lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Memórias de infância(s) fabulosas

Quais eram suas brincadeiras especiais quando criança? Enfrentar monstros imaginários, desvendar crimes de mentirinha... E se não fossem brincadeira? E se a magia do olhar da criança fosse a maneira certa de ver o mundo? Neil Gaiman brinca com estas e outras premissas em "O Oceano no fim do caminho".


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Com qual autor você gosta de ser comparado quando escreve? Qual é o seu modelo? Neil Gaiman é quem mais me inspira a escrever. Seu estilo lírico, supercriativo e de fino humor, aliado à precisão de suas sentenças, apuro nos diálogos e um tanto de poesia nas descrições e criações, o tornaram um dos mais prestigiados escritores da atualidade.

O inglês é autor de histórias em quadrinhos consagradas, como Sandman e Livros da Magia (precursor de Harry Potter), de romances infanto-juvenis, como Coraline e Lobos atrás das paredes, com obras adaptadas para o cinema, como Stardust e Beowulf e, finalmente, de romances muito premiados e excelentes, como Deuses Americanos e Os filhos de Anansi.

Passou um grande período sem lançar para o público adulto – até quebrar o jejum em 2013, com O oceano no fim do caminho, publicado aqui pela editora Intrínseca. Toda a magia de Gaiman está ali, numa fábula que resgata alguns rituais de passagem da infância e os mescla com fantasia e alusões diversas às ciências, literatura e espiritualidade.

Um oceano em um balde

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Um homem de meia idade retorna a casa onde passou sua infância, em uma pequena cidade da Inglaterra, para um funeral. Andando pela vizinhança, chega a uma fazenda, onde, num repente, se recorda de ter vivido uma aventura extraordinária quando tinha sete anos, em companhia de uma garota quatro anos mais velha, chamada Lettie Hempstock.

O recurso utilizado pelo autor foi narrar a história como se a lembrança retornasse completa e subitamente, o que explica a narração que se alterna entre a perspectiva de uma criança de sete anos e do adulto que ela se tornou.

O tal oceano no fim do caminho do título é um lago que existe na fazenda das Hempstock – Lettie, a garota de 11 anos, sua mãe e a avó, que são mais do que aparentam. O garoto vai encontrá-las por acaso, por conta de duas mortes que vai testemunhar. Na tal fazenda, cabem um oceano e um mundo de coisas. Suas moradoras ensinarão sobre lealdade, escolhas e poderes primitivos.

Troca desvantajosa

Neil Gaiman consegue resgatar as impressões só experimentadas na infância. Ele descreve um copo de leite fresco, ou um pudim com geléia de amora como uma criança faria. E fala sobre refúgios secretos nos jardins e monstros no varal. Brinca com a linguagem e as memórias, e consegue inverter a lógica do mundo normal: não largamos as coisas da infância como fantasias, em troca do real; largamos a realidade da fantasia, trocando-a por outras verdades, cinzas e sem graça, que inventamos.

Há uma chuva de referências no romance. Vão das ideias científicas, como o Buraco de Minhoca – espécie de túnel no espaço-tempo, transformado em algo mais literal – além do Big Bang e da matéria escura, a eventos e personagens reais, como Guy Fawkes, que inspirou os quadrinhos V de Vingança, de Alan Moore (que consagrou a máscara branca com bigode e cavanhaque estilizados, usada em protestos), passando, lógico, por gatos, espécie de fixação do autor.

Tecer tudo isso num romance mágico, que é uma fábula sobre a infância e sobre aquilo que perdemos, é só um dos méritos do livro. Ele serve também como um tíquete de viagem ao passado.

A criança interior

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Ao ler O oceano no fim do caminho, recordei do quanto de magia existia na minha infância. Os meus lugares secretos. A casa de meu avô, enorme e com um jardim gigantesco, virava palco de aventuras. Com minha irmã, prima e vizinhos, íamos ao quintal resolver crimes, onde um muro manchado de água era uma prova de sangue, onde chuchus esquentados numa lata era ração de sobrevivência. Quando crianças, acreditamos nas nossas próprias mentiras. (Risos) Desculpe o humor involuntário… Quando crianças, eu disse – como se não mentíssemos a nós mesmos dez vezes mais depois de crescidos. Não há nada mais mentiroso que um adulto.

Enfim, Neil Gaiman tem a capacidade fabulosa de transportar seus leitores a um mundo paralelo. Tal como grandes contadores de histórias, como R. J. Tolkien, C. S. Lewis e os irmãos Grimm.

Embora haja (poucos) senões no livro, a construção da história brinca com a imaginação e a realidade, como é típico do autor. Lembra um pouco o enredo de O labirinto do fauno, filme de Guillermo Del Toro, em que uma garota vive uma fantasia com princesas, monstros e o fauno, enquanto enfrenta dias traumáticos durante a ditadura de Franco, na Espanha. O garoto do livro também vive eventos traumáticos, que guardam nítida correspondência com eventos reais, mas que, para ele, seriam causados por seres mágicos. O que aconteceu, o que foi inventado, o que a impressão de criança fantasiou? Quando nos perguntamos, se trata, quase sempre, de uma boa obra.

