lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

O deus inexperiente e sintonizadores

Não estaria a autoajuda estigmatizada? Será que uma coletânea de chavões é tudo que ela pode oferecer? Em algumas obras, pode haver respostas (ou pelo menos teorias interessantes) para questões como a razão da vida e o caráter da divindade. Talvez dependa da disposição e do momento de quem lê. Porque palavras cheias de ruído e estática para alguns podem soar claríssimas para você, dependendo da sua sintonia. E trazer revelações.


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O que se aproveita de autoajuda e afins? Claro, depende de quem lê. De qualquer forma, a melhor resposta que encontrei veio de um livro do gênero, o “Conversando com Deus” (vol. I), do americano Neale Donald Walsch. Algo como “a mensagem emitida é sempre clara, o problema é o receptor”.

Típico – mas interessante. Um chavão para dizer que o ensinamento está lá, mas nem todos captam. O autor comparou a voz de Deus com uma transmissão de rádio ininterrupta: as ondas estão em todas as partes; o que se precisa é de um receptor e de boa sintonia.

Somos todos receptores de mensagens, sintonizados em diversas faixas. Aliás, na própria vida, mudamos de sintonia ao sabor do vento. Desacreditamos no que acreditávamos, e passamos a crer no que duvidávamos. Até aí, nada de novo. Dinâmica do aprendizado.

Mas geralmente precisamos de uma figura de autoridade para aceitar um ensinamento. Um professor, alguém versado nas ciências, ou qualquer um que goze de certo prestígio (justificado ou não). Porém, o prestígio de escritores de autoajuda é um tanto controverso no meio literário. Para piorar, alguns desses autores são mesmo charlatões e pretensiosos.

Só que ensinamentos valiosos também podem vir de mestres pedantes, inusitados ou despreparados. Até mesmo de alguém de má fé. O portador da mensagem nem sempre é importante. Por isso, apesar de autoajuda não ser literatura, de boa parte de suas obras serem apanhados oportunistas de chavões, e de Neale Donald Walsch ser pretensioso, vale a pena saber um pouco mais sobre a série “Conversando com Deus”.

Tudo fala o tempo todo

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O escritor contou que passava por diversos problemas pessoais. Em 1992, começou a redigir cartas para Deus, onde dava vazão à sua frustração. De repente, caiu do cavalo na estrada para Damasco: uma espécie de “força” o impelia a responder suas próprias perguntas, como se ouvisse alguém ditando dentro de sua cabeça: nada mais nada menos que Deus. Ele anotou toda a conversa. Com ela, editou um livro – um tremendo sucesso. Depois, mais dois livros. E depois mais outros tantos, da mesma estirpe.

Na época em que li, seus livros trouxeram respostas. Ansiava por elas. Acho que para boa parte dos milhões de pessoas que compraram, também.

Há de se convir que não esteja fácil hoje em dia dar grande abertura a ensinamentos deste tipo de fonte. Talvez pela popularização e exploração comercial excessivas. Gurus, como Rhonda Byrne com seu “O Segredo”, viraram multimilionários. Autores como Lair Ribeiro vendem milhões, ainda que não recebam acolhimento da crítica.

Mas o sucesso destas obras prova que as pessoas seguem ansiando por respostas. O que, aliás, não deixa de ser meio estranho. Afinal, não te parece que tantas pessoas cada vez mais agem como se tivessem todas as respostas que precisam? Quantas e quantas falam sobre tudo, sobre suas muitas certezas, e principalmente sobre elas mesmas... E quando (e se) te ouvem, o fazem apenas por educação, não é verdade? (Bem, triste para elas: não há como aprender coisa alguma assim).

Talvez o que esse grande público tão ensimesmado e cheio de certezas procure na autoajuda seja algumas respostas fáceis e soluções mágicas. Tudo o mais não chama a atenção.

Só que, se não houver curiosidade e interesse, não há como sintonizar outras faixas. Sem ouvir e ler com atenção, nada se recebe.

