lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Papo de macho para macho

Parece que ninguém mais entende o que é ser macho, não é? Daqueles que viram o pescoço para todas as mulheres, e que mal e mal controlam o que têm dentro das calças. Mas hoje nada mais é permitido, e você se sente engaiolado como um animal. Eu sei o porquê, e vou te mandar um papo reto. De macho para macho.


girls_rock_boys_shocked_dailymotion_com.jpg

Amigo… Sei como é. Aqueles impulsos que você tem. Aquela ânsia incontrolável por sexo e que já te fez cometer loucuras (sendo que algumas delas, quando lembradas, te trazem um sorriso no rosto). Aquele ímpeto de disputar a atenção da sua escolhida, de provar a qualquer tempo e em qualquer lugar – na balada, na escola, no boteco ou onde for – que você é especial e também a melhor opção disponível. Aquela adrenalina de deixar fluir sua masculinidade, especialmente quando está em grupo, brigando com outros “machos”, mostrando o quão louco você pode ser, o quão destemido, enfim, o quão viril você e toda sua testosterona te fazem.

Eu conheço, amigo, aquela sensação que te acende em dois segundos, se você olhar ou até se só imaginar qualquer situação remotamente sexual – com o tempero das suas preferências secretas (do tipo sexo violento, ménage, e outros do gênero). Enfim, tudo aquilo que te faz homem, e que te torna orgulhoso disso, num mundo que foi feito à sua imagem e semelhança.

Então, amigo, é exatamente isso que te faz perigoso, quer você saiba ou não.

Porque tudo o que foi descrito acima, descreveria os impulsos de praticamente qualquer animal macho. Você tem bem pouca diferença para um deles, quando estes impulsos estão no comando.

O masculino como medida

Cachorros_China3.jpg

Há um discurso profundamente arraigado e difundido que incentiva e propaga a voz deste impulso sexual primal. Que coisifica as mulheres e as trata como mercadorias, replicado em todas as mídias. Que desloca a dignidade delas para o meio de suas pernas, e a reduz na proporção das vezes em que elas as abriram. Que enfatiza a competição entre homens, medida pelo número de fêmeas penetradas. Isto também é a cultura do estupro, que é só uma faceta da dominação. Que, por sua vez, é a regra na maior parte do mundo: homens podem. Homens mandam.

E qual o custo?

Terrível. Em sangue, violência, danos e mortes. De filhas. De esposas e ex-esposas, namoradas e ex-namoradas. De irmãs. De mães. De amigas, de conhecidas. E de anônimas, julgadas mais ou menos dignas conforme sua profissão, beleza, origem, características... E se conseguirem manter um padrão estabelecido. Digamos, serem ”belas, recatadas e do lar”.

Então, a você, homem, que não é e nem tem como ser santo; que retroalimenta em suas mínimas atitudes uma cultura que prioriza você e seus companheiros de gênero – em todos os seus valores e suas necessidades, por quaisquer meios –, eis aqui a novidade: você, eu e todos os homens somos só pouco mais do que animais. A conciliar, com maior ou menor sucesso, o homem que você deve ser com o animal sedento de violência e prazer que vive aí dentro.

Aceite.

O que realmente importa

Gag-tapegag-lorelei-15610.jpg

Não, não venha me dizer que você é diferente. Que você tem horror ao estupro e ódio mortal de estupradores. Eu até acredito. Também tenho (não que isso seja uma virtude: até assassinos frios, ladrões impiedosos e todo o tipo de bandido sem coração também costuma ter ojeriza ao estupro, desprezam e matam estupradores).

O fato é que não importa você ter horror ao estupro, se uma série de outras atitudes e crenças suas deixam o caminho livre para que outros animais incontroláveis o pratiquem com tanta liberdade. Se você põe a vítima em dúvida quando há este tipo de crime; se você dá audiência a esta ou a outra situação criminosa; se você expõe suas companheiras passadas ou a atual em suas intimidades entre seus colegas; se já utilizou de sua força, bebida ou de qualquer outro subterfúgio que não o expresso e consciente consentimento dela (mesmo se for sua parceira) para obter qualquer tipo de intimidade; se qualquer uma dessas e muitas outras já te aconteceu, você simplesmente não é tão melhor que estupradores consumados.

Shhh… Tá, tá… Eu sei. Nem importa o que você fez ou deixou de fazer. Não importa suas justificativas e senões.

O que importa de você é que se entenda num nível profundo, e tenha a consciência de que pode cair e, em apenas um gesto, tornar-se o que despreza. Mesmo que te pareça favorável e seguro o “equilíbrio” entre o que te freia – segundo suas crenças, educação, empatia, humanidade –, e o que te impele: o desejo irrefreável, a cumplicidade de outros, a oportunidade de fazer algo se achar que “foi só mais um” (o que levou 33 desgraçados a fazerem algo abominável).

Importa entender que é você que legitima a cultura de estupro, e que elas estão gritando contra o que sempre as vitimou. Que, antes desse alarido, houve TRILHÕES de “nãos” que foram ignorados e calados à força.

Importa entender que, mais até que a situação ou a garota lá no Rio que gerou esse grito, o fato é que só agora elas estão sendo (um pouco) ouvidas.

E é isso o que REALMENTE importa: ouvi-las.

Se conheça.

E não fale, não explique, não justifique, não proteste, não se exclua.

Ouçamos.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //ALBERTO NANNINI