lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

A lição das abelhas torradas

O que abelhas torradas podem nos ensinar? Talvez seja necessário largar o comportamento padrão vigente em todas as colmeias para descobrir.


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Uma abelha zunia perto de mim, atraída pelo catchup adocicado do cachorro-quente que eu comia no balcão de uma lanchonete, cuja fachada tem vidro do teto ao chão, e grandes janelas que se abrem para uma avenida arborizada.

Outra abelha voava perto do meu refrigerante, e outras tantas se deliciavam nos latões de lixo. Olhei para baixo, e vi abelhas andando sobre a parede de vidro. Uma ou duas arremetiam contra ela, como se ultrapassá-la fosse questão de insistência. Algumas agonizavam no chão, desidratadas e exaustas, enquanto outras jaziam, mortas. Torradas pelo sol inclemente, com as asas crestadas e as patinhas para cima.

Fiquei observando aquilo, e pensei que aquelas que morreram pelas vãs tentativas em ultrapassar o vidro estavam a pouco mais de um metro da abertura da janela, logo acima do balcão de mármore; ou seja, um voo de segundos. Mas a insistência e a falta de “entendimento” as levaram à morte. Foi aí que tive alguns insights não muito lisonjeiros.

Barreiras invisíveis

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Deduzi a armadilha que as matou: sem ter como entender nem ultrapassar o vidro, mas vendo o mundo externo e sentindo o sol, elas ficavam ali, no que era familiar. Eu estava abrigado dos raios solares por uma coluna, que fazia sombra. A janela à minha frente mostrava a liberdade e o caminho da colmeia. Mas elas teriam que largar a segurança confirmada por todos os seus sentidos: ignorar o jardim e o sol lá fora e explorar uma zona sem luz nem referenciais fáceis.

Preferiram arremeter contra o vidro. Será que quando o faziam, se tivessem raciocínio, rezariam à Grande Deusa Abelha para operar um milagre que as livrasse daquela situação? Será que teriam ouvido narrativas tenebrosas sobre uma grande barreira invisível, que talvez as pastores-abelhas assegurassem que existia para testar e punir as operárias infiéis?

Pensei que o voo da abelha (à parte ser utilizado para comunicação, o que eu não sabia na ocasião) era algo desnecessariamente dispendioso: ela voa, balança, paira no ar, ziguezagueia, e gasta energia enquanto poderia se deslocar melhor se fizesse traçados retos. Não sabia a vida média de uma abelha (operárias: de 28 a 48 dias), mas calculei que, proporcionalmente, aqueles segundos perdidos em ziguezagues equivaleriam a horas, quiçá dias perdidos, numa vida humana.

Ainda pensava sobre a desgraça das abelhas, por não terem a menor condição de entenderem porque havia aquela barreira invisível, corriqueira num mundo mais complexo do que poderiam supor. Elas morreram, de forma desnecessária e solitária. Súbito, o insight me acertou como uma ferroada no cérebro: no que nós, orgulhosos humanos, somos diferentes?

As abelhas somos ‘nozes’

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Dispendemos energia em ziguezagues vacilantes, nos quais se perdem dias e até anos, sem nos dirigir diretamente ao nosso objetivo. A maioria de nós vive para trabalhar, enquanto uns poucos zangões e rainhas têm outros privilégios. Nos deparamos com barreiras invisíveis, às quais não compreendemos, mas temos "certeza" que, como absolutamente tudo no universo conhecido, foi feito em função de nós. Criam-se histórias e mitologias em cima disso, e quase todos as tomam ao pé da letra. Rezamos, nos frustramos, batemos nossas cabeças até rachá-las: contra obstáculos, uns contra os outros, contra tudo. Daí, morremos.

Nós somos as abelhas torradas, quando nossa ignorância nos faz ficar só dentro daquilo que conhecemos e odiar tudo o que se afaste disso. Quando se salvar significa risco e mergulho no desconhecido. Quando não achamos que vai acontecer conosco, já que, ao contrário de todos os outros bilhões de abelhas, nós somos mais espertos e especiais.

