lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Justiça à Meritocracia

O que é a meritocracia? Seria um sistema justo de reconhecimento de esforços ou uma desculpa para perpetuação de injustiças? Talvez seja necessário refletir sobre quais são suas possibilidades, e quais têm sido suas aplicações.


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“Um belo dia, aboliram as facas. Episódios de violência, com esfaqueamentos, mutilações e crimes diversos ensejaram a proibição total da fabricação, porte e manuseio de facas e lâminas em geral, sob duras penalidades para os infratores. Após uma breve adaptação, as pessoas passaram a esgarfear umas às outras. Ou a escolherar. Piorou um pouco para as vítimas: garfos e colheres eram menos letais, mas bem mais dolorosos. Após a proibição de todos os talheres, chegaram a pensar na amputação preventiva de mãos: a culpa devia ser delas, que empunhavam qualquer coisa remotamente parecida com uma arma. Só não o fizeram porque chegaram à conclusão que as pessoas se matariam aos chutes e dentadas.”

A pequena fábula ilustra a culpabilização do instrumento e a natureza dos homens. Uma faca e até um revólver são inertes sem a mão que os empunha e a intenção que os guia.

Isto posto, falemos sobre meritocracia.

Má fama e mau uso

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Gera debates acalorados falar sobre esse mecanismo. A discussão costuma descambar para confrontos entre os apoiadores do capitalismo e seus detratores. Às vezes, até em cismas esquerda vs. direita. Mas seria a meritocracia, como as lâminas na fábula, um instrumento mal utilizado e mal compreendido?

Há fortes razões para crer que sim. Tal e qual um elemento volátil e raríssimo, é bem possível que nunca tenha sido utilizada em sua forma pura. Talvez nem exista uma forma pura, já que o cerne de sua construção depende de algo subjetivo: o mérito. Ele muda bastante, dependendo de quem avalie e do que se pretenda. Para um operador do mercado financeiro, ser implacável pode ser uma meta; para uma assistente social, certamente não.

Para piorar, a meritocracia é atacada até em situações onde não há vestígios dela; é utilizada como explicação para fenômenos complexos, nos quais ela pouco influencia; usada como justificativa para decisões verticais impostas, nas quais não há qualquer mérito inteligível. E raramente, é compreendida como uma ideia poderosa.

Somos arbitradores de mérito

Não parece ser possível a civilização prescindir da noção de mérito. Variações dela permeiam não só nossa vida profissional, mas a privada também. Por exemplo, é mais provável que nos esforcemos, mesmo cansados, para ir ao aniversário daquele amigo que nunca falta ao nosso, do que para o daquele outro, que vive “dando mancadas”. Arbitramos dezenas de decisões todos os dias nos pautando naquilo que achamos mais meritório. Buscamos decisões justas e racionais.

E reconhecimento. No que quer que façamos. Precisamos tê-lo em nosso horizonte, ainda que de forma ilusória, porque ele nos motiva. Nem sempre é obtido de forma justa ou por critérios inquestionáveis. Mas a verdade é que, numa sociedade competitiva como a que criamos, a supressão de mecanismos que reconheçam méritos traria prejuízo a todos. Para os patrões, por exemplo, não compensa deixar de reconhecer, um pouco que seja, um bom e dedicado funcionário; se ele sentir que é tratado igual aos relapsos e pouco comprometidos, e nada obter pelo seu esforço, ou irá sair do emprego ou diminuirá seu empenho.

Será mesmo ela a vilã?

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Fotos e memes que mostram as mazelas da pobreza extrema, às vezes, vêm com críticas rasgadas à meritocracia. Impactante, mas equivocado. Nenhum defensor do capital com dois neurônios funcionais arriscaria dizer que pessoas e países inteiros passam fome por falta de méritos desse povo. Essa crítica é uma distorção: alerta para um problema real, mas aponta o culpado errado.

Outro indício que a visão de muitos sobre a meritocracia é distorcida seria um exercício mental, onde qualquer vestígio dela fosse apagado. Seria catastrófico (e certeza que te atingiria, de alguma forma desagradável). Ao se retirar um dos poucos motivadores que possibilita ascensão, se solidificaria um sistema de castas, e se igualaria o sofrimento para todos (péssima solução). Locais onde ela é praticamente inexistente, como na Coreia do Norte, são os mais opressores e tristes.

A rapinagem comum na nossa sociedade, a monetização de toda e qualquer coisa, e a ganância e egoísmo desenfreados são vilões mais culpados e concretos. Conceitos como raça, patriotismo e riqueza, também têm sua parcela de culpa. Meritocracia, onde realmente existe, não é um mal, ao contrário. Todo aquele que teve qualquer mérito reconhecido que lhe trouxe qualquer benesse, num mundo injusto e desigual, é certo que será grato a ela.

Uma ideia poderosa sim, mas não mágica. Nem suficiente. Nem perfeita. Comparar méritos e habilidades de pessoas que se capacitaram de maneira absurdamente diferente nunca será justo. Infelizmente, não será ela que corrigirá as desigualdades no mundo.

Só mais um instrumento para construirmos algo melhor

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Não sei qual opinião você tem sobre meritocracia, mas sei que não é fácil se fazer entender como um defensor dela como ideia, e não da maneira como a usam. Obviamente, num mundo cheio de muros, e com diferenças obscenas – onde 1% da população concentra a mesma riqueza dos 99% restantes – a meritocracia vira uma tintura. Sua manipulação e descaracterização são evidentes.

Porém, vale lhe fazer justiça, e ressaltar que ela é mero instrumento. Seu uso precisa ser buscado dentro de um sistema justo, porque, ante sua natureza, poderá ser aplicada também em sistemas injustos. Por exemplo, o escravo que era menos torturado por ser um bom colhedor de algodão. Era um uso terrível, mas a culpa era da meritocracia? Não. O que ela poderia fazer para derrubar o escravagismo? Nada. Não é para isso que foi designada: ela não constrói novos sistemas, mas sim, se aplica aos existentes, tornando-os um pouco melhores (ou menos piores).

Talvez diga que ela apenas selecionaria os melhores escravos. Verdade. Mas pode escolher os melhores líderes de uma revolução também. Ademais, se houve uma época em que a meritocracia escolhia os melhores escravos; e se hoje, ela escolhe os melhores “escravos remunerados”, não é por culpa dela, mas sim, da sociedade e dos valores que construímos para aplicá-la.

E nesta sociedade, há problemas que sequer geram discussão. Como a fome, a miséria, a falta de acesso de centenas de milhões de pessoas a condições mínimas de higiene e dignidade. Acabar com tudo isso não é simples; porém, não por conta dos custos, mas sim por causa das fronteiras (em mais de uma acepção). Frente a isso, atacar a meritocracia parece um erro total de prioridade.

Portanto, talvez seja mais interessante não focar ou criticar a ideia em si; mas sim, cobrar e ajudar a construir um sistema o mais igualitário possível, decepando tudo aquilo que naturaliza as desigualdades - como foi a escravatura e como são as diferenças abissais entre os mais ricos e os mais pobres, e o preconceito com as minorias, por raça, origem, status ou gênero, além de muitos outros exemplos. Assim fazendo, o "mérito" aferido não gera distorções tão graves.

Decepar: separar do corpo que faz parte. Forte, mas, às vezes, é preciso ser mais agudo. Porque pode ser ruim e perigoso um mundo com as facas; mas é pior e mais precário sem elas.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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