Isso me fez pensar nos dias passados da infância, quando nossas conclusões são tão diferentes, e também no que fazemos à nossa criança interior. Ontem mesmo eu andava por aí pensando em coisas importantes, como cavar um buraco enorme, subir em árvores, chutar qualquer coisa remotamente parecida com uma bola, que ia de latas a pedras. Responda, se souber, como aquele garotinho que eu fui, e aquele ou aquela que você foi, deu lugar a estes adultos tão empertigados como nós, que andam por aí?

Duas vozes, dois olhares

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A música “City of blinding lights”, do U2 , minha banda favorita, brada:

Time, time / [Tempo, tempo] Won’t leave me as I am / [Não vai me deixar do jeito que eu sou] But time won’t take the boy out of this man / [Mas o tempo não vai tirar o garoto que está dentro desse homem]

Mas é inevitável: crescemos e deixamos as coisas de criança. O tempo nos muda, inexoravelmente, tanto que já somos diferentes de um dia para o outro. Mas ouvir a criança interior, sufocada sob tantas obrigações e sob a crueza da tal realidade, é uma opção, e uma luta que tem que ser travada, e que talvez passe justamente por resgatar fantasias, em leituras, filmes ou brincadeiras, e, mais do que tudo, em atitudes.

Adultos estressados, contraídos, alquebrados e infelizes, muitas vezes, tem diagnóstico parecido, segundo algumas correntes de ajuda psicológica: sufocaram sua criança interior. Não a ouvem mais, nem prestam atenção ao que ela vê. Tamanha é a diferença entre o mesmo fato visto pelos olhos de uma criança do que visto pelos olhos de um adulto que não admira que o olhar deste último se imponha de tal forma que esquecemos que já vimos monstros em varais e debaixo das camas, portais para outros mundos dentro de armários, magia em lugares secretos inocentes, oceanos em lagos, e universos paralelos dentro de quartos de brincar.

Não se trata de ficar iludido ou ignorar o conhecimento adquirido – o conhecimento é um fardo que, uma vez obtido, não pode ser devolvido. Trata-se de manter a criança interior viva e participante. Quando as duas vozes e os dois olhares internos conversam, o mundo fica mais poético, criativo e é possível enxergar perspectivas invisíveis a apenas um dos olhares. E uma das maiores dádivas que podemos experimentar retorna: a capacidade de se maravilhar.

A fantasia como resgate e como lente

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Acredito que a função deste olhar fantasioso é possibilitar os progressos mais sérios e manter vivas as tradições e a arte. Se não por meios de metáforas, alusões, fantasias e divagações, como se elaborariam as teorias científicas, e como se inovaria, se almejaria?

A ânsia que os adultos desenvolvem por controle, ou melhor, pela ilusão de controle, acaba atropelando o espaço da fantasia na vida. Mas como esta última é uma necessidade vital, são criadas válvulas de escape, que vão aparecer de alguma forma. Por exemplo, no consumo massivo de romances fantásticos, como o próprio caso da série Harry Potter. As duas necessidades duelam por espaço, e há vantagem para a primeira.

Mas perder a lente da fantasia torna tudo sem graça, e pode se revelar algo arrogante e inesperadamente cômico. Filósofos eminentes da antiguidade acreditavam que o mundo era plano e sustentado no casco de uma tartaruga, e que todas as coisas eram compostas pelos quatro elementos essenciais: fogo, ar, terra e água. A ciência se ri disso. Só que a fantasia vai sempre mais longe, e ri de tudo, até de si mesma. Brinca com essas e com outras ideias, cria em cima delas, inventa tradições, empresta significado.

Teorias sérias da ciência caíram por terra, enquanto projeções fantásticas dos escritores de ficção científica de ontem ganham a nossa realidade: chips minúsculos inseridos em qualquer coisa, nanorrobôs, teletransporte, rede mundial de computadores.

Ou seja, a fantasia nos guia antes da ciência. E, quando seus olhares se fundem, um lago é o oceano primordial, os mundos paralelos se comunicam conosco, e, no coração e na vontade de uma pessoa, há força para mudar o mundo inteiro.

Autores que mesclam estes dois olhares em suas obras, que conseguem dizer muito fazendo de conta que estão apenas contando uma historinha, nos acompanham desde sempre. Seja com as fábulas consagradas ou com as tradições orais dos milhares de povos que já caminharam sobre a terra, eles sempre chegam até nós, compartilhando sua curiosidade em relação ao mundo e perscrutando nosso papel na ordem das coisas. Pois estas indagações são algo que nos irmana, independente da época, raça e crença.

Há oceanos a serem desbravados - às vezes, dentro das páginas de um livro inocente. Acorde sua criança interior, e, se possível, faça esta leitura junto com ela. Talvez perceba algo muito além de um romance.

Ah, e não esqueça: divirta-se!


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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