Não é mesmo? Não é mesmo? Não é mesmo?

O que te bloqueia?

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Não sabemos quase nada sobre o que realmente importa: origem, propósito, o porvir. Não sabemos qual é o Grande Plano, e se há algum. Há muitos que se sentem confortáveis com um conhecimento que lhes foi dado: respostas codificadas num sistema de crenças mais ou menos antigo, que envolvem, quase sempre, um ser transcendental e um plano para seus filhos diletos. Pode ser. Alguém mais chato poderia dizer que essa mesmíssima convicção de conhecer as respostas se repete há milênios, com muitos deuses e mitologias que surgiram, foram adorados, e depois, esquecidos e abandonados.

Mas a questão é que, independente das explicações aos mistérios, as barreiras existem. Embora a ciência e conhecimento avancem, não é nada raro continuarmos prisioneiros em armadilhas mortais. E o detalhe é que ninguém é tão diligente para erguê-las quanto nós mesmos.

Qual a barreira que está te impedindo de ir aonde quer ir? De ser quem quer ser? De fazer o que gosta?

Algumas “barreiras” são inerentes à vida adulta em sociedade: desigualdade. Injustiça. Dor. E as prosaicas: pagar contas. Morar. Comer. Se vestir. Ganhar para tudo isso, ou ter quem forneça estas necessidades. Mas e aquelas que só estão ali porque você está usando uma abordagem errada?

Por exemplo: pessoas. Para que perder tanto tempo buscando agradar? Querendo ser quem não se é? Para que dispender tanta energia para se tornar algo padronizado (ou o contrário disso)? Para que insistir em relacionamentos tóxicos?

O que precisa acontecer para que arrisquemos uma mudança de rota?

Deveria ser suficiente nossos alertas: não estou feliz [estou desidratando]. Não me sinto útil [vou descansar um pouco no sol]. Queria fazer/ser/estar diferente [vou deitar com as patas para cima só um pouquinho].

E devíamos olhar para o lado, e ver o que a insistência e a ignorância destes sinais causaram a outros. Basta virar a cabeça e ver: pessoas medrosas/neuróticas/agressivas. Elas são as abelhas arremetendo contra o vidro, ignorando as que tentaram antes sem sucesso – porque acham que, com elas, dará certo.

Mas não dará.

Aprenda com os outros

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O psicólogo Daniel Gilbert, da Universidade de Harvard, em seu livro “O que nos faz felizes”, disseca muitos comportamentos que temos, que são dignos das mais obstinadas abelhas. Poderíamos evitar muitos dissabores se aprendêssemos com as experiências alheias. Mas achamos que somos diferentes, e que aquilo não serve para nós. Duplo engano. O autor fala que “nossa crença na variabilidade e na singularidade dos indivíduos é a principal razão para recusarmos o uso da experiência dos outros em nossas previsões”.

De fato, não somos tão diferentes assim. Ainda que com talentos e particularidades, no somatório geral, somos medianos como operárias numa colmeia.

Nem olhando o corpo das colegas torradas nós costumamos desistir – até que a fadiga nos mate e sejamos também “torrados no sol” – machucados, condenados, ou qualquer outra consequência inescapável de nossos atos, que se repetem.

Há pouquíssimas abelhas realmente mais sábias e experientes, e a esmagadora maioria de medianas, que podem estar a um passo de se darem muito mal. Podemos aprender com ambas.

Precisamos parar e pensar um pouco. Legal ser aguerrido(a) e não desistir. Mas tem horas que a única maneira de se prosseguir é mudando o caminho. Pode parecer contraintuitivo: largar algo que lhe dê a sensação de segurança. Um relacionamento; um ofício; um costume, um arranjo. Todos, a princípio, vantajosos. Mas você pode estar torrando no sol sem perceber.

Pense, sinceramente: suas atitudes estão te levando para onde? A pessoa que você é hoje, é quem você deseja ser?

Às vezes, a correção de rota é sutil; às vezes, é mais drástica. Mas crestar no sol não deve ser uma opção. Pode acreditar, de abelha para abelha. Foi uma quase-torrada que me contou.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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