e pronto; como é que você quer, pre frente ou pra trás?

Sorri sem graça, e agora, o que fazer, como lidar com ele naquele momento? Fui ao banheiro, estava ficando nervosa, acalmei-me com a água fria nos pulsos e no rosto; quando voltei não mais o vi; confusamente perguntei à menina do caixa se vira para onde fora o rapaz de verde que estava sentado na mesa do canto, fiquei surpresa quando ela disse não ter visto ali ninguém como eu lhe descrevera. Fui embora e no dia seguinte liguei para a Ana e o Pedro e contei a eles o que acontecera, eles riram e falaram que eu estava muito preocupada com pouco, e que Qui era assim mesmo. Cheguei ao estúdio quando já estava acabando a gravação; Qui veio direto a mim e disse que precisou mudar o tempo de repente porque Cano estava por perto e que por isso quando eu voltei do banheiro ele não mais estava lá, porque na verdade nós nem chegamos até lá depois do tempo mudado.

Nada entendi de sua explicação, e disse estar triste com ele por ter me deixado lá sozinha. Recusei dois convites seguidos dele para ir ao cinema; e num dia quando caminhava à tarde pegando uma fresquinha dessas gostosas da primavera eu o vi do outro lado da rua, atravessei e o surpreendi com um susto; ficamos andando e conversando até anoitecer; Qui disse estar triste, pois achava que não iria mais me ver, já que ele iria embora com a Fa para a Terra, e que não queria voltar o tempo para me ver porque estava com medo de que Cano o pegasse desse vez. Fomos andando até minha casa, Qui não quis entrar, deu-me um beijo na testa e pediu que me cuidasse. Dormi mal toda a noite pensando nas histórias que Qui havia contado em nossos encontros.

Pela manhã liguei a tv no horário do desenho e quase tive um ataque ao ver que Qui e Fa haviam mesmo fugido para a Terra mas uma explosão em sua nave os fizera cair em um país desconhecido e não se sabia se eles haviam sobrevivido; depois de um tempo saí e fui ao estúdio, tive outro choque ao ver Cano arrumando suas coisas e dizendo que iria viajar, não quis me dizer para onde iria mas vi que levava sua pistola intra-temporal, a única capaz de atingir Qui onde quer que ele estivesse.


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