lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Receberemos visitantes da Quinta Dimensão?

Nosso conhecimento é sempre inquietantemente provisório. Mas sempre aprendemos com os visionários, nas ciências e nas artes, que olham muito à frente de seu tempo, e nos deixam obras riquíssimas em analogias e interpretações. Como o livro "Planolândia".


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Nossas ações e nossa compreensão do universo se baseiam na noção espaço-tempo: tudo o que não esteja inserido nas três dimensões espaciais (largura – comprimento – altura), e na dimensão temporal (também divisível em três: passado – presente – futuro), se torna uma abstração. Por exemplo, para a imensa maioria, entender teorias como a do “Universo de 10 Dimensões”, ou pensar em conceitos como a infinitude, deixam nosso cérebro como que girando em falso, numa espécie de looping.

É aí que uma ilustração pode ajudar. Por exemplo, entendemos as formas no espaço pela perspectiva: uma mangueira no chão vista de cima de um prédio é uma linha; de muito perto, é um tubo; de dentro, é um túnel. Desta forma, uma das hipóteses para explicar como seria um universo de 10 dimensões é que as outras dimensões estariam “enroladas” num espaço diminuto e ficariam imperceptíveis a nós. Justamente como no exemplo da visão da mangueira, cuja forma muda conforme a escala e a proximidade. Fica bem mais fácil de assimilar.

Assim, há algumas analogias, ilustrações e afins que possibilitam um entendimento quase instantâneo de uma determinada proposição. Mais que isso, para não-especialistas compreenderem alguns postulados científicos, somente por meio de uma delas. E há também alegorias tão bem construídas que podem revelar um conhecimento digno dos estudos mais rigorosos.

Mais de 130 anos e instigante Planolandia_capa_2.jpg

É o caso do livro “Planolândia” (Flatland), de Edwin Abbot Abbot. Foi publicado pela 1ª vez na Inglaterra, em 1884, e desde então, sua simplicidade e riqueza vem desconcertando o mundo. A história: num mundo de duas dimensões, mora A. Quadrado. As mulheres são triângulos (ironização da ideia de inferioridade delas), e a complexidade e o status dos seres da Planolândia têm relação com o número de lados e simetria de suas figuras. Existe um conceito de evolução: a tendência é que um ser quadrado, unido à sua esposa triangular, tenham como filho um pentágono ou um hexágono, que gerarão, por sua vez, heptágonos ou octógonos. Logo, os círculos são os mais evoluídos, e ocupam, não à toa, os cargos políticos e eclesiásticos. E há ainda muitas outras ironias do tipo.

Num dia qualquer, está A. Quadrado em sua casa, quando percebe um círculo lá dentro. Por pertencer a uma casta inferior, A. Quadrado o reverencia, mesmo sem entender como ele lá entrou. O que ele não sabe é que o círculo, na verdade, é uma esfera, que vinda da “Espaçolândia”, entrou por acaso na Planolândia, e só pode ser vista na sua secção dentro dela (para visualizar, imagine uma "folha virtual” feita de luz, como o raio emitido por um leitor de código de barras, e passe pelo espaço dela uma bola transparente; a parte iluminada da bola, dentro do espaço desta “folha”, será um círculo).

Por mais que a Esfera lhe explique, A. Quadrado não entende a dimensão adicional que há na Espaçolândia. Aí então, a Esfera lhe leva para uma jornada. Primeiro, conhecer a “Linhalândia”, onde todos os seres são segmentos de uma reta. Então, A. Quadrado começa a entender: para os seres da Linhalândia, que veêm apenas um de seus lados, ele é apenas uma linha – sua largura ou seu comprimento – já que eles não conseguem ver ambos em perspectiva.

Em seguida, vão até a “Pontolândia”, onde o ser é um ponto, e ele é tudo (o que isso lembra?) e não entende nada que esteja fora dele. Mesmo as vozes de A. Quadrado e da Esfera ele acha vir dele mesmo.

Visitando, finalmente, a “Espaçolândia”, A. Quadrado, vendo cubos, compreende a tridimensionalidade, e, quando retorna para sua casa, tenta explicá-la aos seus conterrâneos, em vão.

A Esfera o visita novamente, e ele se diz preparado para ir à próxima dimensão, além da Espaçolândia, onde os cubos terão 24 arestas, ao invés de 12, e assim igual e sucessivamente a todos os outros seres. O resultado é que a Esfera se indigna, dizendo ser impossível haver mais dimensões além das conhecidas, e A. Quadrado termina seus dias internado num hospício, vendo seu sol plano nascer igual a ele próprio.

Conhecimento sempre transitório Escher_Cube.png

De início, esta formidável analogia já abala algumas convicções sólidas. Resumindo, aquilo que conhecemos pode ou estar errado ou ser apenas a superfície. Aliás, isso vem sendo confirmado pela ciência, desde que ela foi criada. Conceitos tidos como absolutos foram e continuam sendo revistos: o tempo não flui de maneira uniforme, a luz pode ser “dobrada”, uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, e por aí vai.

Daí vem que não há nenhuma razão para se descartar a possibilidade de haver outras dimensões, ainda que só nos movimentemos nas quatro conhecidas. Ou que em outros universos paralelos, separados por espécie de memBranas e talvez acessíveis só por "buracos de minhoca", não haja outras versões nossas (ainda que aqui o maior complicador seja a definição categórica do “eu”). Enfim, proposições que contrariem cabalmente aquilo que conhecemos não podem ser automaticamente descartadas, porque a verdade pode ser bastante contraintuitiva.

Verdade que isso abre muito espaço para a pseudo-ciência, o que é uma discussão à parte. Mas até essa auxilia a construção do nosso conhecimento, deliciosa e inquietantemente provisório. Por sorte, cientistas e pesquisadores sabem que a maior vergonha é não perguntar, e aventam possibilidades estranhíssimas para um leigo, e até risíveis – a não ser que, cedo ou tarde, se provem certas. O que volta e meia acontece.

Escritores, então, sequer tem o compromisso de imaginar algo viável - mas há alguns pródigos em acertar, como Verne e Asimov. E outros, como Abbot e muitos filósofos gregos, entregam obras atemporais, que poderão ser discutidas até séculos depois de publicadas.

Por isso, se por acaso receber uma visita de um ser fantasmagórico, que provavelmente apareceria “do nada”, se materializaria e depois iria sumindo, tente não se assustar, nem descarte imediatamente aquela hipótese que parece título de filme do Roger Corman: pode ser um "Habitante da 5ª Dimensão", entrando, por acidente, no nosso pobre plano só tridimensional.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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