É aqui que tudo se liga: segundo Deus contou a Walsch, isso tudo é parte do plano. Apesar da balbúrdia e da cacofonia, as respostas Dele e seu amor estão sendo constantemente difundidos, por todos os meios, para que alcancem a todos. Basta estar atento. Deus também lhe disse que insistirá nisso, até que responda a todas as dúvidas.

Então, é preciso sintonizar. Prestar atenção a tudo o que ler ou ouvir. Ou sentir. Por mais suspeita que seja a fonte.

Hmmm, pode ser, Walsch. Difícil discordar que há muito ruído e que está cada vez mais complicado garimpar o que realmente importa, mas que, vez ou outra, topamos com jóias.

Resumindo, a voz do divino pode vir de qualquer lugar. Concordo também. Já a ouvi, senti e li em muitos lugares, inclusive em artigos de autores publicados aqui.

Mas não é só isso, como diriam alguns comerciais. O Todo Poderoso explicou para o americano, entre diversas outras coisas, o porquê da vida.

A vida experimenta o que o Todo só conhece

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Algo assim: Deus, sendo tudo, não conhece (nem existe) nada fora de si. Tem todo o conhecimento. Mas não pode experimentar tudo o que conhece, por sua própria condição de infinitude. Ou seja, sabe o que é a incerteza, o medo e a ameaça – mas jamais poderia experimentá-los de forma pessoal sem desdizer-se.

Ao infinito, não existe falta, tempo ou oposição. Então, criou a vida com um propósito: ser uma fonte de incontáveis experiências, e com uma condição básica: ela sempre chega ao fim.

No livro, Walsch fala de uma centelha de luz dentro do sol. Na claridade ofuscante, não há nenhuma experiência que não a de luz. Assim era nossa condição antes da vida: unos com o Todo, indivisíveis.

Pela ânsia da experiência de finitude, e de todos os contrastes, o Todo deixou trilhões de fagulhas suas inundarem o cosmos e se manifestarem em vida, em seus diversos aspectos. Como centelhas de luz a brilhar na escuridão, para entenderem o que são sombras, trevas, ausência, incerteza, e o que é fenecer, longe da fonte inesgotável. Tudo faz parte de um plano inefável, com retorno garantido ao Todo.

Toda vida já surgida ou porvir, por mais insignificante que seja ou pareça, traça sua experiência – sempre única, inédita e irrepetível –, e retorna à fonte.

Segundo revelado no livro, a vida seria a intenção de um deus inexperiente, buscando as experiências em trilhões de pequenas centelhas suas espelhadas e espalhadas pelo cosmos, que florescem, e depois, inexoravelmente, morrem, e ao Todo retornam. Mas tanto carregam a Divindade em si que conseguem imitá-La e criar, inclusive a própria vida.

O bem e o mal são relativos (filosofica/historicamente, são mesmo). A morte iguala tudo, e é o ponto final de todas as experiências – durem elas segundos ou séculos. A dinâmica e o surgimento da vida, ramificação em espécies, extinção, evolução e tudo o mais, são meros autoajustes. A vida cumpre sua função desde que surgiu, e prosseguirá cumprindo. Este é o plano.

Nem é tão original. Algo nesta linha vai ao encontro de ensinamentos de grandes mestres. Buda: “Nascemos para morrer, o Eu é ilusão”; Lao Tse: “Porquanto tudo o que existe é um incessante vir e voltar, um nascer e um morrer, que volta ao imperecível”; e Jesus: “Sei de onde vim e para onde vou”.

Aí está.

Interessantes "revelações" vindas de livrinhos de autoajuda hoje baratos. Teoria simpática, plausível e ressonante. Deus é e está literalmente em nós (algo endossado por mais um mestre: Campbell), e somos todos um. A vida e tudo o que ela cria são um apanhado de experiências, que podem superar até um poder infinito, que não pode cria-las da mesma forma. Porque o valor delas está justamente na impermanência, na finitude e na incerteza.

E, a quem puder questionar, tudo depende da disposição em aprender. Com a correta sintonia, erguendo as antenas e captando os sinais, o conhecimento e algo mais chegam em ondas.

Esse seria o clamor e o propósito da vida.

Experimente.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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