lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Edyr Augusto – O maestro e o balé rubro

A violência fascina, hipnotiza. Nas artes, onde a olhamos em segurança, por vezes aparece rude, gratuita. Mas há aqueles que, como regentes, compõem toda uma sinfonia para que ela apareça e desfile, natural e irrefreável. Edyr Augusto, escritor paraense (ainda) pouco conhecido, é um destes 'maestros' que você precisa conhecer.


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Qual é a morada da violência? Resposta rápida: dentro de nós. Potencialmente, todo ser vivo pode ser “violento”. A diferença é que, nos animais ditos racionais, ela não é apenas instintiva, mas pode ser intencional. Até mesmo apreciada, por alguns. Praticada com desenvoltura e habilidade.

Mas a grande maioria de nós a evita, abomina e teme. Sequer têm coragem de procurá-la dentro de si, em seu próprio abismo. Como algo tão desconhecido pode ser tão presente? Como entendê-la, um pouco que seja, e àqueles que a abraçam sem culpa?

Além das ciências que a estudam, as artes podem nos revelar as muitas facetas da violência, e nos deixam observá-la, seguros (e isso diz muito sobre nós...). Mas poucos artistas conseguem retratá-la bem, sem apelação. Parece ser necessária certa intimidade.

Difícil apostar que um homem descrito como um pacato escritor paraense de 61 anos seja íntimo dela e consiga capta-la e conduzi-la para onde quer. Contudo, a obra literária de Edyr Augusto Proença dá testemunho de que ele conhece bem essa boa e velha senhora, e sabe expô-la na intensidade que escolher, como um de muitos ingredientes que utiliza para criar seus curtos romances – contundentes como facadas.

Após a leitura deles, tão logo se refaça do choque da estocada, algumas perguntas vêm à tona: como escrever assim? De que serve ler algo tão violento? Qual o valor destas obras?

Desfile e baile de gala

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Pssica (gíria paraense que significa “azar, maldição”) é o romance mais recente do autor (2015, Boitempo, 96 páginas). Uma garota de 14 anos faz sexo com o namorado, que filma com o celular. Ele publica a filmagem, e a vida dela vira um inferno. Escorraçada de sua casa em Belém, se envolve com uma jovem ligada à prostituição e ao tráfico de pessoas, e se torna uma mercadoria. Em paralelo, um imigrante angolano convive em paz com sua companheira por anos, até que uma quadrilha de bandidos, cujas histórias também vão sendo contadas, atravessa seu caminho, e trucidam sua mulher. Ele vai buscar vingança.

Os caminhos de todos estes desgraçados vão se cruzar lá na frente. Nesse meio tempo, a violência vai continuar desfilando, como se fosse uma miss num concurso: aparece nua e crua [trajes de banho], em assassinatos, mutilações e estupros, inclusive de homens. Quase elegante [vestido de gala], em orgias e crimes inevitáveis. Divertida [falando que ama crianças e que quer salvar o mundo], quando resta claro que ela sempre desemboca em si mesma, e vitima a todos, inclusive os violentos. Seu tchau de miss só chega na última palavra do romance. Quem permanecer vivo, que se dê por satisfeito. Ou não.

Edyr rege as ações num ritmo vertiginoso, e elas se desenrolam como numa coreografia intrincada: cada gesto dos personagens prepara e gera o passo seguinte, que cedo ou tarde recai na violência. Não que o livro a focalize, ou apenas force maneiras de expô-la, cruamente. Ela aparece porque gosta da música que Edyr toca, e porque calha de alguns personagens serem dançarinos exímios, sempre próximos e prontos a ela. Há algo de tarantinesco nisso.

Reunião de habilidades e autenticidade

O estilo preciso do escritor já é uma assinatura: Ação. Pouca descrição. Dinâmica. Personagens desgraçados e complexos. Sua escrita é ágil, ainda que a opção por não haver sinalização de diálogos por vezes trunque um pouco a leitura. Mas tudo se encadeia de maneira verossímil e acarreta consequências plausíveis.

Se fossem fundidos Jorge Amado e sua soberba construção de personagens, Patrícia Melo e sua capacidade de síntese, e, por fim, Rubem Fonseca em sua melhor forma escrevendo seus contos mais indigestos, esse “monstro de Frankenstein” literário escreveria de maneira muito semelhante a Edyr Augusto.

Ainda que se apontem semelhanças ao seu estilo, a obra de Edyr é antes de tudo autêntica. Sempre ambientada em Belém do Pará, que ele conhece e onde vive. São batizadas com termos locais, como Pssica e Moscow (romance anterior, passada na praia do Mosqueiro, chamada de “moscow” pelos moradores), e não se curva a ditames do “eixo literário” no Brasil (os estados mais ricos do sudeste), que costuma ignorar tudo que se produza fora de seus limites. Parece claro que Edyr não prioriza o sucesso editorial, mas sim escrever as histórias que quer contar.

Aliás, Moscow é até mais poderoso e impactante que Pssica. Já estava lá o estilo, o cortejo. Mais infelizes destroçando uns aos outros. Narrado em primeira pessoa por um maníaco, traz uma cena violentíssima já na primeira página, como uma espécie de boas-vindas: “veja aonde você se meteu”. Escrita hipnotizante, sem floreios, sem acréscimos inúteis. Apenas 68 páginas, cerca de uma hora lendo – e dias pensando a respeito.

Olhar o abismo. E se perguntar para que.

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A violência causa muitas reações. Asco, horror, medo. Compaixão pelas vítimas. Todas tendem a ser viscerais. Explorá-las em romances seria apelativo? Não. A violência que entremeia tudo não é invenção de uma mente doente, mas sim uma realidade useira e vezeira em páginas policiais paraenses, paulistas, parisienses e no mundo todo.

Não raro, o real assusta a ficção. Do tipo estupros coletivos e descarte das meninas violentadas como se fossem lixo, arremessadas de ribanceiras. Os monstros, ao constatarem que a queda não as matou, descem para jogar pedras nas cabeças delas. Há muitos outros exemplos, desnecessários de se enfileirar. E sangue inocente para encher oceanos.

Quem dera o choque se restringisse à ficção. Que fosse necessário fazer um exercício para entender a escrita de Edyr, nem desconfiando de onde ele tira as situações que aparecem em seus romances. Hoje em dia, talvez nem os muitos inocentes ou desinformados consigam fazer algo assim.

Lembrar a carne

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Porque a informação é cumulativa. Conhecer é um processo irreversível. E (quase) tudo se revela, conforme as escolhas dos veiculadores. Em que pese que estes critérios obedeçam quase sempre às lógicas comerciais, há outro critério bastante universal: divulgar aquilo que atraia a atenção. E a violência é uma campeã de audiência. Pulsão natural e animalesca do homem, que procura domá-la com códigos sociais.

Seja domesticada, seja editada, crua ou subliminar, o fato é que ela segue atraindo olhares (ou likes, ou views, ou o que seja). Mas já que está presente em todos os extratos e em todas as relações, e que as pessoas não gostam de encará-la nem fora nem dentro de si mesmas, por que alguém compraria um livro onde ela é uma das linhas mestras?

Pode-se especular a catarse, além da atração que a violência exerce por si. Também pela busca de uma redenção, que cria roteiros fáceis, do tipo “o/a mocinho/a vai triunfar no final e o bandido será punido” – algo que nem a realidade nem Edyr Augusto gostam muito de obedecer.

E, mais especulativo ainda, por dois tipos de alívio. O da ficção: porque, ao saber que o inferno passado pelos personagens não foi real, há algum alívio: “Ufa, isso não aconteceu de verdade!” Pode até fazer esquecer por um momento as pessoas reais que passaram por situações semelhantes ou piores. E, quando se recorda destas infelizes, vem o outro tipo: “alívio do sobrevivente” – aquele sentimento difuso que impele a olhar os acidentes e mortes, para relembrar que, embora tão carne e tão frágeis quanto aquelas vítimas, não fomos nós os vitimados desta vez.

Sinfonia em vermelho

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Por último, mas não menos importante, porque a literatura é uma arte, e se basta. Um romance escrito com primor pode ter qualquer linha mestra, ou muitas delas, e valerá a pena ser lido. É o caso da obra de Edyr Augusto.

Ademais, a arte serve também para inquietar. A violência incomoda e assusta. E os elementos abordados na ficção do autor denunciam nosso mundo cão, porque diferem dele apenas na invenção (magistral) dos personagens. De fato, estes são tão possíveis e semelhantes aos desgraçados que cambaleiam nesse vale de lágrimas que não passam de reflexos. Dos desafortunados. Dos violentos. Dos assassinos. Dos psicopatas. E das incontáveis vítimas: violadas, mutiladas, mortas. Anônimas e esquecidas.

Então, se por acaso desconhece Edyr Augusto, e tenha interesse por obras que fujam daquele roteiro redentor e sejam cruéis como só a verdade, e de quebra mostrem como se encadeiam os pensamentos e motivações dos violentos, deverá gostar da premiada obra dele. Leia e comprove sua habilidade de orquestrar breves partituras onde a violência desfila e baila.

Convém tentar entender essa velha senhora e seu balé intrincado. Afinal, num dia ruim, você pode compor o corpo de dança, como agressor ou como vítima. Porque seja na ficção, seja na realidade, ela está o tempo todo à espreita, a escolher, aleatória como a sorte, os próximos dançarinos – que, após o show, terminarão modificados para sempre.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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